Por que o Brasil enfrenta mais uma crise energética? Seca é apenas um dos motivos

Dependente das hidrelétricas, a produção de energia do país foi impactada diretamente pela falta de chuvas

hidrelétrica de itaipu vista a distância
Legenda: A geração de energia na usina de Itaipu é a menor dos últimos 27 anos
Foto: Shutterstock

Esta não é a primeira vez que o Brasil passa por uma crise de abastecimento energético. Em 2001 a situação foi tão crítica que foi necessário realizar cortes programados da demanda para que o sistema de distribuição elétrico desse conta. 

Vinte anos depois a situação não é igual. A matriz evoluiu substancialmente, mas ainda restam algumas semelhanças com aqueles tempos.

A pior crise hídrica dos últimos 91 anos fez com que o volume dos reservatórios hidrelétricos baixasse a níveis históricos, o que afetou diretamente a produção de energia no país. 

O resultado disso é a conta de luz cada vez mais alta. Após meses com a bandeira vermelha patamar 2, a mais cara até então, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) criou no final de agosto a bandeira “escassez hídrica”, que estabelece a cobrança adicional de R$ 14,20 a cada 100 kWh consumidos. 

A adoção de bandeiras tarifárias é uma das medidas que podem ser tomadas para remediar a crise. Será que havia algo que pudesse ter sido feito para evitar que a situação chegasse a este ponto? 

Dependência das hidrelétricas 

Quando o país enfrentou apagões em 2001, a matriz elétrica brasileira tinha dependência de mais de 80% da geração vinda de hidrelétricas. Essa fatia vem se reduzindo de lá para cá, dando espaço para outras fontes de energia, como as renováveis, mas ainda se trata de uma parcela considerável. 

“Olhando hoje, a matriz está mais diversificada em relação a 2001. Temos uma maior geração de eólica. Mas a nossa dependência à geração hídrica ainda existe, se a gente reduz os reservatórios, temos uma situação de suprimento muito crítica”, explica o economista e pesquisador do FGV Ceri, Diogo Lisbona.  

A geração de energia por hidrelétricas tem uma vantagem clara: a capacidade de manter reservatórios e, dessa forma, armazenar energia. Isso ajuda a garantir uma constância no abastecimento – algo que não dá para esperar em energias como a solar, por exemplo, que só tem produção durante o dia. 

Contudo, as hidrelétricas dependem diretamente da incidência de chuva. Se não chove, os reservatórios secam e, sem água para passar pelos geradores, não há produção de energia.  

Em momentos como este, se torna necessário acionar as usinas termelétricas, que existem no sistema como uma reserva de segurança para momentos de crise. O problema é que o custo desse tipo de produção é muito mais alto, por depender da queima de combustíveis como carvão ou petróleo. 

Reserva de segurança 

O presidente da Câmara Setorial de Energias Renováveis do Ceará, Jurandir Picanço, destaca que, apesar da dependência das chuvas, seria possível evitar crises como a que passamos com planejamento.  

Como não há como prever com exatidão fenômenos meteorológicos, o governo teria que fazer investimentos em usinas e linhas de transmissão com base em previsões estatísticas. E o custo desses investimentos pesaria no bolso do consumidor.  

“Se eu tivesse feito investimento, o custo seria muito menor porque não teria que comprar tanta termelétrica. Se tivesse como ter certeza, era fácil evitar. Mas como não tem certeza e é caro ter uma reserva por segurança”, diz.  

Segundo Picanço, obras como essas demoram cerca de dois anos para serem concluídas, então mesmo que a escassez hídrica fosse prevista com meses de antecedência, uma ação para remediar a crise teria que ter sido tomada muito antes. 

Tem que aumentar a reserva e os consumidores devem pagar um pouco mais por essa segurança. Um fato como esse é uma situação que abala economia, finanças pessoais. É melhor se pagar um pouco mais em situações normais para se evitar situações de crise
Jurandir Picanço
presidente da Câmara Setorial de Energias Renováveis do Ceará

A questão ambiental 

Ainda que fosse difícil ter a precisão de quando uma crise hídrica iria ocorrer, a vinda de uma situação como essa já era de se esperar, conforme o professor de física da Uece e doutor em ciências atmosféricas, Alexandre Araújo. 

A falta de chuva na região Sudeste, Sul e Centro-oeste, onde estão localizadas as principais hidrelétricas do país, é obra de diversos fatores que poderiam ter tido intervenção governamental. 

O especialista enfatiza que o desmatamento na Amazônia impacta diretamente a incidência de chuvas sobretudo nessa região, em razão dos jatos de baixos níveis. A derrubada de vegetação na floresta é hoje a maior dos últimos 10 anos, com crescimento de 51% nos últimos 11 meses. 

área desmatada na amazonia
Legenda: O desmatamento na Amazônia cresceu 51% nos últimos 11 meses, de acordo com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
Foto: Shutterstock

A falta de chuva se soma ao aquecimento global. “Quando tem o planeta aquecendo, aumenta as taxas de evaporação. Nossos reservatórios estão perdendo mais água porque está mais quente e, se está chovendo menos, a tendência seria os reservatórios secarem”, elucida. 

“O Brasil construiu uma situação de tempestade perfeita. Agora correm atrás para ligar todas as termelétricas e incentivar novas termelétricas. Mas olha o tamanho do poço sem fundo que é isso. Toda termelétrica fóssil emite CO2, o que aumenta o aquecimento global”, resume. 

A esperança do setor elétrico é que volte a chover em novembro, quando se inicia o próximo período chuvoso da região. Caso chova, há a expectativa que os reservatórios se recuperem, dando um respiro à produção de energia. 

Diogo Lisbona enfatiza, contudo, que não dá para contar apenas com soluções que dependam da chuva. 

“A gente tem registrado hidrologias não muito boas nos últimos anos, abaixo da média. A gente opera esperando que a hidrologia vai voltar para a média, mas talvez essa média possa estar mudando. Mudanças climáticas afetam um pouco essa operação e a disponibilidade que a gente acredita que teria”, destaca. 

Necessidade de conter o consumo 

O remédio amargo diante da situação atual é reduzir o consumo de energia, seja por meio de políticas de desconto promovidas pelo governo ou diante do impositivo colocado pelas bandeiras tarifárias. 

Para Lisbona, esse é uma das principais atitudes a serem tomadas para que se possa sair da crise atual. Ele considera essencial que existam campanhas reforçando a situação como crítica e a necessidade de otimizar o consumo. 

Segundo ele, apesar de pesarem no bolso no momento, as bandeiras tarifárias são uma estratégia válida no momento para evitar reajustes mais caros no futuro e impor o senso de urgência. 

“A bandeira tarifária é uma decisão. Se não tiver bandeira tarifária vai ter um descasamento do fluxo de caixa. Isso vai ser corrigido no reajuste. Trazer uma bandeira tarifária que evite ter um saldo devedor tem uma vantagem de evitar custos financeiros e sinalizar o custo corrente do consumo”, pontua. 

Investimento em energias renováveis 

O cientista chefe em energia da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico (Funcap) e professor do departamento de engenharia elétrica da UFC, Fernando Antunes, reitera que a única forma de evitar crises energéticas futuras é apostar nas energias renováveis.   

Hoje o sistema elétrico pode ser bem diversificado, poder ter água, solar e eólica, além da biomassa. Se começou a fazer esses investimentos muito atrasado. Se tivesse feito antes, talvez a crise hídrica estivesse menor. Hoje o Nordeste está segurando o país por causa das eólicas e fotovoltaicas
 Fernando Antunes
cientista chefe em energia da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico (Funcap) e professor do departamento de engenharia elétrica da UFC

Ele afirma que é possível hoje realizar o gerenciamento de sistemas elétricos totalmente renováveis, apesar de os custos ainda serem altos. E acrescenta que, mesmo que o hidrogênio verde não seja uma solução para a crise atual, pode ser a peça chave para a descarbonização do país. 

“Hoje a floresta amazônica está produzindo mais CO2 que oxigênio. Quando isso acontece, a tendência é desertificação. Não há espaço mais para não estar investindo em energias renováveis como solução para a crise energética que estamos passando”, ressalta. 

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