Desemprego e perda de renda mantêm endividamento alto na Capital

O comprometimento dos orçamentos das famílias fortalezenses cresceu em junho e chegou ao maior patamar em 12 meses (41,9%). Comércio avalia que os consumidores estão mais cautelosos ao fazer novas compras.

Foto: Foto: Arquivo/Diário do Nordeste

O desemprego em alta e as incertezas sobre o cenário econômico provocadas pela pandemia do novo coronavírus se refletem na sexta Pesquisa do Endividamento do Consumidor de Fortaleza do ano. Enquanto a parcela de pessoas com algum tipo de dívida em junho se manteve inalterada em relação a maio (74,7%), o comprometimento da renda cresceu, chegando ao maior patamar em 12 meses (41,9%).

O levantamento mensal foi divulgado ontem (29) pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Ceará (Fecomércio-CE). Na avaliação do presidente da entidade, Maurício Filizola, os dados revelam um consumidor muito cauteloso diante dos impactos provocados pelo avanço da doença. Questionado sobre o alto nível de comprometimento da renda ser resultado do desemprego crescente, ele detalha que essa é uma possibilidade.

"Muitas pessoas perderam seus empregos, muitos estabelecimentos fecharam. Isso é menos dinheiro circulante na economia. O que faz uma economia ser pujante é o nível alto de empregabilidade", pontua o presidente da Fecomércio-CE. "A gente percebeu uma movimentação do Governo Federal e um bom dinheiro entrou no mercado, mas não cobre todo mundo", diz.

Ele lembra que, no comércio, por exemplo, as vendas não estão plenas e isso faz com que bônus e comissões deixem de entrar no bolso do trabalhador, que fica com uma renda menor em relação ao período anterior ao da pandemia. "Hoje, nós temos que nos contentar em manter os empregos", lamenta Filizola.

Para ele, o momento de receio e o clima ainda pesado em relação à situação econômica contamina o consumidor e também o empresário. "Aos poucos, eu creio que iremos recuperar a credibilidade. É preciso cooperação entre poder público e iniciativa privada para atravessarmos o momento", diz.

Inadimplência

A inadimplência apresentou queda de 0,7 ponto percentual em junho, chegando a 13,9%. Apesar da redução, Filizola avalia que se trata de um patamar alto e que o índice preocupa bastante. "Estamos com um índice um tanto quanto elevado e isso compromete o ciclo do dinheiro, porque a venda de um produto ou serviço só se concretiza quando a empresa recebe. Não adianta a empresa fazer uma ótima venda se, no dia de receber, ela não recebe", detalha o presidente da Fecomércio-CE.

Ainda de acordo com a Pesquisa de Endividamento do Consumidor de Fortaleza, seis em cada dez consumidores com dívidas em atraso não honraram esses compromissos porque adiaram o pagamento, aplicando os recursos que estavam disponíveis em outras finalidades.

O segundo principal motivo para o atraso apontado pelos entrevistados é o desequilíbrio financeiro (37,3%). A contestação de dívida aparece como a terceira principal razão (6,4%), seguida pelos que esqueceram de pagar (1,2%).

Entre os principais motivos do desequilíbrio financeiro estão a falta de orçamento e controle eficaz dos rendimentos e gastos (47,6%); a redução de rendimentos (26,9%); o aumento de gastos essenciais ou surgimento de novas necessidades (24,7%) e o desemprego, apontado por 23,1% dos entrevistados.

A maioria deles respondeu que está com dívidas atrasadas há mais de um mês. Os débitos em atraso há mais de 90 dias, o que caracteriza a inadimplência, aparecem com 33,5% das respostas. As contas com atraso de 31 dias a 60 dias contabilizam 32,2% e 11,6% possuem dívidas com atraso entre 61 e 90 dias.

Considerando o valor dos débitos, 19,5% dos consultados possuem contas de R$ 1.501 a R$ 2 mil e 18,8% possuem dívidas de mais de R$ 5 mil. Outros 16,1% responderam que possuem dívidas de R$ 501 a mil reais.

A inadimplência é maior entre os consumidores com renda familiar menor que cinco salários mínimos e é levemente predominante entre o sexo masculino, com faixa etária entre 25 a 34 anos e nível de educação fundamental.

Itens

Em junho deste ano, o consumidor fortalezense assumiu dívidas para adquirir, sobretudo, itens de alimentação (53,4%); para custear a educação (32,3%) e tratamentos de saúde (25,6%). Em seguida, aparecem os itens de vestuário (23%) e outros (21,6%).

Os eletrodomésticos estão no levantamento com 19,9% das citações. O cartão de crédito continua sendo a ferramenta mais utilizada para contrair dívidas, citado por 80,3% dos fortalezenses.