Por que o dólar está em trajetória de queda e qual o impacto na vida do consumidor

A escalada da inflação no Brasil levou à alta da Selic, o que atrai investidores internacionais para o país

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
Legenda: A queda do dólar tem relação com a guerra na Ucrânia e com a alta dos juros no país
Foto: Shutterstock

Após ultrapassar os R$ 5,70 no ano passado, o dólar vem em uma trajetória de queda já desde o início de 2022. Na última semana, a moeda americana chegou ao patamar de R$ 4,74 e caminha para o que pode ser o maior recuo trimestral desde 2009. 

A valorização do real frente ao dólar é uma notícia boa diante de variáveis internacionais que aumentam o preço dos produtos no Brasil e a inflação já alta desde o ano passado. O efeito das variações cambiais, contudo, demoram alguns meses para chegar ao consumidor. 

De acordo com o economista da FGV Mauro Rochlin, a explicação para a baixa do dólar está intrinsecamente ligada à atual taxa de juros no país. A Selic mais alta torna o retorno dos investimentos de baixo risco no Brasil quase irresistível para os investidores internacionais. 

A maior entrada de dólares no país tem efeito imediato no câmbio: quanto mais a moeda americana entra no país, mais ela perde valor perante ao real.  

O economista alerta, contudo, que os investimentos no país são de curto prazo e que, por mais que seja difícil obter qualquer previsibilidade do câmbio, alguns fatores podem fazer com que esse patamar não se mantenha.  

A alta dos juros e baixa do dólar 

O país passa por uma onda inflacionária. Em 2021, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou bem acima da meta de inflação, acumulando alta de 10,06%.  

E, enquanto meta e inflação seguem descoladas, o mecanismo do Banco Central para conseguir baixar o índice é aumentar a taxa básica de juros. Desde janeiro do ano passado, o Comitê de Política Monetária (Copom) realizou altas sucessivas na Selic até o patamar atual, em 11,75% ao ano. 

Conforme o head de câmbio, sócio e assessor de investimentos da Ethimos, Lucas Brigato, para além da maior remuneração, a guerra na Ucrânia atraiu investimento externo para o Brasil, levando a uma valorização do real frente ao dólar. 

Com todo o problema na Rússia, boa parte dos recursos destinados para lá são distribuídos entre os países. Boa parte desse recurso veio para o Brasil. É um capital de curto prazo, talvez em um curto prazo de tempo ele também retire
Lucas Brigato
head de câmbio, sócio e assessor de investimentos da Ethimos

Ele aponta que o conflito também levou a uma valorização de commodities, o que ajudou a balança comercial brasileira. Com as exportações, também há uma maior entrada de dólares no país. 

Daqui para frente 

Como colocado por Brigato, o capital externo que entra no país é de curto prazo. Por não serem investimentos mais robustos e sim puramente com foco em rentabilidade por parte dos investidores, a situação pode mudar de um dia para o outro. 

Mauro Rochlin destaca que uma alta mais expressiva na taxa de juros americanas deve levar a uma migração de dólares daqui para lá. 

“Como os títulos públicos americanos são vistos como muito mais seguros que os brasileiros, uma alta expressiva da taxa de juros americana pode mudar o sentido”, coloca. 

Em meio a um ano eleitoral, o economista também aponta haver um aumento na volatilidade do mercado diante de gastos públicos que ponham em risco a responsabilidade fiscal. 

Para o diretor de câmbio da Ourominas e bacharel em Negócios Internacionais e Comércio Exterior, Mauriciano Cavalcante, a perspectiva para o curto prazo é de queda do dólar, mas o mesmo cenário não se estende para o resto do ano. Um dólar a R$ 4, por exemplo, é impensável. 

A curto prazo ainda temos viés de queda na cotação, em médio prazo que exista uma recuperação podendo voltar para o patamar entre R$ 4,90 e R$ 5,10, já no longo prazo a tendência é de alta por termos um ano eleitoral onde sempre trouxe muita volatilidade nas cotações
Mauriano Cavalcante
diretor de câmbio da Ourominas e bacharel em Negócios Internacionais e Comércio Exterior

Lucas Brigato afirma que o movimento de queda do dólar não é uniforme e que ocorrem altas mesmo em meio a uma trajetória descendente. Segundo ele, caso o dólar se mantenha entre R$ 4,75 e R$ 4,90 ainda dá para se configurar como uma queda. 

A guerra na Ucrânia, porém, é um ponto de incerteza. 

“A guerra é completamente imponderável, enquanto estiver mais limitada, vai gerar a consequência que ela está gerando. O problema é que de noite para o dia isso pode mudar, nos deixa em uma dúvida tremenda”, resume. 

Impacto para o consumidor 

Um dólar mais baixo reduz o custo para as importações, o que poderia tornar mais barato produtos importados ou com matéria-prima que vem de fora. Mas, segundo Rochlin, isso não é exatamente o que deve acontecer diante de outras pressões inflacionárias. 

Daqui a alguns meses, se o dólar se mantiver nesse patamar, começaremos a ver uma alta menos expressiva, uma inflação menor. Não é uma queda de preços, mas uma alta em menor ritmo
Mauro Rochlin
economista da FGV

Para Brigato, esse efeito deve começar a ser sentido no segundo semestre para que a redução nos custos de matéria-prima chegue até o consumidor, na ponta da cadeia.