Por que o dólar está caindo? Especialistas comentam fatores da valorização do real

Melhora dos mercados internacionais, avanço da vacinação e a evolução de índices na economia brasileira podem estar provocando nova desvalorização da moeda americana no Brasil, apontam economistas

Legenda: Na última terça-feira (22), o dólar fechou cotado abaixo dos R$ 5 pela primeira vez desde junho de 2020
Foto: Fernanda Carvalho

Depois de uma forte tendência de valorização com o avanço da pandemia, o dólar vem apresentando sinais de queda em relação ao real. Mas após quase alcançar o patamar dos R$ 6, o que explica a recente queda da moeda americana?

Segundo especialistas, um conjunto de fatores seria responsável pelo cenário de enfraquecimento do câmbio, passando desde a melhora de índices na economia brasileira, o aumento da taxa Selic e a retomada dos mercados internacionais. 

Segundo o economista Alex Araújo, no início da pandemia os investidores observaram um cenário mundial de incertezas em relação à atividade econômica nos principais mercados. A busca pela moeda americana como ativo de segurança cresceu consideravelmente e fez com que a cotação adotasse tendência de elevação constante. 

Contudo, com o avanço do processo de vacinação contra a covid-19 evoluindo no mundo inteiro, o economista prevê que os investidores já estão saindo dessa posição de mercado e começando a buscar outras opções . 

"Para compreender melhor, a gente precisa lembrar que o dólar seguiu o agravamento da pandemia. Ele vinha com uma tendência de pressão e o que aconteceu foi que os investidores buscaram a moeda como reserva de segurança, então isso fez com a moeda se valorizasse", explica.

Possíveis razões para desvalorização do dólar frente ao real: 

  1. Melhora de índices na economia brasileira
  2. Avanço na vacinação mundial e estabilização de mercados internacionais
  3. Altas da taxa básica de juros no Brasil
  4. Interesse de investidores em empresas brasileiras de exportação de commodities

Cenário nacional 

No Brasil, contudo, essas flutuações foram potencializadas, segundo Araújo, pelo cenário de instabilidade política e fiscal da gestão federal durante a pandemia e sobre questões anteriores as do atual governo.

As leituras sobre o mercado nacional fez com que o real se tornasse a segunda moeda do mundo que mais se desvalorizou frente ao dólar, sendo superado apenas pela Lira turca. 

Contundo, questões particulares do mercado nacional também poderão ajudar o País a recuperar a valorização cambial em relação ao dólar. 

Mercado de commodities

Araújo projetou que, como as economias pelo mundo estão em processo de retomada, o mercado internacional pode pressionar o preço das commodities para cima, elevando o valor de algumas empresas brasileiras.

A movimentação deverá favorecer a balança comercial do País e, assim, ajudar a valorização do real ante o dólar. 

No Brasil, nós temos o avanço da vacinação e o ciclo de commodities que faz com que empresas nacionais se valorizem e temos um forte movimento de exportação que faz com que o dólar se desvalorize um pouco", disse Araújo.
Alex Araújo
economista

Novo fluxo de recursos 

A opinião é corroborada pelo economista e coordenador do curso de Economia na Universidade de Fortaleza (Unifor), Allisson Martins, que explicou o impacto das medidas chamadas expansionistas nos Estados Unidos e em países da Europa para o fluxo de recursos no Brasil. 

Ele comentou que a injeção de recursos dos governos em outros países gerou um fluxo importante de recursos no mercado internacional, podendo gerar até novos investimentos no Brasil. 

No contexto internacional, temos as medidas fiscais e expansionistas nos EUA e na Europa, que injetaram recursos no sistema. E quando o dinheiro entra no sistema, ele busca caminhos para ir para algum lugar. Quando esse dinheiro vem para mercados emergentes, a gente entra no mercado nacional", explicou.
Allisson Martins
economista e coordenador do curso de economia da Unifor

Ele ainda citou a melhora da economia brasileira como um fator de potencial atração desses recursos. 

"O PIB (do Brasil) cresceu além das expectativas e isso faz com que grandes investidores voltem a trazer recursos para o País. Como temos um grande fluxo de recursos e a situação do país está em retomada, temos uma combinação muito boa. Temos um bom fluxo e isso deve continuar por um tempo", afirmou. 

No início de junho, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o PIB brasileiro cresceu 1,2% no primeiro trimestre deste ano ante igual período de 2020. Com o resultado, o indicador voltou ao patamar anterior à pandemia.

Impacto da Selic

Os especialistas divergem, entretanto, sobre o impacto das novas altas da taxa básica de juros brasileira, a Selic. Com o aumento da taxa, a expectativa básica é de que os investidores busquem mais opções de investimento no Brasil, esperando retornos melhores. 

Contudo, para Araújo, como a previsão de inflação no Brasil ainda supera a da taxa de juros para 2021, as novas altas ainda não seriam suficientes para trazer impactos no mercado internacional, gerando potenciais desvalorizações do dólar. 

A Selic ainda não tem um efeito no dólar porque estamos com uma taxa de juros negativa, já que a taxa de inflação supera os juros no atual momento. O investidor não tem buscado investimento de curto prazo, isso não deve influenciar ainda o cenário do dólar", defendeu. 
Alex Araújo
economista

Já Martins acredita que os aumentos da taxa de juros devem, sim, atrair novos investidores ao País, o que pode gerar novas valorizações do real frente ao dólar. As novas tendências de alta da Selic, aliadas às sinalizações do Congresso Nacional para efetuar reformas estruturantes, podem impulsionar o interesse do investidor segundo o economista. 

"Além da retomada da economia, temos ainda o aumento da taxa de juros brasileira, a Selic. Essas perspectivas, aliadas às reformas que surgem no radar, levam o câmbio para baixo, sim", disse.

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