Sereia de Ouro: Tradição e reinvenção

Terra de mestres das culturas tradicionais e de inventivos criadores de artes diversas, o Ceará é um celeiro de personagens que levam ao outro a força de seu conhecimento e talento

Legenda: Rainha dos vaqueiros, Dona Dina se empoderou numa tradição que muitos diziam ser vetada às mulheres
Foto: Fabiane de Paula

A arte e o engenho encontraram no Ceará um terreno fértil. Entre os nomes destacados pela campanha do Sereia de Ouro, abundam os representantes do território criativo. Tradição, invenção e partilha são elementos comuns daqueles que fazem da cultura cearense uma referência.

Entre os 50 nomes destacados na campanha deste ano do Sereia de Ouro, um número expressivo se encontra nas fileiras culturais. Aqui, você conhece o ofício, a perseverança e a generosidade de três deles. 

O saber da terra

Deve-se começar pela aguerrida Dina Maria Martins Lima, de Canindé. Aos 66 anos, Mestra Dina conserva intacto o amor à causa da gente sertaneja. Vaqueira e aboiadora, batalhou para se firmar nesse ofício dominado por homens. A “Rainha dos Vaqueiros” começou aos 14 anos e tornou-se uma das maiores incentivadoras dos costumes e tradições desse símbolo do Nordeste. 

Dina nutria o desejo de seguir os passos do pai José Martins da Silva. Nem completou sete anos, rememora, a rotina já era a de madrugar, tirar leite das vacas, botar os bezerros no curral. “Ele queria que a filha estudasse. Porém, o que eu mais gostava era de viver com a natureza”, conta. 

Seu José Martins até recorreu a um colégio interno, mas nada interromperia a escalada audaciosa da filha. Sábio, ele compreendeu a hora da cria decidir o destino. Apesar do preconceito e das desconfianças, tinha apoio irrestrito do pai. 

Dina reflete o quão é sacrificada a rotina deste trabalhador. É gente simples, de fé e dedicação. “Não fosse o vaqueiro, fazendeiro não tinha leite, não tinha queijo, não tinha coalhada. Explico muito isso para os mais jovens. As pessoas querem ser. Mas quero saber se será alguém que luta com o gado com carinho e amor. Esse é que é o vaqueiro”, explicita a Mestra.

Em 1970, a convite de frei Lucas Dolle, então pároco de Canindé, Dina organizou a primeira Missa do Vaqueiro. “Um marco na minha existência”, diz orgulhosa. O Rei do Baião, Luiz Gonzaga, um dos artistas agraciados com o Troféu Sereia de Ouro, fez questão de conhecer e cantar na festa da Missa de 1976. Ocasião única, seu Lua chegou a desafiar Dina nos versos. Nem ele dobrou a cearense. 

Ser batizada de “Rainha dos Vaqueiros” acirrou a discriminação. “Eles não me aceitavam, simplesmente por ser mulher. Não admitiam eu correr em cima de um cavalo e ganhar uma corrida. Eu só fazia sorrir”, esmiúça a história. 
Confiante, a jovem compreendia que o título carinhoso era uma chance de ajudar os amigos de lida. Ainda nos anos 1980, fundou a Associação dos Vaqueiros, Aboiadores e Pequenos Criadores dos Sertões de Canindé. Uniu mais de 260 vaqueiros membros e presidiu a entidade ao longo de seis mandatos. Levantou a sede da Associação e, entre outros feitos, articulou a instalação do Memorial do Vaqueiro no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. 

Em 2005 foi reconhecida como Mestra da Cultura do Estado do Ceará. Foi considerada em 2007 a segunda mulher mais influente na cultura popular do Brasil, segundo o Ministério da Cultura. 

Da jornada exaustiva, Dina pondera o significado de uma homenagem como o Sereia de Ouro. “Me sinto muito feliz”, declara. Um sonho ainda a move, nem que seja a última ação em vida: construir a Casa do Vaqueiro. “Cada vaqueiro vai ter a sua história lá, porque eu tenho decorado. Tenho a visão de cada um. Dos que começaram nas vaquejadas, que levantaram a associação”, demarca Mestra Dina. 

Desbravar sensível 

Legenda: Solidariedade: o músico e publicitário André Comaru trocou os projetos pessoais pelo trabalho de entrega a crianças com deficiência
Foto: Fabiane de Paula

Se a “Rainha dos Vaqueiros” superou adversidades e fincou a cultura nordestina, a coragem de explorar outras realidades repercutiu decisivamente nas escolhas de André Comaru. Arte foi alicerce erguido ainda na infância. Da música, incentivo dos pais, o cearense edificou uma trajetória iluminada pela empatia. Erguer pontes no intuito de acudir o próximo tem sido sua labuta. 

Fundador da ONG Be Happy Music Club, o músico cearense transforma a vida de crianças com deficiências nas ilhas Fiji, no Pacífico Sul. E ele quer mais. “Desde 2014, sentia o chamado de atuar diretamente em alguma ação humanitária. O mundo estava precisando de muita coisa, enquanto eu trabalhava só nos meus projetos pessoais. Não estava dando algo de volta”, explica. 

Em 2009, desembarcou na Austrália com o objetivo de um intercâmbio de seis meses. Não tinha uma ideia precisa do futuro. Tornou aquele país seu lar. Anos depois, Comaru optou por se voluntariar nas Ilhas Fiji. A escolha do lugar obedecia a critérios claros. Fica próximo da Austrália, pouco menos de seis horas de avião; a política entre as nações é amigável e muito presente nas áreas de turismo e negócios; e, o mais importante, é uma nação carente de ajuda. 

Em 2016, o cenário era preocupante. Naquela ocasião, Fiji lamentava os estragos do ciclone Winston. Ventos de mais de 320 km por hora assolaram várias ilhas do arquipélago. Mortos e desaparecidos davam a dimensão da tragédia. “Eles estão precisando de mim. É pra lá que eu vou”, pensou de pronto Comaru. 

“Fui sem nenhum projeto. Para ver o que o universo ia me trazer”, afere. Largou emprego, carro e casa. Nas mãos, só a passagem de ida. Voluntário, percorreu várias frentes. Ensinou crianças de uma escola pública a nadar. O amor pelo surf abriu outras portas. Com apoio de uma associação local, protagonizou aulas de surf adaptado, oportunizando a inclusão no esporte de pessoas com deficiência. 

Já mais inserido naquela comunidade, foi convidado a tocar para 25 crianças na Escola para Cegos de Fiji, em Suva, capital do País. “Foi um dia que jamais vou esquecer. Não sabia como interagir ou se elas iriam gostar da música”, confessa Comaru. O concerto foi tão especial que durou cerca de duas horas. 

O semblante e confiança dos pequenos mudaram para melhor. Em cena, uma troca genuína de amor por meio da música. Tocado, logo após a sessão procurou imediatamente a diretora. “Estou apaixonado. As crianças têm muito talento musical e acho que podemos fazer muita coisa legal. Posso vir uma vez por semana?”, indagou. “Amamos sua participação. Venha duas vezes”, ouviu. 

André Comaru atentou à necessidade das crianças em dominar um instrumento musical. O cearense fez barulho pelas ilhas. Procurou lojas de música, realizou eventos beneficentes. Angariou o necessário para a empreitada. Em paralelo, projetou uma metodologia de ensino própria. 

Tempo, paciência e esforço trouxeram o momento mais esperado daquele trabalho. Era a vez de elas subirem no palco e mostrar a criatividade e potencial. No entanto, durante as apresentações organizadas, quase nenhum parente aparecia para prestigiar. É quando o fortalezense cultiva uma experiência inédita naquela sociedade. 

“Muitas dessas crianças são rejeitadas por conta da deficiência, inclusive pelas famílias. Elas nunca iam nos shows. No último evento do ano demos o máximo. Comunicamos e pedimos muito a famílias e pessoas da região. Lotamos o ginásio e foi muito lindo”, relata emocionado. 

“Hoje, atendemos mais de 200 crianças com programas semanais. Os facilitadores são músicos locais, treinados com nossa metodologia. Eles são pagos. Além de trazer benefícios às crianças, damos emprego para integrantes da comunidade”. 

A missão prossegue no empenho por bem-estar e inclusão social. Os programas musicais acolhem crianças com deficiência física, surdez e perda auditiva, distúrbios de fala e linguagem, síndrome de Down, autismo e paralisia cerebral. O objetivo, em cinco anos, é expandir para 18 escolas em Fiji. Inserir a iniciativa em outros países é o passo seguinte. Austrália e Brasil estão nos planos.

Para ele, ser destacado pelo Sereia de Ouro chega num momento lindo. “Reconhece um trabalho que muda a vida de crianças”, descreve.

Educação transformadora

Legenda: O poeta Bráulio Bessa, conhecido em todo o País, por renovar a tradição do verso popular
Foto: Helene Santos

A partilha do saber mudou os destinos de uma criança nascida em Alto Santo. Na escola, Bráulio Bessa descobriu o ofício da vida. A infância feliz, do pé no chão e banho de rio, configurou as bases de uma escrita mediada pela observação e sensibilidade. Tinha a natureza em si. Numa aula, então com 14 anos, ele ouviu da professora a pergunta decisiva: “O que você quer ser quando crescer?”. 

Faltaram respostas imediatas. Sentiu-se perdido e desconfortável para inventar uma profissão qualquer. Três meses depois, uma tarefa pedia dos alunos a leitura de um livro. Imortais como Machado de Assis, Carlos Drummond, José de Alencar e Rachel de Queiroz eram sorteados entre os colegas. Na sua vez, o pedaço de cartolina rosada trazia “Patativa do Assaré”, o poeta máximo da tradição popular cearense, um dos agraciados com o Troféu Sereia de Ouro. 

Daquele dia em diante, determinação e fé iluminaram os tijolos percorridos pelo cearense. A defesa irrestrita da cultura nordestina, permitiu que o filho de Alto Santo levasse a literatura de cordel para outros Brasis. Se tá na xilogravura, a poesia pode brilhar na TV e no mundo virtual. 

Revirando a biblioteca catou um livro de Patativa e levou pra casa. Memória vívida. Cada palavra do mestre assareense o segue desde então. “Eu sou de uma terra que o povo padece. Mas não esmorece e procura vencer (...) Eu sou brasileiro, filho do Nordeste, sou cabra da Peste, sou do Ceará”.

“Naquele dia, não descobri apenas o que queria ser. Foi algo maior”, alerta. O menino sentiu-se representado naquelas rimas. Fervoroso por aquele universo descortinado, arriscou os primeiros rabiscos. Montou uma estrofe de quatro versos apenas, uma “quadrinha”. “Queria ser Patativa. Pra cantar em todo canto. Mas sou passarinho pequeno. Só canto em Alto Santo”, recita de cor 

“Professora me pergunte o que eu quero ser quando crescer”, desafiou no dia seguinte à feitura dos versos. A educadora obedeceu ao pedido. “O que você quer ser?”. “Eu já sou”, asseverou Bráulio Bessa. “Poeta. Desde ontem”, acrescentou. Como uma influência educadora é benéfica, o jovem franzino entregou o poema e ouviu: “Pois você já é poeta. Só não pode parar”. 

Doar-se à poesia popular nordestina solidificou-se como sina. Pelejou por demais. Consertar computadores definitivamente não era a escolha preferida. Em paralelo à lida com estas máquinas, mantinha o ideal de um dia ter uma coleção de seus versos publicada. Das editoras somaram-se as inúmeras recusas. Algumas intolerantes e duras, até. “Nem Drummond vende livro de poesia hoje no Brasil. Imagina um poeta que escreve poesia com sotaque”, engoliu. 

O episódio ateou ainda mais querosene na persistência de Bráulio Bessa. “Agora é que eu não abro mesmo”, firmou resiliente. A eficiência no ato de contemplar a realidade ao redor, advindo com o exercício da poesia, despertou outra possibilidade. Bráulio identificou que o lugar do poeta nordestino é nas feiras das cidades. E qual é a grande feira hoje? Sim, a internet. 

“Tem todo tipo de gente. Não fecha hora nenhuma. Não tem fronteira. O conteúdo produzido por mim em Alto Santo pode ser consumido por um cabra em Nova Iorque, Tóquio, Fortaleza. Foi a hora de entender o que eu queria falar, para quem e quando usar a poesia, a literatura de cordel, dentro de uma linguagem estrutural, mas abordando temas necessários naquele universo”, argumenta o poeta. 

Sabedor do compromisso, investiu no ambiente virtual. A criação do blog “Nação Nordestina” o aproximou dos milhares de seguidores. Cultura popular, Alto Santo e a melancolia sertaneja alumbravam os conteúdos produzidos pelo cearense. 

O cotidiano desse Ceará profundo era tecido em expressões diretas e edificantes. Bráulio Bessa ultrapassou a marca de 100 milhões de visualizações com os vídeos. Em 2015 foi convidado para participar do Encontro com Fátima Bernardes. Hoje é Consultor de Cultura Nordestina do programa e reverbera o crivo poético nos mais diversos temas. 
Intrépido, ao vivo, leva semanalmente poesia aos lares brasileiros. Declama assuntos complexos e atuais. A pena valente já debulhou xenofobia, suicídio, depressão, adoção, homofobia, racismo, corrupção e educação. Escrever com sentimento e verdade colaboram em não deixar uma vírgula sequer fora de contexto. A precisão é conquistada na empatia.

Antes renegado, o poeta passou a ser prestigiado pelas editoras. Reuniu toda a produção, desde os 14 anos, no livro "Poesia com Rapadura" (2017). O triunfo da estreia permitiu outro voo com "Poesia que Transforma" (2018). Tornou-se best-seller. É considerado fenômeno do mercado literário contemporâneo e um defensor irrestrito da cultura nordestina. 

“Carrego minha terra dentro da minha arte. Tenho orgulho de não ter rompido com o lugar de onde vim”, confessa. A alegria original do cearense cultivou no artista o signo da persistência. Jamais se abater ante os percalços ensina a ser generoso. De Alto Santo, do Ceará, Bráulio Bessa transmite sabedoria. “O povo é a matéria prima do artista”, desfia o poeta.

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