Como o agro cearense vai se beneficiar com a concessão de terminal do Porto de Fortaleza?

Terminal deve ser leiloado em 2026, com expectativa de investimentos de R$ 400 milhões ao longo do contrato.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Foto de movimentação de contêineres no Porto de Fortaleza, no Mucuripe.
Legenda: Terminal de contêineres do Porto de Fortaleza será concedido à iniciativa privada.
Foto: Fabiane de Paula.

A concessão do Terminal de Contêineres do Porto de Fortaleza à iniciativa privada, com expectativa de expansão da infraestrutura e renovação de equipamentos, pode beneficiar o setor da fruticultura no Ceará com a redução de custos.

O leilão de parte do empreendimento, também conhecido como Porto do Mucuripe, deve ocorrer ainda neste ano. O terminal de contêineres integra um pacote do Ministério dos Portos e Aeroportos (MPor) que prevê a concessão de 18 portos à iniciativa privada em 2026.

O valor da concessão ainda será definido. A empresa vencedora deve administrar o terminal por 25 anos, que podem ser prorrogados e chegar a 70 anos, e investir R$ 400 milhões ao longo do prazo contratual.

A nova gestão deve ampliar a capacidade do terminal, a partir das projeções de demandas, expandir a infraestrutura e instalar novos equipamentos, segundo o MPor.

As medidas devem ter impactos positivos no setor exportador de frutas do Ceará, caso levem a uma redução dos custos logísticos, aponta Amilcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec).

“A expectativa é que melhore o atendimento sem onerar os custos da área portuária. Quando você consegue privatizar e tem operadoras que possam fazer isso com mais agilidade, isso pode diminuir o custo”, aponta.

Amilcar pondera, entretanto, que a gestão deve ser feita de forma estratégica, para não gerar encarecimento de taxas aos produtores.

Ele destaca que o setor exportador está cada vez mais aquecido, com a aproximação dos concorrentes diretos. “Antigamente havia pouca oferta. Agora, nosso maior concorrente está aqui do lado. No Equador tem empresas que produzem banana e têm seu próprio navio”, comenta.

FRUTAS REPRESENTAM 85% DOS CONTÊINERES MOVIMENTADOS

Com a expansão da capacidade nominal, o Porto de Fortaleza também deve reduzir o tempo de espera para atracação e liberação de cargas, tornando mais raro o congestionamento em época de pico das safras, comenta o economista Alex Araújo.

Para produtos perecíveis, como melão, manga, mamão, o tempo é variável crítica na competitividade. Reduções mesmo marginais, da ordem de 12 a 24 horas no ciclo logístico total, podem significar menor perda de qualidade, ampliação da janela de comercialização nos mercados de destino e melhora no preço negociado.
Alex Araújo
Economista

O especialista avalia que a concessão cria incentivos econômicos para investimentos na cadeia integrada.

Entre as melhorias possíveis, estão sistemas digitais de rastreabilidade, adaptação das janelas de embarque para a fruticultura e modernização de câmaras frias e contêineres refrigerados.

Para que a concessão produza impacto logístico real e sistêmico, os exportadores devem observar redução do tempo médio de chegada do porto ao destino

As frutas representam a esmagadora maioria dos produtos transportados em contêineres a partir do Porto de Fortaleza. 

Em 2025, foram exportadas 470 mil toneladas em frutas e cascas de frutas - cerca de 85% do total movimentado em contêineres pelo empreendimento. Por isso, o principal tipo de contêiner utilizado é o refrigerado. 

Cerca de 98,6% da movimentação do Terminal de Contêineres foi para a exportação de produtos. O empreendimento recebeu apenas 7,5 mil toneladas de produtos importados.  

INCENTIVOS À CADEIA DE PRODUÇÃO

Com as melhorias logísticas, o setor da fruticultura pode observar uma ampliação de suas margens para produção e exportação, avalia o economista Alex Araújo. 

“No horizonte estrutural, o porto pode induzir maior verticalização da cadeia, consolidação de cooperativas exportadoras e sofisticação contratual. No plano indireto, há efeitos multiplicadores sobre a indústria de embalagens, fortalecimento da logística rodoviária refrigerada e maior demanda por certificações internacionais”, projeta.

Além disso, pode atrair exportações de estados vizinhos, como Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. 

O setor avalia, entretanto, que a superação dos gargalos logísticos não deve necessariamente ampliar a produção de frutas para exportação no Ceará

“O nosso limitador para aumentar as exportações hoje são as áreas. Nós poderíamos ser mais competitivos, mas o que precisa acontecer é liberar o perímetro irrigado para plantar mais áreas”, afirma Amilcar Silveira.

Um dos planos do setor é trocar frutas de baixo valor agregado para produtos com maior precificação no perímetro irrigado. 

“No perímetro irrigado do Acaraú, por exemplo, 80% é coco, que pode ser plantado no litoral e em outras áreas. Um hectare de coco representa R$ 50 mil de faturamento, e um hectare de melão representa R$ 100 mil. Eu poderia, com a mesma área, dobrar o faturamento”, afirma. 

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados