Como é a operação para impedir que os rios fiquem secos no Ceará?

Companhia mantém quase 2 mil km de água correndo todo ano.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Vista aérea do Rio Jaguaribe, no Ceará, serpenteando por uma paisagem com campos verdes, áreas de cultivo e tanques de aquicultura em suas margens.
Legenda: Um dos principais do Ceará, o Rio Jaguaribe teve mais de 150km perenizados após liberação de água do açude Castanhão.
Foto: Divulgação/Cogerh.

A imagem que se tem de um rio é que a água corre o tempo todo. Porém, no Ceará, praticamente todos eles secam no período mais quente do ano e dependem de um processo artificial para seguirem o curso. São os chamados rios perenizados, que são alvo de uma operação anual da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).

Na prática, manter um rio perenizado é essencial para conviver melhor com a seca. Em vez do rio desaparecer com a estiagem, ele segue sendo alimentado o ano inteiro, graças a um fluxo contínuo garantido pela liberação de água dos açudes que segura o leito vivo mesmo quando se passam meses sem chover.

O Relatório de Perenização dos Rios 2025, divulgado pela Cogerh, mostra que o Ceará alcançou 1.818 km de trechos de rios perenizados no ano, um dos maiores valores da última década. Essa extensão representa o segundo melhor resultado dos últimos dez anos, ficando atrás apenas de 2024, quando a marca superou 1.900 km.​

O avanço em relação ao período de 2015 a 2018, quando os índices diminuíram pela seca prolongada, representa um salto na garantia de água em leitos de rios estratégicos para o abastecimento da população e a produção agropecuária.​

O diretor de Operações da Cogerh, Tércio Tavares, ressalta: o Estado praticamente não tem cursos d'água perenes de forma natural. Essa condição decorre de dois principais fatores climáticos e geológicos: 

  1. a quadra chuvosa é curta, concentrada entre fevereiro e maio; assim, nos outros oito meses, não há aporte significativo de água que encha os açudes e rios;
  2. o solo cearense é predominantemente cristalino e raso, com cerca de 1,5 metro de profundidade antes de atingir a rocha pura; isso impede que o subsolo armazene água para alimentar os rios ao longo do ano. 

Por isso, ao longo do século XX, o Ceará desenvolveu um robusto sistema de açudagem que retém as chuvas e permite o controle artificial das águas. Atualmente, a Cogerh monitora uma rede de 143 reservatórios estratégicos.

Como explica Tércio Tavares, esse sistema funciona como uma torneira controlada nos grandes reservatórios, que guardam Cerca 90% da água do Estado. 

“Nós criamos uma falsa impressão de que temos rios perenes. Não, nossos rios são efêmeros. Artificialmente, nós guardamos água e soltamos na torneira durante o ano todinho", ilustra. 

Sem essa intervenção técnica e o planejamento das bacias hidrográficas, os rios secariam logo após o fim das chuvas, inviabilizando a vida econômica dos produtores do interior.

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Como ocorre a perenização

Para decidir o volume de água que será liberado dessas "torneiras", o Ceará utiliza um modelo de alocação negociada, realizado por meio de 12 comitês de bacias hidrográficas. Esses colegiados são compostos por 60% de representantes da sociedade civil e 40% do poder público, garantindo que a decisão sobre o uso do recurso seja democrática. 

Tércio destaca que a Cogerh apenas executa o que é deliberado pela população. “Esse é o grande diferencial do estado do Ceará. Nos outros estados, pode até ter os comitês, mas eles não têm a capacidade que o Ceará tem de funcionar em sua plenitude", diz. 

Em anos de escassez, destaca o diretor, a prioridade da alocação é sempre o abastecimento humano, com restrições graduais para os setores industrial e agropecuário.

Essa operação busca equilibrar três eixos: garantir água para as pessoas, sustentar a produção e preservar um nível mínimo de vazão nos rios para manter a perenização, sempre respeitando os limites de segurança dos reservatórios.​

Regiões mais contempladas

A região hidrográfica do Alto Jaguaribe encerrou o ano de 2025 com a maior extensão de trechos de rios perenizados dos últimos 12 anos.

Açudes estratégicos como Orós e Arneiroz II cumpriram papel central nesse resultado, ajudando a perenizar longos trechos do rio Jaguaribe.

O aumento da perenização a partir do Orós também ocorreu em função da redução do volume armazenado no açude Castanhão. Com a redução no volume do Castanhão, tornou-se necessário intensificar a liberação de água pelo Orós para assegurar a continuidade da perenização e o atendimento às demandas da região.

Vista aérea de um rio sinuoso ladeado por densa vegetação verde, serpenteando por uma paisagem predominantemente seca com palmeiras esparsas e algumas áreas gramadas. É o rio Figueiredo, no Ceará.
Legenda: Rio Figueiredo, na região de Alto Santo, teve cerca de 28 km perenizados em 2025.
Foto: Divulgação/Cogerh.

Benefícios para produtores

A Federação dos Produtores do Projeto Irrigado Jaguaribe-Apodi (Fapija) é beneficiada com as águas da perenização do açude Castanhão, com captação no trecho do Rio, na região hidrográfica do Baixo Jaguaribe.

A segurança hídrica proporcionada pela perenização transforma a realidade de perímetros irrigados. Segundo Luiz Felipe Sousa, gerente executivo da entidade, o fornecimento regular de água permite o cultivo de espécies que não sobreviveriam apenas com o regime de chuvas, como a fruticultura e a produção de sementes. 

A região tornou-se a maior produtora de banana do Ceará, além de abrigar a maior área de produção de pitaya do Brasil. No primeiro semestre, mais úmido, o foco recai sobre sementes de soja, milho e sorgo; enquanto o segundo semestre é marcado pela produção de silagem para alimentação animal.

Para garantir a sustentabilidade do abastecimento, a Fapija realiza um trabalho intenso de conscientização e manejo hídrico com os irrigantes. Luiz Felipe enfatiza que "o segredo” na economia de água é a quantidade e quando usar. 

“A gente passa os dados de evapotranspiração e mostra para eles: esse dia aqui pode irrigar tantas horas”, diferencia. “A gente saiu de plantios apenas de sequeiro, de plantar uma vez no ano, para plantar três vezes. Sem o Castanhão, o segundo semestre não teria água e não seria possível fazer essas culturas”.

Thiago Barros, vice-presidente do Comitê da Bacia do Alto Jaguaribe, é de uma região próxima ao açude Lima Campos que usa a água da perenização do Orós, segundo maior reservatório do Ceará.

Segundo ele, o perfil produtivo mudou drasticamente após períodos de seca; o cultivo de arroz por inundação foi substituído pela produção de forragem para a pecuária leiteira, além de hortaliças e piscicultura. 

No cotidiano, o trabalho de gestão envolve desde a limpeza física dos canais, para evitar perdas de água por infiltração, até a divisão negociada do uso da água entre os produtores, já que a sensibilização coletiva é o que permite que o recurso chegue a todos os beneficiários da bacia. 

“A gente conscientiza esses produtores que cada um vai fazendo seu uso para o próximo conseguir usar, para conseguir que todos tenham acesso a essa água sem ter disputa”, acredita.

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