Como o crescimento do endividamento afeta os idosos no Brasil e no Ceará

Ceará enfrenta desafios econômicos, sociais e humanos na garantia de uma velhice digna e sustentável.

Escrito por
Ana Alves animaconsultoria@yahoo.com.br
Legenda: Estima-se que quase metade dos brasileiros com mais de 60 anos esteja endividada.
Foto: pikselstock/shutterstock

O fenômeno do endividamento entre a população idosa não é apenas um assunto de relevância nacional e global — ele tem também marcas muito concretas no Estado do Ceará, refletindo a combinação entre envelhecimento populacional, dificuldades econômicas e questões estruturais do crédito e da renda.

No Brasil, o endividamento entre idosos cresce mais rapidamente que a população

A realidade brasileira também sinaliza crescimento expressivo do endividamento na terceira idade. Dados da Serasa Experian mostram que o número de idosos inadimplentes aumentou fortemente na última década: de cerca de 4,3 milhões em 2015 para aproximadamente 14,5 milhões em abril de 2025 — um crescimento muito superior ao do aumento da população idosa no mesmo período.

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Estima-se que quase metade dos brasileiros com mais de 60 anos esteja endividada, em grande parte devido à divergência entre renda e custo de vida. Aproximadamente 40% desse grupo estão em situação de inadimplência, proporção maior do que a registrada em faixas etárias mais jovens.

O cenário é especialmente grave em grandes estados brasileiros. Em São Paulo, mais de 3,3 milhões de idosos estavam com dívidas em atraso até 2025, refletindo um aumento de mais de 600 mil pessoas em poucos anos.

Tornando visível o problema no Ceará

Embora não existam estatísticas estaduais detalhadas exclusivamente sobre idosos endividados, sabemos que:

Mais de metade (51,55%) dos cearenses adultos encerraram 2025 com dívidas em atraso, segundo dados divulgados pela Serasa, que representam aproximadamente 3,4 milhões de pessoas com nomes negativados. Esses números refletem uma realidade que certamente alcança também a faixa etária dos idosos, ainda que não detalhada por idade na fonte disponível;

O endividamento por emprestar o nome a terceiros é particularmente elevado no Ceará, sendo o maior índice do Brasil (32,1% da população), de acordo com pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box.

Esse fator, que ocorre quando uma pessoa assume responsabilidade por uma dívida de outra, é uma causa importante de inadimplência em todas as idades e especialmente sensível entre idosos que podem ser pressionados por familiares ou conhecidos a assumir compromissos financeiros.

Em Fortaleza, capital do estado, mais de 1,2 milhão de pessoas estavam inadimplentes, com dívidas acumuladas de aproximadamente R$ 5,9 bilhões, um volume que englobaria também aposentados e pensionistas que dependem de renda fixa.

Esses dados pintam um quadro em que o Ceará enfrenta um endividamento crescente da população adulta em geral — e, por extensão, dos idosos — com impactos diretos sobre sua sustentabilidade financeira.

O contexto demográfico que agrava o risco

Para compreender por que o endividamento pode ser mais crítico entre os idosos, é essencial ver o contexto demográfico:

Segundo o Censo Demográfico de 2022, a população de idosos no Ceará (65 anos ou mais) cresceu 42% em 12 anos, representando 10,4% da população total do estado.

O envelhecimento da população cearense está acelerado. Projeções do IBGE indicam que, até 2070, até 40% da população do estado pode ter 60 anos ou mais, um salto demográfico que exige políticas públicas robustas.

A proporção de idosos que vivem sozinhos também aumentou: em 2024, 41% dos lares unipessoais no Ceará eram compostos por pessoas com mais de 60 anos, um contexto de maior vulnerabilidade econômica e social.

Esses dados revelam que o Ceará não apenas tem mais idosos, mas também uma parte significativa deles em contextos de maior risco financeiro (moradia solo, menor suporte familiar etc.), o que amplifica a exposição ao endividamento.

Motivos que impulsionam o endividamento dos idosos no Ceará

As causas do endividamento entre idosos no estado se misturam com fatores sociais e econômicos mais amplos:

Renda limitada e custos crescentes

A maioria dos idosos depende de rendimentos fixos, como aposentadoria e pensões, que frequentemente não acompanham o aumento dos custos de vida — especialmente saúde, medicamentos e serviços básicos — pressionando orçamentos restritos.

Crédito e empréstimo de nome a terceiros

O hábito de emprestar nome a terceiros — que foi apontado como a principal causa de endividamento no Ceará — tem impacto forte sobre as finanças dos idosos, muitas vezes sem que eles percebam os riscos totais antes de assumir a responsabilidade.

Pressões sociais e marketing agressivo de crédito

Instituições financeiras, discutido em audiência pública no Ceará, podem pressionar idosos com ofertas de crédito de forma irresponsável, sem considerar adequadamente a capacidade de pagamento, reforçando o risco de superendividamento e assédio financeiro.

Infraestrutura de apoio social insuficiente

Embora programas sociais existam, a assistência direcionada a adultos maiores de 60 anos ainda é insuficiente para conter situações de vulnerabilidade financeira prolongada, especialmente quando combinadas com custos essenciais crescentes e falta de educação financeira especializada.

Riscos financeiros e sociais mais intensos no Ceará

Os riscos do endividamento de idosos no Ceará se manifestam de forma ampla:

Segurança financeira fragilizada: Dívidas comprometem parte significativa da renda fixa de aposentados, reduzindo dinheiro disponível para necessidades essenciais como saúde, alimentação e moradia.

Aumento da vulnerabilidade à inadimplência: A combinação de crédito fácil e baixa margem de manobra financeira eleva as chances de queda em atraso contínuo, prejudicando o acesso a serviços financeiros futuros.

Isolamento social ou pressão familiar: Idosos que vivem sozinhos ou em domicílios com poucos vínculos de suporte familiar tendem a sofrer mais com insegurança financeira e maior estresse causado pela falta de redes de proteção.

Exposição a fraudes: Tentativas de fraude contra idosos aumentaram significativamente no Brasil em 2024, com crescimento de quase 12% de casos, o que reforça a necessidade de proteção e educação previdenciária e financeira para esse grupo, segundo Serasa Experian.

Cuidados essenciais e recomendações práticas

O enfrentamento do endividamento dos idosos no Ceará (e no Brasil) exige ações simultâneas em diferentes níveis:

Educação Financeira Orientada à Realidade dos Idosos

Programas de educação financeira com linguagem acessível e específica para idosos — incluindo compreensão de contratos de crédito, juros e consequências — podem reduzir a tomada de decisões prejudiciais.

Apoio familiar com planejamento orçamentário

Envolver familiares e responsáveis no planejamento financeiro pode ajudar a identificar riscos antes que comprometam renda ou segurança.

Negociação ativa de dívidas

Negociar condições, prazos e reduzindo juros com credores ajuda idosos a reorganizarem sua dívida sem tomarem decisões desesperadas em momentos de pressão.

Proteção contra fraudes e golpes

Campanhas de conscientização sobre fraudes e tentativas de golpes direcionados à terceira idade podem reduzir perdas financeiras e proteger renda disponível.

Políticas públicas de proteção social

A expansão de redes de proteção social e suporte especializado — como assistência jurídica gratuita ou serviços de defesa do consumidor — é fundamental para reduzir o assédio financeiro e proteção dos mais vulneráveis.

Por fim, o crescimento do endividamento entre os idosos no Ceará combina envelhecimento demográfico, limitações de renda, práticas de crédito de alto risco e lacunas na educação financeira. Essa realidade exige respostas que vão desde políticas públicas eficazes até práticas cotidianas de planejamento e proteção financeira.

Com uma população idosa cada vez maior, o Ceará enfrenta não apenas desafios econômicos, mas também sociais e humanos na garantia de uma velhice digna e sustentável.

Pensem nisso! Até a próxima.

Ana Alves- @anima.consult

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