Morre professor Assis de Souza Filho, cientista que planejou o futuro das águas no Ceará
Pesquisador da UFC deixa como um de seus marcos o Plano de Gestão Proativa, que transforma a incerteza climática em planejamento estratégico para os 157 açudes do Estado.
Morreu nesta quarta-feira, 25, o professor Francisco de Assis de Souza Filho, docente do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Universidade Federal do Ceará (UFC) e um dos maiores nomes da gestão hídrica do Brasil. Ele tinha 59 anos e morreu em decorrência de um câncer raro que vinha enfrentando há seis anos.
Sua trajetória no meio acadêmico e na ocupação de cargos institucionais consolida um legado que redefine a convivência com o semiárido.
Ainda não há informações sobre o velório e sepultamento.
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Trajetória de liderança e compromisso público
A excelência técnica de Assis era indissociável de sua veia humanista. Ex-presidente do DCE da UFC na década de 1980, ele aliou a liderança estudantil a uma formação acadêmica de alto nível, com mestrado e doutorado pela Universidade de São Paulo (USP).
Ocupou cargos de relevância como a presidência da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) e a coordenação da área de Recursos Hídricos na Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap).
A Associação Brasileira de Recursos Hídricos (ABRHidro), que Assis presidiu durante a gestão 2008-2009, em suas redes sociais ressaltou sua trajetória exemplar e o definiu como um profissional de "marca única" na história dos recursos hídricos no Brasil. Em nota, a entidade enfatizou que sua atuação ultrapassou fronteiras institucionais, fortalecendo o pensamento científico com visão estratégica e sensibilidade humana.
Para a associação, ele foi um mestre e líder decisivo na construção de uma gestão hídrica mais integrada e comprometida com o bem comum.
Para o reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Custódio Almeida, o professor construiu uma carreira "marcada pela excelência, pelo compromisso público e pela dedicação à construção de soluções para diversas demandas socioeconômicas e socioambientais".
Recentemente, Assis assumiu a criação do Centro Estratégico de Excelência em Políticas de Águas e Secas (CEPAS) na UFC, um órgão transdisciplinar voltado para o diálogo entre geociências, engenharia e dimensões sociais.
O legado de Assis de Souza Filho é visto como um "centro de conhecimento aplicado", voltado para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Como destacou Custódio, em uma postagem em suas redes sociais, Assis foi "um homem justo, humanista e profundamente dedicado à construção de uma sociedade mais equilibrada e sustentável".
Em nota, o Centro Estratégico de Excelência em Políticas de Águas e Secas reafirmou que "hoje (25 de março) é dia de reconhecer que seu legado permanece vivo em cada ideia, em cada projeto, em cada pessoa que ele tocou".
Na publicação, ainda ressaltou que os trabalhos seguirão sendo feitos, "com a coragem, a presença e o compromisso que ele sempre nos ensinou".
Plano de Gestão Proativa de Seca é legado
Em entrevista concedida ao Diário do Nordeste, em 2023, Assis detalhou a ferramenta que se tornou o coração de sua atuação recente: o Plano de Gestão Proativa de Seca.
Diferente das medidas reativas adotadas em crises passadas, o plano desenvolvido em parceria entre a UFC, a Cogerh e a Funceme propõe uma norma para cada um dos 157 reservatórios monitorados no Ceará. A ideia central, explicada na época pelo pesquisador, é o planejamento proativo: não esperar a seca chegar para definir o que fazer.
A Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) lamentou a perda de uma das "mentes mais brilhantes" que já passaram pela instituição, destacando que o professor Assis de Souza Filho teve um papel fundamental na implementação de políticas públicas e na consolidação de uma gestão moderna, integrada e sustentável das águas no Ceará.
Descrito como um gestor visionário e Cientista-Chefe de Recursos Hídricos, o professor foi homenageado por unir técnica e conhecimento a um profundo senso de humanidade, deixando um trabalho que ajudou a moldar o presente e o futuro do setor.
Corrente de solidariedade e a campanha "Todos por Assis"
O professor vinha enfrentando, há cerca de seis anos, o diagnóstico de um leiomiossarcoma, um tipo raro de câncer. Inicialmente, o tratamento foi realizado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, por ser uma das poucas unidades no Brasil com especialistas em tipos raros da doença.
Devido aos altos custos envolvidos em ficar na capital paulista para tratamento, Assis chegou a retornar para Fortaleza para dar continuidade aos cuidados no Ceará. Recentemente, porém, o agravamento de seu estado de saúde exigiu que ele fosse transportado novamente para São Paulo por meio de uma UTI aérea.
Diante da complexidade e dos elevados gastos com o transporte especializado e a manutenção do tratamento hospitalar, uma rede de amigos, alunos e familiares organizou uma mobilização de apoio.
Através do perfil no Instagram "Todos por Assis", foi lançada, no último dia 21 de março, uma campanha de arrecadação financeira para custear as despesas médicas. A iniciativa refletiu o profundo impacto humano do pesquisador, mobilizando mais de 850 pessoas em quatro dias, da comunidade acadêmica e de recursos hídricos em uma corrente de solidariedade para apoiar o mestre em sua jornada contra a doença.