Imóveis de R$ 20 mi, carros esportivos e mais: mercado de luxo no Ceará resiste à pandemia

Efeitos da pandemia não inibiram lançamentos imobiliários de luxo no Estado, tampouco derrubaram vendas de outros artigos

Legenda: Palatium Residencial Meireles, da construtora Colmeia, conta com 60 apartamentos de 271,76 m² de área privativa, cada, e custa a partir de R$ 3,2 milhões
Foto: Colmeia/Divulgação

O mercado de itens de alto padrão no Ceará sofreu bem menos e em alguns segmentos chegou a passar ileso pela pandemia. As vendas de imóveis e veículos de luxo, bem como itens de grifes têm projeção de crescimento em 2021, apesar de o fim da crise sanitária e econômica no Brasil ainda parecer distante.

Impulsionado pelo desejo de cearenses com grande poder aquisitivo de melhorar a casa no isolamento social, o mercado imobiliário de luxo, que chega a contar com imóveis residenciais de mais de R$ 20 milhões (1.300 m²), disparou durante a pandemia, explica o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Ceará (Sinduscon-CE), Patriolino Dias.

Vendas de imóveis de luxo dobram

Ele estima que o Valor Geral de Vendas (VGV) desses empreendimentos no Estado dobrou nos últimos 12 meses, em decorrência do crescimento no número de lançamentos de imóveis de luxo no mercado.

“É impressionante como o mercado de imóveis de altíssimo padrão disparou do ano passado para cá. O que eu consigo visualizar é: como as pessoas passaram muito tempo juntando dinheiro e guardando em renda fixa, com a pandemia e a baixa rentabilidade desses investimentos, elas decidiram melhorar de residência”.
Patriolino Dias
Presidente do Sinduscon-CE

Ele aponta que esse sentimento e a alta nas vendas de imóveis de valor maior estimularam o lançamento de dez empreendimentos de altíssimo padrão no Estado, que tiveram bom desempenho de vendas.

“Foram lançados seis condomínios de luxo em Flecheiras e Guajiru, que no caso seria segunda moradia, e dois em Aquiraz. Também de luxo”, lista o presidente do Sinduscon-CE.

De acordo com Dias, além do preço e do tamanho do empreendimento, outros fatores como a localização e o acabamento são importantes para distinguir um imóvel de luxo.

“Normalmente, o que caracteriza um empreendimento de luxo é uma área de lazer completa, com diferenciais como piscina com raia. Algumas são cobertas e até aquecidas. Quadra de tênis, por exemplo”, detalha.

O conselheiro do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da 15ª Região (Creci-CE), Jonathas Costa, também avalia que o mercado imobiliário de luxo cresceu com a pandemia.

"Ganhou força, muitas pessoas que já estavam qualificadas para a aquisição e sempre adiavam decidiram fazer um 'upgrade' no perfil de seus imóveis durante a pandemia", diz o conselheiro do Creci-CE.

Ele reforça que o acabamento do imóvel, bem como suas áreas comuns, o caracterizam como sendo ou não de luxo. "Academias com assinaturas, tecnologia e paisagismo, áreas comuns equipadas e decoradas por arquiteto renomado", detalha Costa.

Além do Meireles, ele pontua o Mucuripe, Aldeota, Cocó e Guararapes como bairros que se destacam em termos de empreendimentos de luxo. "Tivemos bons lançamentos no mercado de alto padrão e acredito que continuará sendo um foco para algumas incorporadoras", diz.

Segunda moradia

Um exemplo de empreendimento de luxo com bom desempenho de vendas durante a pandemia é o Golf Ville, no Porto das Dunas, da Construtora Colmeia. De acordo com Rogério Rezende, gerente comercial da Favo Empreendimentos e Participações, durante a pandemia houve um forte crescimento na procura por segunda moradia.

"O melhor momento para o nosso mercado de segunda moradia foi durante a pandemia, mais precisamente no início de agosto de 2020. Tivemos uma explosão de vendas e valorização de 35% nos seus ativos imobiliários. O nosso carro-chefe para segunda moradia foi o Golf Ville", pontua.

Na avaliação dele, esses empreendimentos com áreas de lazer bem equipadas devem continuar apresentando avanço na procura.

"Continuamos acreditando na continuidade do crescimento deste nosso mercado, principalmente pela taxa Selic ainda em um dígito e por conta da rentabilidade das aplicações de renda fixa, tornando atrativo o investimento no mercado imobiliário para locação", detalha Rezende.

Ele também destaca que visualiza interesse dos consumidores em mudança para imóveis maiores, o que também deve contribuir para manter o aquecimento desse mercado. "O imóvel sempre foi uma necessidade das pessoas. A pandemia fez com que as pessoas conhecessem melhor seus lares e as suas necessidades".

Meireles se destaca

Quando as construtoras apostam em um terreno de excelente localização, em bairros mais cobiçados como o Meireles, já investem em projetos arquitetônicos e paisagísticos mais luxuosos. “Um pé-direito (distância do pavimento ao teto) melhor e mais vagas de garagens”, explica Dias.

Legenda: Imóveis de luxo possuem, entre outras características, uma área de lazer bem equipada
Foto: Colmeia/Divulgação

O desempenho desses empreendimentos deve continuar proporcionando às construtoras e incorporadoras a possibilidade de novos lançamentos de altíssimo padrão em 2021.

“Inclusive alguns incorporadores estão com projetos na prancheta que vão sair nos próximos meses na Beira Mar”, ressalta o presidente do Sinduscon-CE.

Mas não só os imóveis se destacam pelo bom desempenho em meio ao cenário econômico adverso.

Carros de altíssimo padrão

Enquanto as vendas de veículos em geral amargam resultados difíceis pela falta de peças no mercado e paralisação de fábricas, o segmento de luxo se mostra mais robusto.

O CEO do grupo Newland, Ronaldo Munhoz, avalia que diante dos impactos do coronavírus, essa fatia de consumidores de luxo se mostrou mais permissiva a “se presentear” - inclusive com carros.

“O mercado de luxo durante a pandemia foi um dos que menos caíram as vendas, algumas marcas até viram crescimento. Imagino que esse impacto tenha sido pela valorização que o indivíduo está se dando nessa época. As pessoas estão limitadas e estão se permitindo ter alguns presentes que entendem merecer”.
Ronaldo Munhoz
CEO do grupo Newland

Ele cita que a Porsche foi a única montadora que apresentou crescimento acima de 30% em 2020. 

Porsche azul
Legenda: Porsche teve desempenho positivo em vendas durante a pandemia
Foto: Divulgação/Porsche

De acordo com ele, são os componentes utilizados na fabricação do veículo que o caracterizam como sendo ou não de luxo, bem como o quão tecnológico é o carro.

“Ele é composto por materiais acima da média. São carros em alumínio, fibra de carbono ou mesmo de material convencional, mas com itens de conforto e de performance acima dos outros carros”, diz o CEO do grupo Newland. “Esses itens são motores mais potentes e detalhes de tecnologia avançada. Isso se reflete na precificação dele”, detalha.

As perspectivas, de acordo com Munhoz, são otimistas para o mercado automobilístico de luxo. “Não só no cenário de mercado de luxo, mas na cena econômica brasileira como um todo, com o avanço da vacinação e ajustes que devem ser feitos na economia. Acreditamos que vai começar novamente a acelerar”, reforça.

Acima de R$ 1,5 milhão

Ele explica que é possível encontrar veículos no Ceará que ultrapassam R$ 1 milhão, mas são itens que normalmente não ficam em exibição e possuem uma venda muito pequena, exclusiva. "Mas há tais veículos no 'menu' de carros". Um exemplo é o Porsche 911 Turbo S, de R$ 1.597.727.

Ele também explica, porém, que é possível adquirir um lançamento de luxo por um valor abaixo de R$ 300 mil. "A Mercedes GLB é um lançamento, tem sete lugares e custa R$ 269,9 mil. Um carro de luxo, para a família. Então é possível comprar um lançamento mundial por esse valor e aí o céu é o limite, a exemplo do Porsche", diz.

Perfumes de mais de R$ 3 mil

As projeções também são positivas para as vendas de itens de perfumaria de luxo. Conforme o gerente de Marketing da Le’ Loyn Parfums, Iuri Lamartine, a loja tem apresentado bom desempenho de vendas nas plataformas digitais como WhatsApp e Instagram, além das vendas pelo site da loja, que também é física.

O negócio foi inaugurado em meio à pandemia do coronavírus e vinha crescendo com mais força até o segundo lockdown.

“Atrasou um pouco esse crescimento, mas como somos uma perfumaria que já nasceu no mercado online, conseguimos amortizar o impacto da redução do crescimento durante o segundo isolamento social rígido”.
Iuri Lamartine
Gerente de Marketing da Le’ Loyn Parfums

Legenda: No Ceará, há forte demanda por perfumes importados. Preços chegam a R$ 3,5 mil
Foto: Divulgação/Le' Loyn

O gerente de Marketing da Le’ Loyn avalia que o Ceará é o foco dos importadores na perfumaria, “ultrapassando Rio e São Paulo quando se fala em potencial de crescimento”. “Mesmo diante das adversidades, decidimos apostar no mercado de luxo em Fortaleza”.

“Outro diferencial que temos é que somos detentores de produtos exclusivos, de nicho. Só quem vende no Ceará somos nós”, explica ele. Um Creed Millesime Viking, de 100ml, chega a R$ 3.015. É uma das exclusividades da loja no Ceará.

“Fortaleza tem público para isso, tendo em vista o próprio mercado imobiliário de luxo local”, aponta Lamartine.

Itens gastronômicos

Já a gastronomia de alto padrão começou a sentir os efeitos da pandemia na segunda onda no Estado. Na avaliação do sócio-proprietário da Japa da Ostra, Alexandre Reis, o consumo foi mais intenso no primeiro lockdown.

“No primeiro lockdown, as vendas cresceram 30%. Acho que se tratava de um momento em que as pessoas tinham mais reservas, imaginavam que seria um período mais curto, então houve um consumo maior. Dezembro foi o nosso melhor mês”, pontua Reis.

A loja trabalha com produtos para todos os públicos, mas há itens que chegam a custar mais de R$ 600, a exemplo do quilo da vieira canadense.

Outros itens que se destacam por serem mais raros - e valiosos - são a picanha de boi wagyu e o king crab/centolha chilena.

Legenda: Molusco típico da gastronomia refinada, a vieira chega a custar mais de R$ 600 o kg
Foto: Shutterstock

No segundo lockdown, Alexandre relata queda de 50% no consumo. “Em janeiro, já sentimos um pouco de diferença. A gente imagina que, agora, com todo mundo observando que esse processo da pandemia é mais longo, vimos que caiu o consumo. As famílias estão com um pouco mais de cautela”.

Mas o empresário vê boas expectativas a reboque do avanço da vacinação e no andamento das reformas. “Vai depender das vacinas em primeiro lugar. É necessário acelerar a vacinação e as reformas estruturais do Governo Federal como reforma tributária e administrativa”, avalia Alexandre Reis.

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