Ceará lança guia para orientar sobre uso de antibióticos e tentar frear ‘superbactérias’

Ferramenta destinada a profissionais da Saúde busca conter a crescente resistência a antibióticos, um desafio da saúde global.

Escrito por
Carol Melo carolina.melo@svm.com.br
Profissional de saúde realiza atendimento em consultório médico. Ela consulta com paciente e criança em posto de saúde de Fortaleza, representando a saúde primária.
Legenda: Porta de entrada da saúde pública concentra a maioria das prescrições de antibióticos.
Foto: Divulgação/Prefeitura de Fortaleza.

Há cerca de 10 anos, havia diversas opções de antibióticos para tratar infecções. Porém, o número de medicamentos eficazes contra essas doenças, como a infecção urinária, vem reduzindo. Esse fenômeno é conhecido como resistência antimicrobiana, que pode originar as "superbactérias"​ — tipo de bactérias resistentes a vários antibióticos — e é um dos principais desafios de saúde global.

Uma análise publicada pela revista The Lancet estima que o número de mortes causadas pelo aumento da tolerância a antimicrobianos deve crescer em 69,6% até 2050, principalmente em países do sul da Ásia, do Caribe e da América Latina, entre eles o Brasil. O estudo aponta que é possível prevenir o cenário ao minimizar o uso inadequado de medicamentos como antibióticos

Visando combater o crescimento do problema que pode gerar essas "superbactérias"​, comuns em ambiente hospitalar, e auxiliar os profissionais de saúde no Ceará, a Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) lançou, no início deste ano, o primeiro Guia de Antimicrobianos na Atenção Primária. Destinado a médicos, enfermeiros, dentistas e farmacêuticos, o manual busca frear o fenômeno logo na "porta de entrada" do sistema de saúde.

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Um dos autores do documento, o infectologista Lauro Perdigão Neto, secretário-executivo de Atenção à Saúde e Desenvolvimento Regional da Sesa, explica que o guia pretende frear o avanço do problema, preservando a saúde coletiva, além de contribuir com o planejamento da aquisição de remédios pelos municípios.

“A multirresistência está caminhando muito mais rápido do que a disponibilidade de novos fármacos capazes de tratar essas infecções. Então, quanto mais a gente atrasar o fenômeno, melhor para as próximas gerações, porque elas ainda vão ter a possibilidade de utilizar medicações que hoje são usadas”, detalha. 

Quanto mais a gente atrasar e promover o uso adequado de antibiótico, mais a velocidade para a multirresistência é atenuada.”
Lauro Perdigão Neto
Infectologista

Uso desenfreado de antibióticos intensifica resistência bacteriana

A urgência em combater o fenômeno também se justifica devido ao retrocesso causado pela pandemia de Covid-19. Conforme o infectologista, o uso de antibióticos foi acelerado durante o período, tanto pela falsa impressão de que eles agiriam contra o vírus quanto pelas complicações em pacientes graves. E isso intensificou o problema ecológico da resistência. 

O aumento da tolerância bacteriana é explicado pela teoria da seleção natural das espécies, do biólogo Charles Darwin: expostas a antibióticos, algumas bactérias mais fortes podem sobreviver e se reproduzir, resultando em uma versão menos sensível ao medicamento. O ciclo pode continuar ao ponto de a droga não surtir mais efeito.

A imagem mostra o infectologista Lauro Perdigão Neto, secretário executivo de Atenção à Saúde e Desenvolvimento Regional da Sesa, vestindo camisa da campanha Antibiótico é Coisa Séria, com logo do Governo do Estado do Ceará e Secretaria da Saúde. Ele sorri em frente a banner da mesma campanha, ilustrando ações de conscientização sobre o uso racional de medicamentos.
Legenda: Um dos autores do guia, o infectologista ministra ciclo de oficinas de treinamento voltadas às equipes de saúde da família sobre o documento.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

Por que focar na 'porta de entrada' do SUS?

Embora o termo “superbactéria” seja frequentemente associado a ambientes hospitalares, o secretário-executivo explica que a estratégia foca nas unidades de saúde primária — conhecidas como "portas de entrada" do SUS —, uma vez que concentrariam “mais de 90% dos antimicrobianos” prescritos.

“Os hospitais têm uma incidência muito maior de multirresistência, porque é onde são utilizados antibióticos de espectro mais amplo, as ‘balas de canhão’, muitas vezes baseadas em resultados de laboratório. Já na atenção primária, a prescrição é empírica, baseada na prática clínica. Tendo como exemplo o que aconteceu nos hospitais, a hora de agir na atenção primária é agora, promovendo o uso otimizado de antibióticos.”

Segundo Lauro, o novo guia surge como um suporte estratégico aos profissionais do Estado, visando mitigar a criação das bactérias multirresistentes.

“Apesar de parecer intuitivo, tem muitas peculiaridades que, ao longo do tempo, o profissional de saúde pode acabar esquecendo, como o ajuste de doses para crianças ou para pacientes com insuficiência renal. O guia traz orientações sobre o tempo de tratamento esperado e mensagens de alerta para o uso correto”, aponta.

O médico também relata ser comum que pacientes solicitem a prescrição de antibióticos em consultórios, mesmo sem necessidade. Nesse contexto, ele enfatiza a importância do documento elaborado pela Sesa, que funcionaria como uma ferramenta técnica para auxiliar profissionais a instruir pacientes e a resistir a esse tipo de pedido. 

“Tem muitos pacientes, por exemplo, que tiveram uma infecção bacteriana na garganta, tinham uma indicação de antibiótico e, quando têm uma nova [doença], que tem tudo para ser viral, se lembram de que ficaram bons com o antibiótico e já chegam pressionando o profissional de saúde”, explica. 

Como muita prescrição é desnecessária, a automedicação não é adequada e as dosagens não são ajustadas — aquela 'farmácia escondida' em casa —, tudo isso acelera o processo de pressão seletiva artificial e os remédios vão deixando de ter eficácia."
Lauro Perdigão Neto
Infectologista
 

Guia foca nas principais infecções do Ceará

Fruto de uma pesquisa de cerca de seis meses, o guia abrange o manejo de diversas condições frequentes no Estado, como infecções dermatológicas, respiratórias e urinárias, oferecendo protocolos claros de diagnóstico e tratamento. 

As orientações contêm apenas antibióticos que estão na Relação Estadual de Medicamentos (Resme) — lista de medicamentos e de insumos que são oferecidos gratuitamente pelo SUS —, o que, segundo o secretário-executivo, auxiliaria no planejamento da compra de remédios pelos municípios, além de fortalecer o alinhamento entre o que é prescrito e o que é disponibilizado na rede. 

“Se eu tenho um guia, posso dizer quais são as minhas infecções mais frequentes e como as equipes de saúde vão se comportar. Então consigo programar a medicação de forma mais assertiva e não fica naquela variação de 'mudou a equipe de saúde da família, mudou o medicamento preferido deles'”, explica Lauro. 

Imagem mostra o infectologista Lauro Perdigão Neto, secretário executivo de Atenção à Saúde e Desenvolvimento Regional da Sesa, durante entrevista em gabinete, vestindo camisa branca com o brasão do Governo do Estado do Ceará, tendo ao fundo mapas de monitoramento epidemiológico e indicadores de saúde.
Legenda: Guia é voltado para médicos, enfermeiros, dentistas e farmacêuticos que atuam na Atenção Primária.
Foto: Thiago Gadelha/SVM.

Para transformar o conteúdo técnico em prática clínica, o infectologista e a Sesa iniciaram um ciclo de oficinas voltado às equipes de saúde da família. Até o início de março, o projeto capacitou cerca de 700 profissionais, em regiões como Cariri, Centro-Sul, Vale do Jaguaribe e Litoral Leste. De acordo com o Lauro Perdigão Neto, a previsão é que o treinamento abranja todo o Ceará até o mês de maio. 

Desenvolvido com a participação de gestores locais, representantes do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Ceará (Cosems-CE), farmacêuticos, infectologistas e outros especialistas, o guia ainda contou com o apoio técnico da Universidade de São Paulo (USP) e com a parceria do Centre for Antimicrobial Optimisation Network (CAMO-Net) — rede dedicada ao fortalecimento das práticas de uso racional de antimicrobianos no País.

Como baixar o guia da Sesa

O documento está disponível gratuitamente, em PDF, no site da Sesa e pode ser baixado por qualquer profissional da saúde. 

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