O mar avança e destrói no Ceará, mas Uece tem a solução

A erosão costeira já fez desaparecer falésias e residências em Caucaia, Beberibe, Cascavel, Icapuí e Flecheiras

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
Legenda: O nível dos oceanos sobe por causa do aquecimento global, que derrete as geleiras. Em Cascavel (foto), um exemplo da erosão costeira
Foto: Kid Júnior
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Tem o Ceará, segundo o Google, 573 quilômetros de costa, desde o Icapuí, a Sudeste, na divisa com o Rio Grande do Norte, até Barroquinha, a Noroeste, na divisa com o Piauí. É uma área belíssima, ao longo da qual se abrigam luxuosos e caros hotéis e cinematográficas residências. Na foz do Rio Jaguaribe, entre Aracati e Fortim, pululam condomínios de alto padrão, cujos donos são, na maioria, pessoas de melhor e maior renda. Na mesma região, há o que se denomina de “casas pé na areia”, que são imóveis construídos na beirinha do mar, onde empresários e bons executivos repousam, semanalmente, o corpo e o espírito após mais uma jornada de trabalho.  

Pois bem, tratemos do que interessa. Por culpa do aquecimento global, causado pelos gases de efeito estufa, as geleiras da Antártida e do Ártico estão em processo lento de degelo. É lento, porém contínuo. Resultado: o mar está a invadir a área de praia do litoral cearense. Este colunista sobrevoou, recentemente, as bandas Leste, Norte e Oeste desse litoral, e o que viu dá para sustentar a tese de que a natureza marinha amplia e torna mais grave sua revolta contra a antropia, a ação deletéria do homem diante do meio ambiente. 

É fácil perceber esse avanço do oceano, num processo acelerado de erosão costeira. Tomemos, por exemplo, as praias de Caucaia, com destaque para a de Icaraí, demograficamente adensada nos últimos 20 anos, e ocupada desordenadamente por imóveis horizontais construídos em áreas elevadas cuja base foi erodida pela ação da maré. Foi dito que isto aconteceu como consequência da construção de vários espigões na orla marítima de Fortaleza, medida que modificou o fluxo e o refluxo das marés na geografia de Caucaia. 

Em Beberibe e Cascavel, é fácil de ver o avanço do mar sobre o continente. Algumas falésias, que enfeitavam a sua paisagem, desapareceram, enquanto belas residências que existiam lá foram, também, destruídas. É a reação da natureza ao crime antrópico. Essa reação prossegue e, agora, preocupa empresários e profissionais liberais fortalezenses que possuem a chamada segunda residência na praia de Flecheiras, onde o avanço do mar ligou o sinal de alerta. 

No litoral do vizinho Rio Grande do Norte, localizadamente na praia de Tibau, no Oeste potiguar, o avanço das águas marinhas começa, também, a causar prejuízo, o que evidencia um problema regional, pois essa erosão se registra, também, no litoral dos demais estados nordestinos. 

Mas, enquanto houver a boa união da inteligência humana com a pesquisa acadêmica, manter-se-á a esperança. Na Universidade Estadual do Ceará (Uece), o programa Cientista Chefe está nas praias, identificando a erosão e propondo projetos de recuperação ambiental. Um dos seus integrantes, o professor doutor Fábio Perdigão informa: 

1) “Já foi apresentado à Seinfra, patrocinadora do programa, o projeto para a proteção da praia de Jericoacoara, ainda não executado; 2) foi bem executado um trecho do projeto de proteção da Vila de Flecheiras, endereço de belíssimas residências e disputados condomínios; 3) na praia de Mundaú foi plenamente executado projeto de proteção semelhante; 4) na Praia de Arpoeiras foi, também, executado projeto afim, que está lá, belíssimo, bem frequentado pelos turistas; 5) foi executado, com êxito, o projeto de proteção da praia da Redonda, que está lá funcionando, maravilhosamente; 6) na praia da Peroba, ao lado da Redonda, infelizmente, a comunidade rejeitou nosso projeto e preferiu outro, que não funcionou e a erosão prossegue; 7) o Cientista Chefe elaborou um projeto para a dragagem da foz do rio Jaguaribe, com cuja areia será alargada a praia de Fortim, mas ele ainda não foi aprovado pela Seinfra.” 

Todos esses projetos foram custeados pela Seinfra, que ainda não renovou a validade contratual do Programa Cientista Chefe. O time da Uece abriu conversa com a Secretaria do Turismo, “uma vez que é a atividade turística a primeira a sofrer a consequência da erosão costeira, depois é a pesca artesanal, em seguida os marisqueiros”, como lembra o professor Fábio Perdigão, que conclui assim: 

“Estamos batalhando para renovar (o contrato) para podermos continuar propondo medidas de solução para proteger o litoral cearense e a nossa economia desse desastre que se chama erosão costeira.” 

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