O que dizer sobre o El Niño extremo que pode estar chegando?
Institutos metereológicos do Brasil, incluindo a Funceme, monitoram sinais de um novo episódio do fenômeno com risco de intensidade acima da média.
Quem acompanha meus textos sabe da minha preocupação com a seca no Nordeste. Na escola, nós aprendemos sobre o tema em obras como 'O Quinze', de Raquel de Queiroz, e 'Vidas Secas', de Graciliano Ramos. Quem leu e não se lembra do sacrifício da cadela Baleia? Estes cenários de estiagem estariam prestes a voltar?
Em uma coluna em 2025, fiz uma análise das secas no Ceará que tendem a ocorrer a cada 4 copas do mundo (16 anos). A última foi centrada em 2014, e a próxima teria o ápice em 2030, começando em 2027. E é o que está se cogitando.
Os institutos meteorológicos do Brasil e do mundo estão monitorando sinais de que um novo episódio de El Niño está em formação no Oceano Pacífico — e desta vez, com intensidade bem acima da média, o que vem sendo chamado de El Niño extremo.
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O nome "El Niño" surgiu entre pescadores peruanos no século XIX. Eles percebiam que, por volta do Natal, as águas do litoral do Peru ficavam mais quentes do que o habitual, o que afastava os cardumes e reduzia drasticamente a pesca. Por isso batizaram o fenômeno de "El Niño de Navidad" — em referência à comemoração do nascimento do menino Jesus.
Com o tempo, a expressão foi adotada pela comunidade científica para identificar o aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial.
O fenômeno acontece quando os ventos alísios — que normalmente sopram de leste para oeste na linha do Equador — enfraquecem significativamente. Sem a força desses ventos para empurrar as águas superficiais aquecidas em direção à Ásia, essa gigantesca massa de água quente "escorre" de volta e se acumula no centro e no leste do Oceano Pacífico, provocando um aquecimento anormal e drástico na temperatura da superfície do mar na costa da América do Sul.
Essa barreira quente impede que as águas profundas e frias subam, alterando a evaporação e a circulação de ar, o que desequilibra os padrões de chuva e temperatura em escala global — reduzindo as precipitações no Norte e Nordeste do Brasil, intensificando as chuvas no Sul do país e elevando as temperaturas médias em diversas regiões do planeta.
As principais características do El Niño incluem:
- aquecimento das águas do Pacífico central e leste acima de 0,5°C por pelo menos cinco meses consecutivos;
- redução das chuvas no Norte e Nordeste do Brasil;
- aumento de precipitação no Sul do país;
- elevação das temperaturas médias em várias regiões;
- maior risco de secas prolongadas em áreas semiáridas.
No Nordeste, o fenômeno tende a deslocar a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) para norte, o que diminui a formação de nuvens sobre o Ceará e estados vizinhos.
O El Niño pode se manifestar em diferentes graus de intensidade. Para entender isso, é preciso saber o que os cientistas chamam de anomalia: trata-se simplesmente da diferença entre a temperatura atual do oceano e a temperatura considerada normal para aquela época do ano.
Quando essa diferença fica entre 0,5°C e 1°C acima do normal, o El Niño é fraco — os efeitos passam quase despercebidos e as chuvas diminuem um pouco, mas nada fora do comum para quem vive no semiárido.
Quando o oceano aquece entre 1°C e 2°C acima do esperado, a seca já começa a apertar: o inverno chega fraco, os açudes não enchem e o agricultor sente no bolso. Mas quando a temperatura do Pacífico sobe mais de 2°C acima do normal — como aconteceu em 1983 e em 1998 —, o bicho pega de verdade.
Esse é o chamado popularmente de "Super" El Niño, e é exatamente esse cenário que os meteorologistas estão monitorando para os próximos meses. Tecnicamente, o termo correto usado pelos órgãos oficiais é El Niño de intensidade muito forte ou El Niño extremo.
Diante disso, o que fazer?
Agricultores familiares e gestores municipais do semiárido precisam acionar agora os planos de convivência com a seca: garantir reservas de água nos açudes e cisternas, antecipar o plantio de culturas resistentes à estiagem, como o sorgo e a palma forrageira, e acompanhar os boletins da Funceme e do Inmet com regularidade.
Nas cidades, o alerta vale para o planejamento do abastecimento hídrico. O fenômeno avisa antes de chegar. Quem se antecipa reduz os danos.
Diante do que está por vir, cada região do Brasil tem um desafio específico. Na Amazônia, o Super El Niño agrava as condições para queimadas: a floresta seca mais rápido, o fogo se alastra com facilidade e o desmatamento vira combustível extra. O combate passa por reforçar as brigadas de incêndio, fiscalizar as áreas de risco antes do período crítico e endurecer o controle sobre o desmatamento ilegal.
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No Nordeste, a prioridade é a água. A construção de cisternas nas zonas rurais ainda é uma das respostas mais eficazes e baratas para garantir que famílias atravessem períodos de estiagem sem depender exclusivamente dos caminhões-pipa.
Mas o cenário de um El Niño extremo exige ir além: a instalação de dessalinizadores em municípios do semiárido tem potencial para mudar estruturalmente a relação da população com a escassez hídrica.
O semiárido nordestino tem grande disponibilidade de água subterrânea, porém boa parte dela é salobra ou salina, imprópria para o consumo direto. Com os dessalinizadores, essa água passa a ser tratada e distribuída para comunidades que historicamente dependem da chuva para sobreviver.
Investir nessa infraestrutura antes da seca chegar é muito mais barato do que administrar uma crise hídrica no meio do fenômeno.
No Sul do país, o El Niño age de forma oposta ao que provoca no Nordeste. Enquanto o semiárido resseca, os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná enfrentam volumes de chuva muito acima do normal. O fenômeno aquece as águas do Atlântico Sul e intensifica os sistemas de baixa pressão que atuam na região, o que resulta em chuvas prolongadas e concentradas em curtos períodos.
O solo saturado não absorve o excesso, os rios transbordam e as encostas cedem. Foi exatamente esse mecanismo que esteve por trás das enchentes históricas que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024, deixando mais de 400 municípios afetados.
Com um El Niño extremo em formação, o risco de eventos semelhantes cresce de forma considerável, e a região precisa estar preparada antes que as primeiras chuvas intensas cheguem.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.