Influenciadores digitais do Ceará se profissionalizam e geram rede de empregos

Em uma década, profissionais cearenses trocam os blogs pelo Instagram e ganham suporte profissional de comunicação, jurídico e financeiro

edith gomes
Legenda: Influenciadora Edith Gomes hoje conta com a ajuda de outros profissionais que dão suporte à carreira e permitem que ela tenha mais disponibilidade para criação de conteúdo e contato com os seguidores
Foto: Camila Lima

O ano era 2008. Em uma madrugada, a hoje influenciadora e empresária Edith Gomes criava o seu primeiro blog de moda para compartilhar as dicas que até então iam para o hoje finado Orkut. A inspiração veio da também influenciadora pernambucana Camila Coutinho, que na época mantinha um site chamado “Garotas Estúpidas” com o mesmo objetivo: falar sobre as tendências do momento.

Treze anos depois, Edith, que começou o blog sozinha e sem a perspectiva de que se tornasse um trabalho, hoje recebe pelas dicas que compartilha no Instagram, que conta com 258 mil seguidores e 8,8 mil postagens.

Ela estuda para produzir conteúdo e possui uma rotina organizada de entregas, construída com o auxílio de uma assessora.

O Diário do Nordeste inicia uma série de matérias sobre o mercado de criadores de conteúdos e sobre influenciadores digitais da periferia de Fortaleza. Até sábado (5), vamos divulgar, a cada dia, o perfil de um influencer e mostrar como eles chegaram ao sucesso nas redes sociais.

Funções de suporte

Legenda: A influencer contrata periodicamente serviços freelancers de fotógrafos e editores de vídeo
Foto: Camila Lima

“A minha assessora, a Nay, está comigo há cinco anos. Eu fico com a parte de pensar no conteúdo e lidar com os meus seguidores, responder aos directs (no Instagram). Ela fica responsável por tratar com os clientes”.

A assessoria é só uma das funções complementares que ela considera extremamente necessárias para manter em ordem sua rotina como influenciadora digital.

Além do trabalho de Nayara, Edith contrata periodicamente serviços freelancers de fotógrafos e editores de vídeo, a depender das entregas que precisa fazer.

"Eu busco compartilhar muitas coisas da minha rotina, um conteúdo bem lifestyle. Em cima disso, eu crio o meu conteúdo. Nós também destinamos dias da semana para a criação de conteúdos específicos dos clientes com quem tenho contrato”.
Edith Gomes
Influenciadora digital

Mas nem sempre o trabalho desempenhado por Edith contou com este suporte profissional. Nos primeiros dois anos de blog, não havia produção de conteúdo remunerada.

“Eu comecei sozinha, contratava só 'freela' de fotógrafo. Depois eu fui vendo que realmente havia a necessidade de profissionalizar aquilo que eu estava fazendo para dar conta dos clientes”, detalha.

A onda de profissionalização no meio foi se espalhando entre os contemporâneos de Edith e os que vieram depois. Na avaliação dela, quanto mais a carreira de influenciador digital se profissionaliza, melhor para o meio e para os empregos diretos e indiretos gerados.

Legenda: Edith Gomes iniciou como influenciadora em 2008, quando criou um blog para compartilhar dicas de moda
Foto: Camila Lima

“Eu acho que no Ceará tem muita gente boa, que faz uma produção de conteúdo bacana, relevante e que comunica muito bem. Como eu tenho esses 11 anos de trabalho, eu vi muita gente crescer e fico muito feliz, porque eu acho que isso agrega ao trabalho de todo mundo, contribui para a profissionalização, todo mundo cresce e a nossa profissão ganha mais respeito”, destaca Edith Gomes.

“Cada vez que um cresce, os outros são impulsionados e outras profissões também crescem”.
Edith Gomes

Para ela, um gargalo ainda enfrentado hoje pelos influenciadores é a falta de reconhecimento da atividade como profissão.

“Acham que a gente tem que produzir conteúdo de forma gratuita e eu não acho isso justo. É uma profissão como qualquer outra, uma profissão que demanda tempo e que muitas vezes demanda 24 horas. A gente não consegue se desligar, porque a gente se importa com a produção de conteúdo e em dar atenção aos seguidores. Ficamos em função de realmente responder, interagir, tirar as dúvidas, então acho que hoje o problema do mercado é esse”.

Dedicação à produção de conteúdo

Um trabalho de 24 horas. O influenciador digital Luiz Victor Torres também compartilha desta visão. Ele começou a produzir conteúdo profissionalmente em 2016 e, desde então, mantém uma rotina organizada para que as demandas dos clientes e a criação de conteúdo para os seguidores sejam concretizadas.

“Eu preciso manter a página alimentada, mesmo que eu não esteja ganhando. É um trabalho de 24 horas mesmo. É preciso estar pensando sempre um ou dois meses à frente. Fora da época da pandemia, chegava a programar seis meses antes o que eu ia fazer. É preciso buscar sempre evoluir e crescer os números do Instagram, então é um grande desafio”.
Luiz Victor Torres
Influenciador digital

A carreira começou logo após Luiz Victor ser convidado por uma revista para assinar uma coluna digital no Instagram com dicas sobre o que fazer em Fortaleza. Com o passar dos meses, ele foi ganhando visibilidade e resolveu produzir conteúdo para os seguidores que ia ganhando.

“Começaram a aparecer seguidores por causa das postagens e eu comecei a entender que isso poderia ser transformado em um trabalho. Naquela época, era um tiro no escuro, mas eu estava lá. A produção de conteúdo, no início, era uma coisa muito mais amadora, bem informal”, explica.

Com as oportunidades de criação de conteúdo de forma remunerada, Luiz foi se profissionalizando cada vez mais. Com a dedicação maior à influência digital, a profissão de publicitário e a sociedade com duas empresas ao lado da família ficaram em segundo plano.

“Fiz muitas coisas informalmente para ganhar nome, visibilidade e foi um investimento, na verdade. Hoje a influência digital é 70% a 80% do meu tempo. Minha dedicação é total, abdiquei de certas incumbências nas empresas para me dedicar a isso”, pontua.

Para manter a página com dicas, sobretudo de viagens e gastronomia, sempre atualizada e as tratativas com os clientes em dia, o trabalho basicamente solitário de Luiz Victor foi se transformando em uma tarefa em equipe ao longo dos anos.

“Quando eu comecei, era só eu. Com a evolução desse conteúdo, passei a investir na qualidade de foto e vídeo. Fotógrafo e filmmaker já fazem parte do meu orçamento mensal. Tem assessoria pessoal, comercial, de imprensa, jurídica. Tudo isso foi entrando conforme eu fui sentindo o crescimento do trabalho. Já fiz até consultoria de produção criativa, que eu contrato pontualmente quando tenho alguma produção especial. É uma coisa bem extensa”, diz o influenciador.

Precificação do trabalho

Luiz Victor explica que a precificação varia de acordo com o tipo de entrega que o cliente deseja. “Tem empresa que busca divulgar uma promoção. Tem outras que buscam mais uma ação por branding do que realmente conversão direta de vendas. Quando uma empresa quer fazer essa conversão direta por vendas, com resultado de volume, eu digo que ele deve ter um produto incrível ou uma promoção muito boa”, pontua.

Ele destaca que prova tudo antes de indicar em sua página: “Faço essa averiguação antes”.

“A gente se preocupa muito com o retorno que aquele cliente vai ter. Por isso, fazemos um pós-venda para saber se o cliente ficou satisfeito, se conseguiu alcançar os resultados esperados”, acrescenta.

Rede de oportunidades

A profissionalização e o crescimento da atividade impulsionaram empregos e negócios como a Voir Imagem, empresa que oferece serviços e treinamentos em fotografia criativa.

A cofundadora e sócia-proprietária Rafaela Eleutério lembra que, ao longo de dez anos, parcerias com grandes influenciadoras locais e nacionais contribuíram para que muitas marcas de moda pudessem conhecer o trabalho da empresa.

“Em dez anos, o aumento e a profissionalização deste segmento é notável. E isso resulta em aquecimento para marcas locais, de moda, por exemplo, além de profissionais autônomos e empresas de comunicação, assessorias, agências de publicidade e marketing digital”, avalia.

“Os influenciadores mudaram de forma intensa o mercado em que nós atuamos, que é a moda. Quando começamos, as formas de divulgação eram catálogos impressos e distribuídos por Correios. Atualmente, as marcas trabalham com mais energia nas suas redes sociais e visual merchandising na loja física - e os influenciadores tiveram um grande papel nesse processo”, explica a empresária.

A empresa começou apenas com Rafaela e seu marido e sócio, Igor Dantas. “Durante esses anos, algumas pessoas fizeram parte do time. Em 2020, reduzimos novamente o nosso formato e atualmente nós temos dois prestadores de serviço que atuam nas redes sociais. Participamos constantemente de programas de consultoria e mentoria”, explica.

Desafios do mercado

Após muitos anos acompanhando o desenvolvimento da atividade no Ceará, Rafaela acredita que o mercado ainda está se desenvolvendo. “São desafios de um mercado ainda em processo de profissionalização, como não ter uma tabela-guia de valores, poucas opções e pouco acesso à formação na área”, detalha. 

Além disso, outra questão, conforme Rafaela, tem afetado a saúde mental de quem trabalha no meio. “Outro desafio constante está ligado ao bem estar emocional. Existe uma aceleração das informações e há uma quantidade grande. Muitos profissionais transparecem ansiedade e se comparam constantemente com outras colegas do ramo”, diz a empresária.

Como solução, Rafaela sugere que sejam ampliadas as oportunidades de diálogo sobre o assunto entre os profissionais do mercado. “Para que a profissão seja financeiramente sustentável. Acredito que, durante o ano de 2020, o avanço da demanda do online aqueceu ainda mais esse mercado, então a busca por informação de qualidade para essas questões eu acredito que deva crescer e o mercado deve evoluir nos próximos anos”, explica.

O papel do influenciador

O coordenador do curso de Marketing e professor de Marketing Digital da Universidade de Fortaleza (Unifor), Jeimes Alencar, avalia que os influenciadores possuem um papel importantíssimo no estabelecimento e fortalecimento da confiança entre o consumidor e a marca ou o consumidor e um produto ou serviço.

“Na rede social, existem as bolhas sociais, que são grupos que seguem determinados assuntos. E então surgem essas pessoas que falam sobre determinado tema e criam essa relação de confiança com o consumidor, que é exatamente o que as marcas buscam: criar uma relação de confiança entre um produto, serviço ou a marca e o consumidor. Esse influenciador-usuário é visto pelo consumidor como um amigo, alguém que deu um conselho sobre determinado assunto. É alguém que ele confia, segue e escuta”, explica o professor.

Diante disso, Jeimes destaca que alguns cuidados e questões devem ser adotados e considerados pela empresa antes de escolher um influenciador para ser associado ao negócio

"O primeiro ponto a ser analisado aí é o perfil de público que essa marca quer atingir. No branding, chamamos isso de persona. Nós criamos um consumidor ideal daquela marca. Quando eu consigo identificar essa persona, aí vem o desafio de escolher esse influenciador que tenha de fato uma relação com esse cliente. A empresa deve avaliar que tipo de relação o influenciador tem com esse cliente, como ele influencia", diz Jeimes Alencar.

Vida on e off

O coordenador do curso de Marketing da Unifor avalia também que a empresa, antes de tomar uma decisão sobre a escolha do influenciador que será associado à marca, deve considerar a vida on e off dessa pessoa, isto é, a vida mostrada nas redes e a vivida na realidade, fora das telas.

"Um dos principais riscos é o choque de valores entre o que você se propõe a entregar para o cliente como marca: que tipo de valores, como você identifica a marca e que tipo de valores são importantes para esse influenciador", explica Jeimes Alencar.

Ele acrescenta que saber identificar um influenciador com potencial pode ser uma grande jogada, principalmente para as marcas menores e com pouco capital para investir.

"Nós ainda ficamos muito limitados aos grandes nomes, aos influenciadores mais conhecidos, então eles acabam tendo uma participação maior dessas marcas. Acredito que as marcas podem ganhar ainda mais se investirem, de fato, em novos influenciadores. Há muita gente que ainda não é profissional, mas que de fato influencia em determinado segmento", aponta o coordenador do curso de Marketing da Unifor.

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