Grande Fortaleza é a 5ª do País de maior desigualdade de renda

Estudo revela que a Região Metropolitana de Fortaleza é uma das metrópoles com maior índice de desigualdade do Brasil durante a pandemia da Covid-19. Cerca de 40% da população tinham renda per capita de R$ 96,60

Legenda: Boletim apontou que Fortaleza ficou com um índice de Gini de 0,675 no segundo trimestre de 2020
Foto: Helene Santos

A discrepância de renda entre a população rica e a mais pobre da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) aumentou durante o período de isolamento social em decorrência da pandemia de Covid-19. A RMF é a quinta Região Metropolitana do País com maior índice de desigualdade no segundo trimestre deste ano. As informações são referentes ao Boletim "Desigualdade nas Metrópoles", um estudo realizado por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), do Observatório das Metrópoles e do Observatório da Dívida Social na América Latina (RedODSAL).

O estudo considera três camadas sociais: os 40% mais pobres, 50% intermediários - aqueles que se aproximam da média de renda da região - e os 10% superiores, que corresponde à população mais rica.

Na RMF, a população mais pobre tinha uma renda média per capita de R$ 96,60 mensal, enquanto os 10% mais ricos tinham um valor de R$ 4,8 mil. Já para a classe intermediária, o valor foi de R$ 817,26. Vale ressaltar que o estudo considera apenas a renda individual domiciliar per capita do trabalho e não inclui fontes de renda como Bolsa Família e outros auxílios.

Para Marcelo Gomes Ribeiro, professor e pesquisador do INCT - Observatório das Metrópoles, as diferenças de valores recebidos por cada estrato social indicam o alto nível de desigualdade na RMF.

"Em Fortaleza, no segundo trimestre de 2020, a média domiciliar per capita da base da pirâmide dos 40% que têm menor rendimento é de R$ 96,60. Esse é um nível de rendimento muito baixo, ou seja, cada pessoa tem um acesso muito baixo. Quando nós comparamos os maiores rendimentos, o topo da pirâmide, os 10% superiores, o valor é de R$ 4,8 mil. Ou seja, existem pessoas que recebem menos de R$ 100, enquanto outras ganham quase R$ 5 mil é muito evidente a disparidade que há do nível de rendimento da RMF", avalia o pesquisador.

O estudo ainda revela que em todas as camadas sociais houve queda no rendimento médio. A taxa de renda mais afetada, em decorrência da pandemia, foi a dos mais pobres, que tiveram uma redução de 39,6% no valor da renda de um ano para o outro. Já a classe mais rica teve um recuo de 12,3%, e os intermediários, uma queda de 4,6%

Rendimentos

O boletim pontua que o Índice de Gini da Região Metropolitana de Fortaleza ficou em 0,675 no segundo trimestre de 2020, ante 0,645 em igual período de 2019. O indicador de Gini mede a desigualdade de renda numa escala de 0 a 1, quanto maior o resultado do índice, pior é a desigualdade entre os rendimentos.

"A desigualdade na cidade de Fortaleza é uma das maiores do País, e algo importante a se observar é que ela se ampliou muito se comparado com igual trimestre do ano passado. Apesar de já estar elevada em 2019, pois 0,645 é um Gini muito alto, inclusive se comparado a vários países do mundo. Isso significa que Fortaleza é uma sociedade de muita desigualdade e esse resultado se elevou neste ano. Com a pandemia, houve um agravante ainda maior", ressalta Ribeiro.

O professor e diretor geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), João Mário de França, pontua que, na região Nordeste, esse desequilíbrio já é um "fator histórico" e concorda com o pesquisador Marcelo Gomes Ribeiro quando diz que, com a pandemia, as situações foram agravadas.

"No Nordeste e na RMF já é natural que se tenha uma desigualdade maior. Então, esse aumento reflete essa questão histórica e principalmente da pandemia do novo coronavírus", pontua. Ele ainda ressalta uma série de complexidades ligadas a esse contexto.

"A questão da desigualdade é bem mais complexa, mas isso tem muito a ver com a desigualdade de oportunidades. Você só vai ter essa melhora na desigualdade em um processo de médio a longo prazo. O ponto da questão é que a mesma qualidade dos serviços básicos de educação, saúde e saneamento proporcionada aos mais ricos, deve também ser dada aos mais pobres. Esse desequilíbrio vai refletir lá na frente, com a diferenciação dos rendimentos. Uma pessoa que não teve acesso a uma boa educação, talvez não tenha um bom emprego e isso vai impactando de maneira geral", avalia João Mário de França.

Análise

O diretor geral do Ipece ainda chama atenção para o fato do boletim desconsiderar outras fontes de renda das pessoas e pontua que, neste período da pandemia de Covid-19, muitas medidas foram tomadas para reduzir os impactos da crise, como é o caso do Auxílio Emergencial.

"Qualquer cálculo que for feito neste ano deve ser analisado com ressalvas, tanto pela pandemia, mas também pelas medidas do Governo em relação à manutenção do trabalho com as Medidas Provisórias. As MPs trouxeram redução do tempo de trabalho e da renda, o que também pode impactar nos cálculos em relação à desigualdade. Outras pesquisas feitas neste ano revelaram diminuição da desigualdade, o que é estranho no meio de uma pandemia, pois o auxílio emergencial veio para mitigar os efeitos. Mas por outro lado, o auxílio é transitório", analisa o diretor.

Na visão dele, devido ao recebimento do auxílio, muitas pessoas não estavam indo em busca de um emprego e se "acomodaram", mesmo após a liberação das atividades nos meses de junho e julho. No entanto, França aponta que é preciso analisar como será a reação do mercado quando a economia começar a dar sinais novamente no ano que vem.

"O importante é ver como a economia vai reagir nesse período, como vai ser essa recuperação e isso tem bastante relação com a vacina, que a gente estima que saia em janeiro de 2021. Mesmo que nem todos tenham acesso, só em ter a existência da vacina, isso já gera impactos muito positivos na economia, pois vai gerar muita expectativa. Mas temos que esperar para ver como vai ser o reaquecimento da economia e consequentemente do mercado de trabalho", avalia.

Contudo, o boletim aponta para como as diferentes fontes de renda precisam ser consideradas para a avaliação da desigualdade. "Apesar de a renda do trabalho corresponder a mais de 70% dos rendimentos totais, seu peso relativo não é homogêneo entre os diferentes estratos. Por essa razão, a desigualdade calculada somente a partir desta fonte de rendimentos tende a ser maior do que a desigualdade calculada por meio dos rendimentos totais. Também por isso, a própria evolução das desigualdades é diferente quando consideramos os demais tipos de rendimento", explica o documento.

Qualificação

O professor do Observatório das Metrópoles pontua que o menor nível de renda do trabalho foi visto principalmente entre os informais, profissionais que, "normalmente, têm uma menor qualificação". "Em uma metrópole como Fortaleza, que tem um nível de informalidade alta, quando as pessoas estão nessa condição de informalidade e têm que ficar em isolamento social, como a pandemia exigiu, ela não tem alternativa de renda do trabalho. Ela tem essa renda isenta. Isso agravou a situação das pessoas que atuam na informalidade".

O diretor geral do Ipece ressalta que durante a pandemia os "mais atingidos foram os menos qualificados" e que em um momento de recuperação da economia, eles são os que também levam mais tempo para se recuperar.

"A gente sabe que quando há uma crise, como agora, os primeiros atingidos e que perdem postos de trabalho são os menos qualificados e quando acontece uma recuperação, essas pessoas também são as que mais demoram a voltar para o mercado de trabalho. Mesmo que a economia se recupere mais rápido na RMF em 2021, certamente as pessoas com menor tempo de estudo, vão ter dificuldades para retornar ao mercado", disse.

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