Pandemia deve elevar nível de endividamento do cearense em 2020

Em abril, a parcela de consumidores endividados em Fortaleza atingiu o maior patamar em 11 anos, já como reflexo da crise. Especialistas ressaltam a importância do controle do orçamento neste período

A redução parcial ou total da renda ocasionada pela pandemia do novo coronavírus já reflete no endividamento das famílias e deve continuar causando desequilíbrio mesmo após o fim da pandemia. Segundo especialistas, a projeção é de que as dívidas aumentem, uma vez que a maioria dos consumidores deve optar por parcelar em mais vezes as compras ou negociar a prorrogação de pagamentos. O risco de perder o controle ainda pode levar à inadimplência.

O economista e membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon), Ricardo Eleutério, lembra que as famílias e empresas já vinham apresentando altos índices de endividamento antes da crise.

Segundo pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Ceará (Fecomércio-CE), o endividamento dos consumidores de Fortaleza nos primeiros três meses deste ano variou de 61,4% a 66%, percentual que saltou para 83,1% em abril, já como reflexo da crise.

Eleutério explica que algumas isenções e adiamentos estão surgindo como forma de amenizar o impacto durante a crise, mas ressalta que a conta terá de ser paga em algum momento. "Por falta de entendimento de parte da população, algumas pessoas acham que, ao prorrogar o pagamento de alguma dívida, não vão ter de pagá-la lá na frente ou mesmo deixam de pagar a conta de energia porque não vai haver cortes nesse período", alerta.

O economista ainda ressalta que, no pós-crise, as pessoas ainda não vão ter recuperado suas rendas. Diante do maior endividamento e um orçamento ainda comprometido, também se elevará o atraso nos pagamentos das contas.

"A ressaca, o desdobramento, vai ser bastante significativo tanto para as famílias quanto para as empresas. É preciso disciplina para tentar amenizar as consequências", diz.

Em abril, 25,3% dos consumidores de Fortaleza possuem alguma dívida em atraso e 9,1% já estão inadimplentes, ou seja, atrasaram o pagamento de algum débito por mais de 90 dias, segundo levantamento da Fecomércio-CE.

O economista Allisson Martins reforça a influência da pandemia do novo coronavírus na elevação dos índices de endividamento e inadim-plência das famílias. Ele lembra que, além da redução da renda por conta da paralisação das atividades - no caso principalmente dos autônomos -, o desemprego também é outro fator que coloca as famílias em dificuldade.

"As pessoas desempregadas ou aquelas com medo de perderem o emprego já começam a priorizar o pagamento das contas essenciais e deixam algumas em atraso", esclarece. Ele estima que, pelo menos, até maio, os indicadores devem piorar.

"Em razão do aprofundamento da pandemia, a perspectiva é esses resultados se deteriorarem ainda mais, vamos ter um recrudescimento, um termo usado por economistas para dizer que ainda vamos piorar", acrescenta.

Para Martins, a preocupação maior diz respeito ao período de prolongamento da ala do endividamento e inadimplência. "O número ótimo seria zero contas em atraso. Mas devemos ficar atentos à trajetória dessas duas curvas. Melhor que pensar em um patamar ótimo é torcer para que as duas curvas durem o menor tempo possível".

Crédito

O cartão de crédito também tem sido uma saída para aqueles que estão sem renda e precisam realizar as compras essenciais. Neste mês, a forma de pagamento foi usada por 71,2% dos consumidores da Capital para compras a prazo. De acordo com o presidente da Fecomércio-CE, Maurício Filizola, as pessoas estão comprando no cartão, uma vez que só precisam pagar depois de algumas semanas.

"As pessoas fazem isso como uma forma de ganhar tempo para conseguir o dinheiro, para preservar algum recurso que elas tenham e possam vir a precisar em uma possível demissão, e até mesmo como prevenção, para evitar a circulação de dinheiro em espécie e que possa estar contaminado", explica.

Entre os motivos para a utilização do cartão também está a comodidade de poder comprar sem sair de casa, segundo Filizola. O acúmulo de pontos e milhas e a possibilidade de parcelamento ainda são citados por Eleutério, mas ele alerta que o e-commerce pode ser um dos motivos para desequilíbrio financeiro justamente porque estimula as compras a crédito.

Controle

O presidente da Fecomércio-CE orienta que é preciso manter o controle dos gastos neste período, a fim de evitar atrasos nos pagamentos e inadimplência. "Que cada um tenha a sua responsabilidade de ter um orçamento, buscar equilibrar as contas para dar a sua contribuição para a economia. Sei que dar uma dica como essa num momento desafiante como hoje pode ser mal utilizado, mas é o que a gente como instituição tem de fazer para o mercado e a economia fluir com responsabilidade", argumenta.

Martins ressalta a importância de fazer o controle de gastos, seja utilizando caderno, planilhas ou aplicativos. "É buscar a forma que mais se adeque ao seu perfil", recomenda. Já Eleutério aponta que é necessário um reequilíbrio do orçamento neste momento, tendo em vista que algumas despesas aumentam e outras diminuem.

"A inflação de março e a prévia de abril indicam redução na inflação, mas os alimentos, por exemplo, não estão ficando mais baratos porque são afetados pela demanda, que aumentou. Já os serviços de água, energia e gás acabam pesando mais não porque estão ficando mais caros, mas porque o consumo aumentou com as pessoas passando mais tempo em casa", detalha o economista.

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