Moradores do Jangurussu convivem com medo de rompimento de açude há 40 anos
Medo de uma tragédia volta a assombrar comunidade local.
Moradores do bairro Jangurussu, em Fortaleza, vivem hoje sob o medo de um possível rompimento da parede do açude de mesmo nome, mas este cenário de insegurança estrutural é um reflexo de problemas registrados pelo Diário do Nordeste desde a década de 1980.
Quarenta anos após as primeiras crises, o sentimento de abandono e o risco de inundação permanecem vivos no Jangurussu. O reservatório, antes fornecedor de água e peixes para a comunidade, ainda é visto como uma ameaça silenciosa para quem vive no entorno.
Em maio de 1984, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) já trabalhava para evitar que o reservatório se rompesse.
Agora, em 2026, a Prefeitura precisou fazer vistorias técnicas emergenciais na região após alagamentos pioraram com as fortes chuvas deste início de ano. A comunidade denuncia que a construção de um condomínio residencial está obstruindo o escoamento natural das águas, gerando pressão excessiva sobre a parede da barragem. Um técnico ouvido pela reportagem chegou a classificar a situação atual como “perigosa”.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) alerta que o acúmulo de água entre a construção e a parede do açude é um fator de risco. Se não houver resolução, a estrutura pode se deteriorar até o arrombamento, repetindo temores de quatro décadas atrás.
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Naquela época, reportagem do Diário do Nordeste informava que a parede do açude estava com trechos de apenas meio metro de largura, quando a largura considerada normal era de dois metros.
A erosão e a presença de formigueiros na sustentação eram minimizadas por técnicos, apesar dos apelos dos moradores. Segundo os especialistas, havia duas justificativas: a boa qualidade do barro utilizado na construção da parede e o fato de nenhum rio desembocar no açude, ou seja, não havia risco de um volume excedente.
Mesmo assim, na época foram feitos trabalhos que envolveram a desobstrução do sangradouro do reservatório e a liberação das águas do açude através de 24 mangueiras cedidas pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece).
O intuito era tentar baixar o nível das águas e proteger a então favela João Paulo II. Moradores temiam que um arrombamento varresse toda a comunidade abaixo do açude. Porém, de qualquer forma, havia reclamações de que a água liberada pelas mangueiras estava invadindo propriedades, prejudicando plantações e dificultando o tráfego de veículos.
Elevação do nível de lagoas
O retrospecto de ameaças continuou em julho de 1985, quando três dias seguidos de chuvas intensas forçaram a base da parede do reservatório. O Diário do Nordeste noticiou que a água já havia carregado dois metros de largura da estrutura.
Em depoimento à época, o morador Francisco de Assis Colaço Dourado, conhecido como tenente Dourado, alertou que a falta de providências poderia resultar em mortes, já que as propriedades em terrenos baixos estavam sob ameaça constante de inundação. Novamente, mangueiras da Cagece foram instaladas para escoar o excesso de água.
Já em abril de 1986, a parede do Jangurussu encontrava-se parcialmente destruída, ameaçando tanto a comunidade João Paulo II quanto a Favela do Lixo. O jornal registrou que metade do lado externo da parede havia arriado em poucos dias.
Mesmo com vistorias do Corpo de Bombeiros e da Cedec, nenhuma obra de recuperação definitiva foi adotada de imediato.
“Faz medo a gente morrer se o açude arrombar à noite”, desabafou uma moradora.
Embora técnicos tenham garantido que a parede não corria risco, líderes comunitários da época previam que um colapso elevaria o nível da Lagoa das Pedras, vizinha ao açude, destruindo dezenas de casas nas proximidades. O impacto hídrico chegaria a prejudicar até mesmo as áreas próximas ao Rio Cocó, de cuja bacia o Jangurussu faz parte.
Obra de recuperação
Somente em julho de 1991, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) autorizou o início de obras de recuperação da barragem. O reservatório foi construído originalmente pelo órgão em 1922.
O projeto de 70 anos depois buscava reconstruir a muralha de terra e alargar o sangradouro (orifício por onde a água passa quando o açude está cheio) de dois para quatro metros.
A obra custou mais de 10 milhões de cruzeiros ao Governo Federal. Naquele período de reconstrução, gestores públicos alertaram que casas construídas clandestinamente em áreas alagáveis seriam inundadas com a volta do armazenamento de água e deveriam ser remanejadas.
Estrutura em análise
Equipes da Prefeitura de Fortaleza e de órgãos ambientais realizaram uma vistoria no açude Jangurussu, no último dia 13, para avaliar os riscos de arrombamento na parede do reservatório.
A Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) informou que também está elaborando um relatório técnico sobre a situação da área e que deve enviar as demandas identificadas aos órgãos responsáveis para possíveis providências.
Ainda no dia 13, a reportagem também questionou ao Dnocs, empreendedor original da barragem, qual é a periodicidade da manutenção dela, quando foi a última vistoria e se o órgão já foi notificado sobre o risco de rompimento. No entanto, não recebeu retorno até esta publicação.
Já na última quarta-feira (18), a Defesa Civil de Fortaleza (DCFor) informou que encaminhou ofícios ao Dnocs, à Seuma, à Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf), à Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) e à construtora responsável pela obra do condomínio.
"A Defesa Civil de Fortaleza aguardará o envio das informações solicitadas e acompanhará individualmente os desdobramentos de cada encaminhamento. A ideia é garantir uma resposta coordenada e efetiva das instituições envolvidas, com a maior brevidade possível", concluiu.