Série da AppleTV, "Silo" usa distopia para falar de manipulação social
Produção ambiciosa, a série de ficção científica mostra o drama da humanidade que precisa se trancar em um silo subterrâneo para sobreviver ao apocalipse
Com a segunda temporada já garantida, "Silo" não é uma série para quem busca diversão despretensiosa. A trama propõe um mergulho profundo na essência da humanidade quando o que está em jogo é a sobrevivência e o medo do desconhecido. Fãs de ficção científica não vão se decepcionar.
Tal qual uma Caverna de Platão, onde os que buscam a verdade são duramente confrontados pelos que desejam manter a forma de governo já estabelecido, "Silo" projeta um mundo onde nenhum ser vivo sabe o que aconteceu com a Terra nem quem foram os construtores do ambiente fechado, porém autossustentável, onde vivem.
Nesse silo há mais de 100 níveis (andares) que se projetam no subterrâneo. Na gigantesca estrutura cilíndrica, há tudo que é preciso para a sobrevivência básica. Estufas para produção de alimentos hidropônicos, água retirada do subsolo, escolas para os jovens, hospital e prisão. As grades são reservadas para quem quebra as regras mantidas pelo Judiciário e pela Prefeitura.
Relíquias
Um dos crimes mais graves, punido exemplarmente, é portar, guardar ou comercializar as chamadas "relíquias", objetos que remetem a um tempo em que o silo fora ameaçado pelos rebeldes, homens e mulheres que defendiam a abertura do banker e a exploração do que existe do lado de fora.
Na prática, essas relíquias podem ser qualquer objeto antigo: um relógio, uma velha câmera, ou pior: um livro! Ou seja, tudo que possa mostrar como era a vida antes da Terra ser exaurida; tudo que não pode ser explicado e que suscite questionamentos. Ideias, todos sabemos, podem ser bem contagiosas.
Assim como em nossa sociedade, o silo tem diferentes classes sociais, embora ninguém questione "como" e "porque" cada um é designado para tarefas maiores ou menores.
Estruturas do Poço
Dentro da estrutura, o que você faz determina quem você é na sociedade. Isso se expressa na localização de seus habitantes. Nos níveis superiores vivem aqueles que comandam áreas importantes. Seus apartamentos são melhores e maiores. Regalias são permitidas, incluindo a permissão para ter filho.
À medida em que se desce as enormes escadas em espiral (um dos grandes trunfos visuais da série), vemos os trabalhadores corporativos, depois os que executam tarefas braçais, até chegar ao "fundo do poço" onde vivem os que mantêm as engrenagens (o forno) funcionando para suprir a todos com luz, água e ar. E embora suas habilidades sejam únicas e das quais depende a sobrevivência de todos, essas pessoas são as mais desprezadas por aqueles de níveis superiores. Um retrato fiel do presente e do passado, refletido no futuro.
No final da cadeia social estão os trabalhadores da reciclagem. É para esse "posto" que são enviados os indíviduos condenados. Mais embaixo também ficam os moradores que preferem se isolar socialmente e geralmente são deles as vozes discordantes.
A Janela
A área central é o refeitório. Lá fica a grande janela. Através dela vê-se uma paisagem sem vida. O céu é sempre cinza. O terreno árido sustenta apenas velhos troncos de árvores mortas e algumas pedras. Sinal de que ainda não é tempo de sair do refúgio para se aventurar no planeta devastado.
Mesmo assim, muitos já saíram. O principal pacto do Silo é: quem pede para sair, será atendido. Mesmo que se arrependa, não há volta. E em nome dos que ficarão é solicitado ao desertor que limpe a janela do lado de fora para que os moradores tenham uma visão clara e atualizada do exterior. O medo também é uma arma poderosa.
É nesse mundo fechado, sombrio e desprovido de esperança que o enredo dramático se desenrola, revelando uma trama repleta de suspense, reviravoltas, além de subtextos e referências filosóficas.
Em "A Origem das Espécies", Darwin nos alertou que nas adversidades severas não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas "aquele que melhor se adapta às mudanças". A premissa se encaixa à perfeição na série de 10 capítulos.
O elenco multiracial cumpre bem o papel que lhes é dado. Afinal, o silo funciona como uma espécie de Arca de Noé, onde cabem diferentes arquétipos.
Mas a aparente paz dos moradores começa a ser quebrada com a descoberta de uma relíquia (um velho HD) que contém informações sobre a estrutura que existia antes dos rebeldes serem derrotados na malfadada revolta, 140 anos atrás.
Interpretações
As informações descobertas por Allison (Rashida Jones), esposa do xerife Becker (David Oyelowoa), a convencem de que vale a pena sair do silo. É o bastante para que tudo comece a mudar.
Essa ação leva a uma série de alterações no comando e, quando menos espera, Juliette Nichols (Rebecca Ferguson), uma simples mecânica dos andares inferiores, é chamada a assumir um posto de alto comando, com apoio da prefeita Ruth (Geraldine James).
Ela sabe que não é a preferida do Judiciário. Eles a aceitam para não atrair suspeitas sobre a "caça às bruxas" que realizam nas sombras. A questão é que Juliette é um desses alvos. Sua mãe também era inventiva, curiosa e pagou com a vida por ser diferente.
Assim, o silo vai aos poucos se transformando em cenário de discordâncias, tramas políticas, traições, assassinatos e, acima de tudo, busca por respostas. Quem somos, de onde viemos e para onde vamos? Enfim, o grande enigma do universo.
Antagonistas
Do lado oposto, Bernard Holland (Tim Robbins) é o enigmático comandante do Juciário, a instância máxima do Poder. Seu papel é garantir que nada mude, ninguém pergunte ou responda às interrogações naturais da população.
Sims (Common) é seu braço direito. Representa a força, a "segurança".
Para equilibrar a luta, outra mulher entra em cena. Trata-se de Martha Walker (Harriet Walter), uma espécie de cientista "faz tudo" que guarda segredos capazes de ameaçar o Establishment.
Referências
Assistindo "Silo" é impossível não enxergar as referências visuais usadas em Zion, a cidade subterrânea onde os humanos resistiam aos ataques das máquinas em "Matrix". Também há semelhanças com o polêmico "O Poço" e com o clássico "1984", obra que retrata magistralmente a essência nefasta do totalitarismo.
Assim como o filme "1984", baseado na obra de George Orwell, "Silo" é uma adaptação do primeiro livro do best-seller de Hugh Howey (completam a trilogia os livros "Ordem" e "Legado"). Quem já se debruçou sobre os três volumes escritos, rasga elogios à produção feita para a TV. Em especial, à cenografia e composição de personagens.
Mas, não há como negar que o roteiro é o que faz a série crescer. A teia de intrigas torna-se cada vez mais complexa sem perder o fio condutor. Quanto aos subtextos, não seria exagero dizer que a série reflete sobre as consequências de encarar a verdade e também de se viver em negação.
Por fim, "Silo" oferece uma produção com múltiplos arcos e uma narrativa mutável. Tanto que o último episódio pega a todos de surpresa. Emociona, choca e nos dá a sensação de que vai ser difícil prever o desfecho da história. Série boa é assim.