Mulheres negras ganham R$ 1,4 mil a menos do que homens brancos no Ceará

A disparidade das remunerações médias de homens e mulheres é de 10%, a quinta menor do Brasil.

Escrito por
Mariana Lemos mariana.lemos@svm.com.br
Foto de movimentação do centro com presença de mulheres.
Legenda: Desvalorização salarial de mulheres leva à perda de potencial produtivo e afeta segurança financeira.
Foto: Fabiane de Paula.

As desigualdades de gênero e de raça têm diversos reflexos no mercado de trabalho, como a falta de oportunidades de ascensão profissional e a disparidade salarial. No Ceará, a remuneração média de uma mulher é de R$ 2.914, enquanto a do homem é R$ 3.233 - ou seja, 10% menor. 

Com o acúmulo de desigualdades, as mulheres negras ganham, em média, R$ 1.459 a menos do que homens não negros. A diferença salarial é de 35%.

Comparando a remuneração média de mulheres não negras e homens não negros, que estão no topo da pirâmide salarial, a diferença é de R$ 589, cerca de 14%.

Já os homens negros têm rendimento 16% inferior ao de mulheres não negras, com diferença média de R$ 597, o que evidencia a desigualdade racial. Eles representam a maior parte da força de trabalho, ao lado das mulheres negras.

Os dados são Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, basedos em dados agregados de estabelecimentos com pelo menos 100 empregados. 

Impactos da desigualdade 

A defasagem salarial ao longo da vida afeta diretamente a autonomia financeira e a segurança financeira na logevidade das mulheres, aponta Adriana Bezerra, líder do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará Mulher (IBEF Mulher). 

O fator também leva à perda de potencial produtivo para o País, já que reduz a capacidade de inovação das profissionais e limita o crescimento econômico. 

"A desigualdade salarial, portanto, não é apenas um problema das mulheres — é um problema de eficiência econômica e de desenvolvimento social. No caso das mulheres negras, essa desigualdade é ainda mais profunda, pois combina fatores de gênero e de raça que historicamente limitam o acesso a oportunidades", comenta. 

A redução na renda das mulheres tem forte impacto sobre o bem-estar familiar, especialmente em decisões relacionadas à educação e à saúde, acrescenta Isadora Osterno, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE).

DESIGUALDADE É MAIOR A NÍVEL NACIONAL

A situação a nível nacional é ainda mais alarmante. O Ceará é o quinto ente da federação com menor disparidade salarial de gênero.

No Brasil, a média de remuneração das mulheres é 26% menor do que a dos homens, apesar da obrigatoriedade constitucional e legal de igualdade salarial. Comparando os ganhos de mulheres negras com homens não negros, a disparidade chega a R$ 3,4 mil (53%).

A diferença salarial relativamente menor no Ceará pode ser explicada pela presença significativa do setor público e de segmentos de serviços em que as estruturas salariais tendem a ser mais padronizadas, aponta Isadora Osterno. 

A economista pondera, entretanto, que há espaço para avançar na ampliação das oportunidades e na valorização do capital humano de forma mais ampla.

Uma diferença menor não significa necessariamente ausência de desigualdade, mas pode refletir um contexto em que os salários médios são mais próximos entre si.

Por isso, a análise do mercado de trabalho precisa considerar simultaneamente o nível de renda, a qualidade do emprego e as oportunidades de progressão profissional. 

DISPARIDADE PERSISTE EM CARGOS DE LIDERANÇA

O relatório de transparência salarial atesta que a disparidade salarial acompanha todos os níveis de ocupação, das atividades operacionais aos dirigentes e gerentes.

A persistência da desvalorização mostra que não se trata de decisões individuais, mas de estruturas organizacionais que reproduzem padrões, avalia Renata Seldin, mentora de carreiras e doutora em Gestão da Inovação. 

"Muitas organizações ainda se escondem atrás de números agregados, sem apresentar ações concretas que sustentem um processo real de equalização salarial. Transparência, por si só, não resolve o problema se não vier acompanhada de revisão das políticas de Recursos Humanos", destaca.

A aplicação de multas prevista em lei não tem se demonstrado suficiente, segundo Renata Seldin, para que as grandes empresas mudem as políticas. 

"Processos de seleção e promoção precisam ter critérios claros e livres de vieses, expectativas de desempenho realistas para todos e uma visão que deixe de tratar a maternidade como risco profissional. Isso também exige abandonar o antigo padrão corporativo moldado exclusivamente a partir da experiência masculina", comenta. 

Além de preenchimento das informações sobre salários, a Lei de Igualdade Salarial, determina que todas as empresas com 100 ou mais empregados adotem medidas como transparência salarial, criação de canais de denúncia, implementação de programas de diversidade e inclusão e incentivo à capacitação profissional de mulheres. 

No Ceará, apenas 47% das empresas apresenta plano de cargos e salários. E somente 25% tem política de incentivo à contratação de mulheres. 

A partir da transparência salarial, as empresas devem identificar a corrigir distorsões, segundo Adriana Bezerra. O tema deve ser tratado como questão de governança e gestão, com acompanhamento pela alta liderança.

É uma mudança cultural nas organizações, que reconheça que diversidade e equidade não são apenas pautas sociais, mas também estratégias de sustentabilidade e competitividade empresarial. 
Adriana Bezerra
Líder do IBEF Mulher

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