Moradores do Jangurussu convivem com medo de rompimento de açude há 40 anos

Medo de uma tragédia volta a assombrar comunidade local.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Reportagem do jornal Diário do Nordeste antiga com a foto de um açude, mostrando a estrutura da parede e a água, sob uma manchete que alerta sobre o risco de inundações para comunidades próximas. A foto foi tirada por Eduardo Queiroz.
Legenda: Em 1986, situação precária da parede do açude já estampava páginas do jornal.
Foto: Arquivo Diário do Nordeste.

Moradores do bairro Jangurussu, em Fortaleza, vivem hoje sob o medo de um possível rompimento da parede do açude de mesmo nome, mas este cenário de insegurança estrutural é um reflexo de problemas registrados pelo Diário do Nordeste desde a década de 1980.

Quarenta anos após as primeiras crises, o sentimento de abandono e o risco de inundação permanecem vivos no Jangurussu. O reservatório, antes fornecedor de água e peixes para a comunidade, ainda é visto como uma ameaça silenciosa para quem vive no entorno.

Em maio de 1984, a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) já trabalhava para evitar que o reservatório se rompesse.

Agora, em 2026, a Prefeitura precisou fazer vistorias técnicas emergenciais na região após alagamentos pioraram com as fortes chuvas deste início de ano. A comunidade denuncia que a construção de um condomínio residencial está obstruindo o escoamento natural das águas, gerando pressão excessiva sobre a parede da barragem. Um técnico ouvido pela reportagem chegou a classificar a situação atual como “perigosa”.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) alerta que o acúmulo de água entre a construção e a parede do açude é um fator de risco. Se não houver resolução, a estrutura pode se deteriorar até o arrombamento, repetindo temores de quatro décadas atrás.

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Naquela época, reportagem do Diário do Nordeste informava que a parede do açude estava com trechos de apenas meio metro de largura, quando a largura considerada normal era de dois metros. 

A erosão e a presença de formigueiros na sustentação eram minimizadas por técnicos, apesar dos apelos dos moradores. Segundo os especialistas, havia duas justificativas: a boa qualidade do barro utilizado na construção da parede e o fato de nenhum rio desembocar no açude, ou seja, não havia risco de um volume excedente.

Mesmo assim, na época foram feitos trabalhos que envolveram a desobstrução do sangradouro do reservatório e a liberação das águas do açude através de 24 mangueiras cedidas pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece).

Foto antiga em tom sépia de uma menina caminhando dentro de um alagamento provocado pela cheia no açude Jangurussu. Ao fundo, há um muro, uma grande árvore e estacas de madeira no chão.
Legenda: Mangueiras foram usadas para escoar água excedente do açude em 1984.
Foto: Arquivo Diário do Nordeste.

O intuito era tentar baixar o nível das águas e proteger a então favela João Paulo II. Moradores temiam que um arrombamento varresse toda a comunidade abaixo do açude. Porém, de qualquer forma, havia reclamações de que a água liberada pelas mangueiras estava invadindo propriedades, prejudicando plantações e dificultando o tráfego de veículos.

Elevação do nível de lagoas

O retrospecto de ameaças continuou em julho de 1985, quando três dias seguidos de chuvas intensas forçaram a base da parede do reservatório. O Diário do Nordeste noticiou que a água já havia carregado dois metros de largura da estrutura.

Em depoimento à época, o morador Francisco de Assis Colaço Dourado, conhecido como tenente Dourado, alertou que a falta de providências poderia resultar em mortes, já que as propriedades em terrenos baixos estavam sob ameaça constante de inundação. Novamente, mangueiras da Cagece foram instaladas para escoar o excesso de água.

Já em abril de 1986, a parede do Jangurussu encontrava-se parcialmente destruída, ameaçando tanto a comunidade João Paulo II quanto a Favela do Lixo. O jornal registrou que metade do lado externo da parede havia arriado em poucos dias.

Mesmo com vistorias do Corpo de Bombeiros e da Cedec, nenhuma obra de recuperação definitiva foi adotada de imediato.

“Faz medo a gente morrer se o açude arrombar à noite”, desabafou uma moradora.

Embora técnicos tenham garantido que a parede não corria risco, líderes comunitários da época previam que um colapso elevaria o nível da Lagoa das Pedras, vizinha ao açude, destruindo dezenas de casas nas proximidades. O impacto hídrico chegaria a prejudicar até mesmo as áreas próximas ao Rio Cocó, de cuja bacia o Jangurussu faz parte.

Dois agentes da defesa civil de Fortaleza, com coletes laranjas, caminham por área de vegetação aberta. Ao lado deles, há um canal de água que funciona como sangradouro do açude Jangurussu.
Legenda: Sangradouro do açude foi ampliado em meados dos anos 1990 para minimizar risco de cheias.
Foto: Ismael Soares.

Obra de recuperação

Somente em julho de 1991, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) autorizou o início de obras de recuperação da barragem. O reservatório foi construído originalmente pelo órgão em 1922. 

O projeto de 70 anos depois buscava reconstruir a muralha de terra e alargar o sangradouro (orifício por onde a água passa quando o açude está cheio) de dois para quatro metros. 

A obra custou mais de 10 milhões de cruzeiros ao Governo Federal. Naquele período de reconstrução, gestores públicos alertaram que casas construídas clandestinamente em áreas alagáveis seriam inundadas com a volta do armazenamento de água e deveriam ser remanejadas.

Espelho d'água do açude Jangurussu com proliferação de vegetação nas margens. Ao fundo, há algumas casas no entorno.
Legenda: Atualmente, açude tem acúmulo de vegetação e aguapés nas margens.
Foto: Ismael Soares.

Estrutura em análise

Equipes da Prefeitura de Fortaleza e de órgãos ambientais realizaram uma vistoria no açude Jangurussu, no último dia 13, para avaliar os riscos de arrombamento na parede do reservatório.

A Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) informou que também está elaborando um relatório técnico sobre a situação da área e que deve enviar as demandas identificadas aos órgãos responsáveis para possíveis providências.

Ainda no dia 13, a reportagem também questionou ao Dnocs, empreendedor original da barragem, qual é a periodicidade da manutenção dela, quando foi a última vistoria e se o órgão já foi notificado sobre o risco de rompimento. No entanto, não recebeu retorno até esta publicação.

Já na última quarta-feira (18), a Defesa Civil de Fortaleza (DCFor) informou que encaminhou ofícios ao Dnocs, à Seuma, à Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf), à Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) e à construtora responsável pela obra do condomínio. 

"A Defesa Civil de Fortaleza aguardará o envio das informações solicitadas e acompanhará individualmente os desdobramentos de cada encaminhamento. A ideia é garantir uma resposta coordenada e efetiva das instituições envolvidas, com a maior brevidade possível", concluiu.

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