Saiba a diferença entre varíola e varicela

O caso suspeito da varíola dos macacos no Ceará pode ser varicela (catapora). As doenças têm sintomas semelhantes. Em ambas há ocorrência de lesões na pele

Escrito por Thatiany Nascimento, thatiany.nascimento@svm.com.br

Ceará
varíola dos macacos
Legenda: O Brasil investiga mais dois casos suspeitos da varíola dos macacos
Foto: Shutterstock

O Ceará investiga um caso suspeito da varíola dos macacos em um morador de Fortaleza, e conforme a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), a principal suspeita diagnóstica é varicela, que é outra doença, conhecida como "catapora". O caso segue em análise. As duas doenças contagiosas têm características parecidas, e em ambas há manifestações de lesões na pele. 

O Diário do Nordeste ouviu médicos infectologistas para explicar as distinções entre varíola (seja humana ou a dos macacos) e a varicela. 

O médico infectologista e consultor em infectologia da Escola de Saúde Pública do Ceará, Keny Colares, explica que a varicela e a varíola (seja a dos macacos ou a humana, já erradicada) “têm muitas semelhanças”.

Ambas, relata ele, “começam com o período de febre, dor no corpo, dor de cabeça, e, depois de alguns dias, surgem lesões na pele que viram bolhas”. 

“Às vezes, pode ser difícil diferenciar só olhando. Uma diferença que ajuda é a aparência dessas bolhas, a forma e a distribuição. Isso ajuda a distinguir os casos. Muitas vezes, o dado epidemiológico (se viajou, se teve contato com lesões) é útil para definir”.  
Keny Colares
Médico infectologista

O que é varíola dos macacos

A chamada varíola dos macacos é uma doença viral semelhante à varíola humana (já erradicada na década de 1980) e “as pessoas se infectam quando elas têm contato muito próximo com animais que são os reservatórios ou com outras pessoas doentes”, explica a médica infectologista do Hospital São José , Lisandra Damasceno. 

É uma doença transmitida de animais para humanos do gênero Orthopoxvirus, da família Poxviridae. É uma doença endêmica na África Central e Ocidental, mas, nas últimas semanas começou a ser registrada em diversos países fora do continente africano. 

O que é varicela

A varicela é uma doença infecciosa, altamente contagiosa, causada pelo vírus Varicela-Zoster, da família Herpetoviridae. Ela se manifesta com maior frequência em crianças e a incidência é alta no fim do inverno. 

A transmissão ocorre de pessoa para pessoa e acontece por meio da tosse, espirro e gotículas. Também é transmitida indiretamente por meio de objetos contaminados. 

Sintomas e diferenças nas lesões

As duas doenças, dizem os médicos, se apresentam com febre, dor no corpo, dor de cabeça, mas o aparecimento das lesões as diferenciam. 

Varíola dos macacos

Em ambos os casos, informa o médico Keny Colares, as lesões surgem como uma pequena mancha, depois viram bolhas, criam uma casca e a casca cai. “Na varíola todas as lesões costumam estar na mesma fase. As lesões são iguais entre si”, relata. 

“As lesões aparecem ao mesmo tempo e por isso, são todas muito semelhantes. Mas é muito importante que essa avaliação aconteça no consultório médico, com equipes preparadas e treinadas para fazer o diagnóstico adequado”, orienta o médico infectologista do Hospital São José, Lauro Vieira Perdigão Neto. 

Varicela (catapora)

Já na varicela a sequencia da dinâmica das lesões é semelhante, mas há “várias ondas de surgimento de bolhas”, acrescenta Keny. “Algumas lesões estão na fase inicial, outra na intermediária e outras na final”, diz. 

Na varicela, reitera o médico infectologista, Lauro Vieira Perdigão Neto, “elas (lesões) vão aparecendo em etapas diferentes da doença. No mesmo momento, o paciente tem lesões que estão começando a aparecer e lesões que estão há algum tempo e, por isso, já estão caminhando para a cura”. 

Como prevenir

vacina
Legenda: Vacina contra a varicela está disponível na rede de saúde
Foto: JL Rosa

Varíola dos macacos

No caso da varíola, há vacina, mas a disponibilidade, diz Keny, “vai depender de quanto os casos vão aumentar”. A infectologista Lisandra Damasceno, reitera que existem vacinas contra a varíola dos macacos já liberadas pela Organização Mundial da Saúde  (OMS) mas não tem larga produção. 

“Pessoas que já foram vacinadas para a varíola humana, aquelas acima de 50 anos, podem ter alguma proteção para essa varíola dos macacos”, completa Lisandra. 

“A varíola dos macacos a evidência é de que ela aconteça no contato íntimo, pessoas que têm proximidade, contato com secreção respiratória, contato de pele. A melhor forma de prevenção é a distância de casos suspeitos e confirmados. A medidas contra a Covid, elas são bem eficazes contra a transmissão da varíola dos macacos”, diz o infectologista Lauro Vieira Perdigão. 

Varicela (catapora)

No caso da varicela, o médico Keny Colares explica que a principal forma de prevenção é a vacina. No Brasil, ela está licenciada na apresentação monovalente ou tetraviral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela). 

“Na varicela, a transmissão se dá por via respiratória e a principal forma de prevenção é evitando essa cadeia com o uso de máscara e com a vacina, que permite uma imunidade duraroura”. 
Lauro Vieira Perdigão Neto
Infectologista

Há disponibilidade  da vacina na rotina dos serviços públicos de saúde para: crianças aos 15 meses e 4 anos de idade; povos indígenas a partir dos 7 anos de idade; e profissionais de saúde não vacinados e que trabalham na área assistencial. 

Como identificar

Em ambos os casos, ao sentir qualquer sintoma ou apresentar lesões, a orientação é que é necessário procurar procurar assistência médica. 

Na avaliação para confirmar ou descartar se é varicela ou varíola dos macacos as equipes de saúde fazem avaliações clínicas (dos sintomas e da condição do paciente), com base no cenário epidemiológico (se há casos confirmados, se o paciente viajou e etc.) e exames laboratoriais

Para ser confirmado, explica os médicos, há exame de sangue e também teste no material das lesões de pele. Os exames de comprovação são determinados a partir do vírus causador da doença nas lesões. 

Nos dois casos, informam, os laboratórios de saúde pública estão preparados para identificar as doenças.