Pesquisa da UFC e Uece poderá identificar transtorno do espectro autista de forma precisa e precoce

O estudo vai acompanhar recém-nascidos da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand, ao longo de dois anos

Escrito por Redação,

Ceará
Legenda: A pesquisa acompanhará as crianças ao longo de seu desenvolvimento, até que se chegue à fase em que se torne possível o diagnóstico clínico de TEA, a partir da observação do comportamento delas
Foto: Shutterstock

A cada 45 partos no mundo, um será de uma criança que se encontra em algum nível do transtorno do espectro autista (TEA), conforme apontam estudos científicos. Diagnóstico ou prognóstico que possam predizer essa condição ainda não são possíveis por não existir uma metodologia exata.

No entanto, há uma perspectiva de mudança nesse cenário a partir de um estudo em andamento da Universidade Federal do Ceará, em parceria com a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e com o Instituto da Primeira Infância (IPREDE).

Um grupo de pesquisadores dessas universidades, iniciou, neste mês, uma pesquisa pioneira em todo o mundo que busca romper os limites dessas incertezas e permitir, em alguns anos, a partir dos resultados obtidos, "a identificação do autismo de forma precisa e precoce, possivelmente já no teste do pezinho".

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento ligado ao comportamento.

O professor do Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Medicina da UFC, Sulivan Mota, explica que atualmente, o diagnóstico do transtorno é feito de forma subjetiva, através da observação das características no comportamento, o que só é possível de forma mais precisa em crianças de dois anos e meio a três, quando cedo.

Mota é um dos integrantes do grupo de pesquisa que irá examinar o sangue e a urina de crianças nascidas na Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), com objetivo de buscar essa precisão no diagnóstico de maneira precoce.

O intuito da investigação é verificar se, nesses fluidos, é possível identificar proteínas que sejam específicas de pessoas que se encontram dentro do espectro autista.

Para que se configure uma pesquisa multicêntrica, o estudo deverá ser feito, também, em segunda maternidade utilizando o mesmo protocolo rígido em uma quantidade maior de amostras. O local ainda não foi definida. Falta, a definifção da terceira universidade que entrará na parceria do projeta. Segundo Mota, já existem propostas em análise.

Análise expressiva

A MEAC realiza, em média, 600 partos ao mês, o que, segundo os pesquisadores, já permite um número de análises expressivo. A pesquisa acompanhará as crianças ao longo de seu desenvolvimento, até que se chegue à fase em que se torne possível o diagnóstico clínico de TEA, a partir da observação do comportamento delas. O estudo deverá durar dois anos. 

Estamos sendo pioneiros no mundo, é impressionante isso. A pesquisa abre a possibilidade e necessidade para outras, não dá para dizer que essa será a definitiva.
Sulivan Mota
Professor do Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Medicina da UFC

Novo passo

A pesquisa das universidades cearenses, com sangue e urina, é um novo passo em busca desse diagnóstico. Ela seguirá o mesmo princípio da investigação anterior, da saliva: a identificação do proteoma, agora com líquidos diferentes.

“Esperamos encontrar as mesmas proteínas, mas podem ser outras. Se as encontramos na saliva, é provável que elas estejam em todos os líquidos orgânicos. Por que não? Daí, esse será o grande achado, pois, se essas proteínas estão no sangue, por que não encontrá-las no teste do pezinho, que utiliza o sangue, não é?”, projeta.

O teste do pezinho é um exame médico utilizado para o diagnóstico precoce de várias doenças, como o hipotireoidismo congênito, a fibrose cística, síndromes falciformes, entre outras.

Segundo avaliação do professor  Mota, que também é presidente IPREDE, em cerca de 10 anos, caso as hipóteses da pesquisa se confirmem, já será possível identificar o TEA nesse exame. Desta forma, haveria não apenas o diagnóstico preciso, mas também precoce.

“A única certeza que se tem sobre o autismo é que, quanto mais precocemente se instala o tratamento, que é traduzido por estimulação, melhores os resultados. A criança não deixa de ser autista, pois o autismo é para a vida inteira, mas ela socializa melhor”, ressalta o professor.

Fase anterior

Entre os anos de 2020 e 2021, os pesquisadores iniciaram esse estudo analisando amostras de saliva. Foram observadas amostras de 75 crianças atendidas pelo IPREDE, das quais 34 previamente diagnosticadas com TEA e outras 41 sem o transtorno.

A opção pela saliva se mostrou promissora com essa população pelo fato de a coleta ser pouco invasiva, não desestabilizando, assim, as crianças com TEA. “Utilizamos o salivette, que parece um chiclete, que a criança fica mascando. Não tivemos a menor dificuldade, talvez pelo movimento de repetição de que eles gostam. Então, através dele, colhemos a saliva, a centrifugamos e fizemos o estudo de proteínas”, relata.

O artigo proveniente dessa análise revela que foram identificadas 25 proteínas presentes somente em crianças com TEA.  Dessas, oito são consideradas pelos pesquisadores como possíveis biomarcadores, isto é, identificadores biológicos de pessoas com essa condição. 

O estudo conclui que essas 8 proteínas podem fornecer informações adicionais sobre os mecanismos moleculares envolvidos nas causas e no desenvolvimento do TEA. 

Contudo, Mota ressalta que a pesquisa realizada não é suficiente para afirmar que essas proteínas são, de fato, marcadores biológicos do transtorno, sendo necessários, para tal, novos estudos, com amostras ampliadas, como está sendo feita agora, com a análise de sangue e urina.