Com sucatas vendidas, ‘cemitério’ de aviões no Aeroporto de Fortaleza está perto do fim

Segundo a administradora do equipamento, resta apenas uma aeronave em espaço que chegou a abrigar uma dezena.

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Ceará
Legenda: Quatro Boeings que estavam há mais de 10 anos no pátio foram leiloados em 2021.
Foto: Natinho Rodrigues/SVM

O trecho de uma das pistas do Aeroporto de Fortaleza vem sendo, desde a década de 1990, local de repouso para diversas aeronaves inoperantes. Porém, o “cemitério de aviões”, que chegou a ter 10 unidades em 2013, hoje está perto de ser encerrado.

Normalmente, aeronaves paralisadas em aeroportos brasileiros são propriedade de empresas falidas e aguardam decisões judiciais para terem seu destino estabelecido. Também há casos de apreensões em processos criminais.

De acordo com a Fraport Brasil, administradora do Aeroporto de Fortaleza desde 2018, no local resta apenas uma aeronave pequena, envolvida em trâmites judiciais. O modelo e a idade do equipamento não foram informados.

O processo de remoção das aeronaves tem avançado nos últimos anos. Em 2018, a Fraport informou a diminuição de dez para sete aviões, parados entre 2007 e 2010 por dívidas com o Aeroporto.

Já em 2021, quatro dessas aeronaves foram vendidas em leilão, todas em estado de sucata. Conforme a administradora, “três já foram removidas do sítio aeroportuário e uma está em processo de remoção”. 

Legenda: Parados, equipamentos perdem valor econômico e podem ser focos de mosquito da dengue.
Foto: Natinho Rodrigues/SVM

Os quatro Boeings 727 e 737 vendidos voaram pela companhia cearense TAF Linhas Aéreas e estavam abandonados desde que a empresa faliu, em 2010. Criada em 1957, a TAF realizava transporte de passageiros e também de cargas.

Do valor à saúde pública

As aeronaves inoperantes ocupam espaços nos aeroportos que poderiam ser destinados a aviões comerciais que estão em uso e, ao se deteriorarem, também perdem o valor econômico. Além disso, podem funcionar como criadouros do mosquito Aedes aegypti, sendo preocupação de saúde pública.

Esse foi o raio-X do programa “Espaço Livre - Aeroportos”, lançado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2011 para remover dos pátios dos aeroportos brasileiros aviões de grande porte abandonados e sem condições de navegação. 

Em 2015, o balanço final do programa informou que 50 dos 62 aviões identificados em 11 aeroportos haviam sido removidos. Porém, nenhum desses do Aeroporto de Fortaleza.

Legenda: Maioria das aeronaves pertencia à cearense TAF Linhas Aéreas, que faliu em 2010.
Foto: Marília Camelo/SVM

Resgate continental

Uma das principais remoções do Aeroporto de Fortaleza ocorreu em 2017, quando um Boeing pertencente à TAF foi adquirido pelo Governo Alemão para ser repatriado e exposto em memorial na cidade de Friedrichshafen. Ele estava estacionado há nove anos.

O chamado “Landshut” foi sequestrado em outubro de 1977, com 91 pessoas a bordo, por quatro integrantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina. A aeronave saiu de Palma de Mallorca, na Espanha, com destino a Frankfurt. No espaço aéreo da França, os extremistas armados com pistolas e granadas anunciaram o sequestro.

Para libertar os passageiros, o grupo exigia que o governo soltasse integrantes do grupo terrorista alemão Fração do Exército Vermelho (RAF), presos na Alemanha, mas Berlim se recusou a libertá-los. Foram cinco dias de tensão, com paradas para reabastecer nas cidades de Roma, Lárnaca, Bahrein, Dubai e Áden. 

O piloto foi morto em frente aos passageiros, no dia 16, e o copiloto foi obrigado a operar sozinho. Em Mogadíscio, capital da Somália, forças especiais da polícia federal alemã conseguiram libertar a aeronave na madrugada do dia 18. Três sequestradores foram mortos.

Após o sequestro, o Landshut continuou transportando passageiros e cargas para várias empresas. Até 2008, ele voou pela cearense TAF, mas ficou parado no Aeroporto por pendências judiciais da empresa.

Em setembro de 2017, véspera do aniversário de 40 anos do sequestro, o avião foi “resgatado” de Fortaleza depois que o Governo Alemão comprou sua sucata por R$75 mil, após acerto com a Justiça Federal do Ceará.