Onde estão e qual a diferença entre os 17 espigões da orla de Fortaleza

Enquanto equipamentos de bairros nobres são bastante frequentados, os da periferia sofrem com falta de manutenção e investimentos em melhoria.

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Ceará
Espigões se tornaram áreas de lazer em Fortaleza
Legenda: Os espigões construídos na Avenida Beira-Mar foram se tornando espaços de lazer pela ocupação de banhistas e visitantes
Foto: Thiago Gadelha

Dois espigões do litoral de Fortaleza estão em processo de concessão à iniciativa privada para a instalação de equipamentos de lazer. No entanto, a cidade conta com pelo menos 17 estruturas do tipo, da Barra do Ceará ao Titanzinho, e algumas recebem usos diferentes da finalidade original.

Espigões (ou molhes) têm como objetivo proteger o litoral do processo erosivo porque retêm sedimentos que são transportados pelo movimento das ondas e correntes marítimas.

Porém, com o tempo, os espigões construídos na Avenida Beira-Mar foram se tornando espaços de lazer pela ocupação de banhistas e visitantes, recebendo caminhadas e pedaladas ou servindo como pontos de encontro. Recebendo iluminação pública, são frequentados até à noite.

Legenda: Espigão da Rua João Cordeiro atrai centenas de frequentadores diariamente; movimento é maior aos fins de semana.
Foto: Thiago Gadelha

O vencedor da licitação em curso deverá cuidar da instalação, gestão, operação e manutenção de empreendimentos de entretenimento no local. Anteriormente, a Prefeitura havia cogitado até mesmo uma roda gigante no equipamento da Rua João Cordeiro, mas o projeto foi encerrado.

Segundo a gestão municipal, as novas propostas devem buscar o respeito a esses bens públicos, melhorando aspectos de acessibilidade e estrutura e trazendo soluções inovadoras, pois os considera “áreas subutilizadas”. 

A Prefeitura espera que a concessão possa fortalecer um “potencial socioeconômico que hoje não é explorado”, incentivando seu uso efetivo por moradores e turistas e, por consequência, gerando “um retorno financeiro e cultural” para a cidade.

Legenda: Projeção de como os espigões do Meireles podem ser ocupados por empreendimentos comerciais.
Foto: Prefeitura de Fortaleza

Estruturas sem utilização

No entanto, esse  mesmo apelo turístico não se reproduz em outros 11 espigões localizados na periferia de Fortaleza, entre o Pirambu e a Barra do Ceará. Fábio Lessa, presidente do Instituto Cai Cai Balão e morador do Pirambu, reforça que eles “não têm nada a ver” com os da área nobre da Capital.

“Aqui, eles são somente de pedra, utilizados basicamente por pescadores e sofrem com a falta de manutenção. Quando a maré enche, tem um na Rua Santa Rosa que é inclusive coberto por completo, o que pode ser consequência do aterro feito no litoral leste”, explica.

Legenda: Sem calçamento, maioria dos espigões no Pirambu é usada apenas para pescaria.
Foto: Thiago Gadelha

O único com trato diferencial na área, aponta Lessa, é o que abriga o Mirante Rosa dos Ventos, no bairro Cristo Redentor. Ele teve sua urbanização inaugurada em 2011, ganhando calçamento, cobertura e acessibilidade.

Para o líder comunitário, os demais também poderiam passar por reformas e receber itens básicos como calçada e corrimão, permitindo seu uso como espaço de caminhadas e passeios, “facilitando o lazer da comunidade”.

Exclusão de espaços

Angerlânia Barros, historiadora cearense e doutoranda em História e Espaços pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), avalia que, embora a orla fortalezense seja banhada pelo mesmo mar, há pouco planejamento urbanístico para bairros periféricos.

“A Capital não vai vender a periferia; ela vende o Centro, os bairros elitizados, a Beira-Mar, os espigões do Meireles. E é interessante também entender a própria dinâmica da cidade, internamente: a periferia visita o centro, mas o centro não visita a periferia”, percebe.

Para ela, a maior presença de turistas e de agentes de segurança favorece a priorização de bairros elitizados, ao passo que o abandono e disputas entre organizações criminosas afastam frequentadores de áreas como a Vila do Mar, tornando-a de uso exclusivo de moradores próximos.

Legenda: Mirante no Cristo Redentor apresenta estrutura desgastada mais de uma década após urbanização.
Foto: Thiago Gadelha

“Além disso, a exclusão começa também na própria condição do indivíduo. Os bairros populares são onde moram os trabalhadores, que saem cedo e voltam tarde para casa, então por que vou fazer um equipamento turístico onde essas pessoas não têm como usufruir? Quem tem esse tempo é a elite”, analisa.

Legenda: Espigões do Pirambu, do Cristo Redentor e do Meireles: diferenças vão da estrutura à presença de frequentadores.
Foto: Thiago Gadelha

História dos espigões na cidade

A instalação deles em Fortaleza ganhou força a partir da década de 1940, com a construção do molhe do Titan no Porto do Mucuripe. Hoje, ele se estende por quase 2 km, de acordo com a Secretaria de Portos do Governo Federal.

Vizinho a ele, foi construído o molhe do Titanzinho, em 1963, ajudando a proteger a área do Porto. Porém, com os processos erosivos corroendo a Praia de Iracema, ela recebeu o espigão da Rua João Cordeiro, em 1969. Porém, ele não foi suficiente para resolver o problema.

Para conter o avanço do mar, o poder público construiu mais 11 molhes de proteção na década de 1970 e início dos anos 1980, da praia do Pirambu à Barra do Ceará, de acordo com estudo do Laboratório de Gestão Integrada da Zona Costeira (LAGIZC), da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Segundo os pesquisadores, as estruturas construídas são “bastante eficientes” em proteger o litoral contra o ataque das ondas. Duas décadas depois, em 2000, foi entregue o espigão da Avenida Rui Barbosa, para proteger o recém-criado Aterro da Praia de Iracema. 

Já em 2011, mais um foi implantado no Poço da Draga, desta vez para prevenir a erosão no novo Aterrinho (hoje conhecido como Praia dos Crush). O mais recente é o espigão do Náutico (na Av. Desembargador Moreira), concluído em 2016, novamente para evitar a perda de sedimentos do Aterro.