Filho de motorista e diarista, aluno de escola pública do Bom Jardim é aprovado em Medicina na UFC

Mateus Rodrigues de Freitas não fez curso preparatório e abdicou até mesmo de relacionamento.

Escrito por
Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
Na imagem, um homem jovem de pele parda e cabelos curtos e escuros sorri para a câmera. Ele usa aparelho ortodôntico, uma camiseta preta básica e um relógio digital de pulso preto. Ele está com os braços cruzados, apoiados sobre uma superfície branca em primeiro plano. Ao fundo, há uma parede revestida de madeira com veios verticais em tons de marrom. A iluminação é suave, destacando o rosto do rapaz.
Legenda: Com a nota obtida no Enem, Mateus seria aprovado em qualquer curso da UFC.
Foto: Fabiane de Paula.

Morador do Siqueira, estudante de escola pública no Bom Jardim, filho de motorista e diarista: não foram poucas as vezes em que Mateus Rodrigues de Freitas escutou que Medicina não era para ele. Felizmente, a vida pode provar o contrário e, quando assim o faz, capricha em todos os aspectos.

Egresso da Escola de Ensino Fundamental e Médio Dona Júlia Alves Pessoa, o jovem de 17 anos é evidência concreta dessa tese ao ser aprovado na Universidade Federal do Ceará (UFC) no exato curso que, na visão de muitos, parecia impossível de alcançar. 

O início das aulas acontece no segundo semestre deste ano. Até lá, Mateus tem partilhado a própria trajetória e sente orgulho dela. Inspira outros a seguir na mesma direção.

Veja também

“É o início de uma nova vida, de uma caminhada totalmente diferente da que eu venho cursando. Se Deus quiser, creio que serei um bom profissional”, torce. A fala, dita com esperança e humildade, é apenas parte de uma série de detalhes reunidos por ele ao longo do caminho. No começo da estrada escolar, recorda, não era muito íntimo dos estudos.

Apenas no fim do segundo ano do Ensino Médio, em dezembro de 2024, começou realmente a se dedicar com foco no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e em outros vestibulares. Medicina, até então, mal entrava no radar. A dúvida primeira era entre Psicologia e Ciências Biológicas. “Não tinha noção da minha capacidade”.

Na imagem, fotografia de meio corpo de um homem jovem de pele parda, cabelos curtos e camiseta preta. Ele está sentado em uma cadeira de escritório verde-limão e olha para o lado com um sorriso largo, exibindo o aparelho ortodôntico. O ambiente é um escritório moderno e iluminado, com outras pessoas e monitores de computador desfocados ao fundo, criando uma profundidade de campo que destaca o rapaz em primeiro plano.
Legenda: Pesquisas, leituras, atenção redobrada e bons professores contribuíram para o desenvolvimento intelectual de Mateus.
Foto: Fabiane de Paula.

Conforme o tempo passou e a vontade de superação cresceu, o desejo de se tornar médico surgiu. Pesquisas, leituras, atenção redobrada nas aulas e professores “espetaculares”, na visão do estudante, contribuíram para o desenvolvimento intelectual dele. Mateus nunca fez curso preparatório. Baseou-se somente em aulas regulares e videoaulas no YouTube.

Um passo essencial na jornada, contudo, foi o divisor de águas para que Medicina se tornasse certeza: a aprovação para a segunda fase do vestibular da Universidade Estadual do Ceará (Uece), no intuito de ingressar no almejado curso, após excelentes resultados em simulados na escola.

Na imagem, fotografia em plano aberto mostra um grupo de cerca de vinte jovens reunidos em uma área externa pavimentada com blocos de concreto e detalhes em tijolos vermelhos. À esquerda, uma jovem de camiseta vinho fala com o grupo, que a escuta com atenção. Os estudantes vestem roupas casuais e uniformes escolares, alguns carregam mochilas. O ambiente possui canteiros com plantas verdes de folhas largas em primeiro plano e árvores ao fundo. A arquitetura ao redor apresenta paredes brancas com janelas retangulares protegidas por grades, sugerindo o pátio de uma escola ou universidade. A luz do dia é difusa, indicando um céu nublado.
Legenda: Durante preparação, Mateus conheceu as dependências da Uece.
Foto: Arquivo pessoal.

O triunfo, conforme conta, foi mais para “ver o que podia acontecer”. “A escola ficou muito feliz, mas meu foco sempre foi o Enem”, sublinha. O jovem chegou a ganhar uma bolsa integral em um grande colégio privado de Fortaleza, mas, antes que pudesse aceitar, o resultado da prova mais esperada chegou e surpreendeu. 

Estava dentro de um ônibus, a caminho de casa, quando soube que Medicina agora seria realidade, mergulho e honra.

Terminar namoro, abdicar do celular

Durante o preparo para as provas, Mateus diminuiu a frequência em shoppings, praias e outras saídas com amigos. Também finalizou um relacionamento – com consentimento de ambos sobre a relevância daquele momento de preparação – e abdicou das redes sociais. O próprio aparelho celular ficava em um cômodo diferente do qual estava. “A carne é fraca, né?”, ri. 

Na imagem, fotografia de perfil de um jovem de pele parda e cabelos curtos com as laterais raspadas. Ele está sentado em uma cadeira de madeira em frente a uma mesa, concentrado enquanto escreve em um caderno com uma caneta. O rapaz veste uma camiseta regata preta. Ao fundo, vê-se uma parede branca com textura leve e uma mochila pendurada no canto superior esquerdo. Sobre a mesa, há alguns objetos de escritório e uma garrafa preta. A iluminação vem de cima, criando sombras suaves.
Legenda: Além das cinco horas de estudo na escola, Mateus dedicava mais quatro em casa.
Foto: Arquivo pessoal.

“Eu não cortava totalmente o lazer, sempre tinha algum dia para fazer algo que eu gostava; mas a atenção máxima realmente era para os estudos”. Entre uma leitura e outra, o estudante igualmente tirava tempo para ajudar nas atividades domésticas

A rotina era dividida em: aulas na escola durante a manhã, quatro horas de estudos em casa à tarde, depois lazer e descanso. Aos fins de semana, o tempo de mergulho entre os livros, claro, aumentava. O principal ponto sempre foi a constância. 

Sobre isso, Mateus tem percepção aguda: “Alguém que estuda três horas todos os dias vai se sair muito melhor que alguém que estuda 10 horas em um dia e deixa dois sem fazer nada”.

A força da escola pública

Pioneiro da escola onde estudava a ser aprovado em Medicina e um dos únicos do Bom Jardim, agora ele faz questão de exaltar o ensino público. Diz que veio para mostrar que essa realidade é possível, não é coisa de outro mundo, “de aluno de particular”.

Ao mesmo tempo, não deixa de dar enfoque a quem esteve na mesma trincheira, em batalha para que o sonho se concretizasse. “Os professores são a base de toda a nossa aprovação. Sempre foram muito importantes porque querem o melhor do aluno. Sabem como é difícil a vida da maioria que estuda em rede pública, e sabem também que cada esforço vale a pena”.

Docente de Física na escola onde Mateus estudou, Neudo Teodoro reforça a visão do estudante. Há 20 anos na rede pública estadual de ensino, conta que, quando olha para trajetórias feito a de Mateus, sabe que ainda são "ponto fora da curva".

Na imagem, três homens sorridentes posam para uma foto em um ambiente interno. No centro, um jovem de pele parda, cabelos curtos e camiseta preta faz um sinal de
Legenda: Da esquerda para a direita, o coordenador Luã Rodrigues, o estudante Mateus de Freitas e o professor Neudo Teodoro.
Foto: Fabiane de Paula.

“Mas posso resumir tudo numa frase: o caso do Mateus é daqueles que acontecem na Educação e nos fazem acreditar nela. Se a gente trabalha sabendo que ao menos uma pessoa vai decolar assim, já valeu a pena. A gente, que é professor, ainda é muito esquecido pela sociedade. O contraponto é saber que existem alunos assim, fruto de um trabalho nosso”.

Luã Rodrigues Lopes é coordenador na escola Dona Júlia Alves Pessoa e compartilha o pensamento após saber do ingresso do estudante em Medicina: “Aprovamos um aluno negro, da periferia, do Bom Jardim, da escola pública… Isso dá um gosto ainda maior para essa vitória”, festeja. Segundo ele, o empenho do núcleo gestor e do corpo docente faz toda a diferença nessa estrada, e a intenção é que isso aconteça de modo ainda mais forte.

Na imagem, fotografia de plano médio de um jovem de pele parda, cabelos pretos curtos e camiseta preta. Ele está de pé, sorrindo para a câmera e exibe aparelho ortodôntico. Suas mãos estão cruzadas à frente do corpo e ele usa um relógio digital preto no pulso esquerdo. O homem está posicionado à frente de uma cadeira de escritório verde-limão. O fundo mostra um ambiente de escritório amplo e iluminado, com mesas e computadores propositalmente desfocados para destacar a pessoa em primeiro plano.
Legenda: Agora, Mateus quer mostrar que a própria realidade é possível, que passar em Medicina não é 'coisa de outro mundo'.
Foto: Fabiane de Paula.

Aulões, seminários, palestras, testes vocacionais, todas as ferramentas foram e continuam sendo desenvolvidas para que mais estudantes consigam ir além. “Às vezes, quando a gente está num cargo de gestão, até duvida do que aquela escola é capaz, do que aqueles alunos e professores são capazes. Quando ele passou, caiu a ficha: ‘Conseguimos’”.

É Mateus quem arremata: “Agora tenho o sonho de demonstrar às pessoas que vêm de origem mais pobre que elas podem, sim, ascender socialmente por meio dos estudos – ainda mais porque sou um exemplo. E exemplos são sempre bem-vindos para que as pessoas acreditem”.

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados