Legislativo Judiciário Executivo

Tentativa de criar 'braço político' da facção em Morada Nova (CE) envolveu disputa pela prefeitura

Organização criminosa teria financiado candidatos para receber contrapartida de proteção institucional voltada à expansão na região.

A deflagração da "Operação Traditori" em Morada Nova expôs a tentativa da organização criminosa Guardiões do Estado (GDE) de criar um “braço político” na cidade do Vale do Jaguaribe. A investigação aponta que o apoio financeiro da facção pode ter ido além dos vereadores, chegando ao possível financiamento de um candidato a prefeito nas eleições de 2024.

A apuração sobre a tentativa da GDE de “ocupar” o Executivo municipal ainda será aprofundada, mas já há indícios de “relação de proximidade política e pessoal” entre a facção e um concorrente ao posto. É o que aponta o pedido de prisão preventiva analisado pela 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza, ao qual o PontoPoder teve acesso. 

A deliberação da Justiça Eleitoral resultou na detenção de cinco vereadores e outras 11 pessoas, além do cumprimento de 30 mandados de busca e apreensão, por meio da operação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (Ficco-CE), integrada pela Polícia Federal (PF), na última quinta-feira (12).

Fachada da Câmara Municipal de Morada Nova e foto de operação do Ficco-CE e da Polícia Federal.
Legenda: Operação da Polícia Federal mirou vereadores suspeitos de relação com o crime organizado em Morada Nova.
Foto: Reprodução/Instagram | Divulgação/PF.

Entre os alvos estava Marco Bica (PT), conhecido como "Marquinho da Ana", candidato a prefeito derrotado em Morada Nova na eleição de 2024 e então titular da Superintendência de Obras Hidráulicas do Estado (Sohidra). Ele passou por diligências na ação da PF, mas não chegou a ser preso. 

A Justiça Eleitoral negou a prisão preventiva de Marco Bica por considerar que não há atos concretos que revelem atuação em prol da organização criminosa. Contudo, os autos revelam circunstâncias que justificam o aprofundamento das investigações sobre a relação dele com integrantes da GDE.

Após a operação, Marco Bica decidiu se afastar do comando da Sohidra para “preservar” a entidade e “garantir a tranquilidade das investigações”, enquanto os fatos são apurados. “Reitero que estou à disposição das autoridades para quaisquer esclarecimentos e confio que a Justiça será feita", comunicou pelas redes sociais.

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‘RELAÇÃO DE PROXIMIDADE’

De acordo com a investigação, o esquema em Morada Nova funcionava a partir de um “amplo e estruturado” sistema de lavagem de dinheiro de integrantes da GDE para o financiamento de campanhas eleitorais, com recursos do tráfico de drogas e armas, principalmente. A estrutura era dividida em três núcleos interligados: comando, financeiro-operacional e político.

Pela análise da 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza, os recursos passavam pela contabilidade da facção e eram aplicados em campanhas eleitorais, por meio de empréstimos e pagamentos em espécie. Por outro lado, o esquema exigia contrapartidas políticas e “proteção institucional”, com a nomeação de membros da GDE em cargos públicos.

No despacho que norteou a operação, a Justiça Eleitoral detalha o papel de cada investigado no suposto esquema. É nesse sentido que Marco Bica aparece como nome presente em diálogos interceptados envolvendo “integrantes centrais da organização criminosa”.

"Marquinho da Ana" chega a ser mencionado como possível beneficiário de apoio financeiro durante o período eleitoral. O documento destaca que ele foi candidato a prefeito de Morada Nova nas eleições de 2024, tendo obtido “expressiva votação (23.206 votos), embora não tenha sido eleito por margem reduzida”, ao perder a disputa para a atual prefeita Naiara Castro (PSB).

Segundo a apuração policial, Marco Bica manteve contato telefônico e teria visitado Francisco George Constantino de Oliveira no sistema prisional, em março de 2023. George é apontado como líder da GDE e, mesmo preso, seria o responsável pelo núcleo de comando do esquema criminoso, dando a palavra final sobre a destinação dos recursos ilícitos. 

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Além disso, o telefone de Marco Bica aparece de forma recorrente nas tabelas de contatos de diversos investigados, “o que evidencia relação próxima com o núcleo investigado”, conforme a investigação. 

O documento também cita que há referência a “gastos eleitorais elevados e à expectativa de retorno político”, ao pontuar elementos que podem indicar possível financiamento irregular de campanha com recursos de origem ilícita.

O despacho da 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza chega a citar, ainda, o episódio em que o então prefeito de Morada Nova, Wanderley Nogueira (PT), apostou três carros de luxo na vitória de Marquinho da Ana para a Prefeitura, algo que não se concretizou. “Tal fato não pode ser imputado ao investigado, devendo ser expressamente afastado como elemento indiciário em seu desfavor”, ponderou. 

“A análise dos elementos colhidos indica que Marco Antônio mantém relação de proximidade política e pessoal com integrantes da ORCRIM e pode ter sido beneficiário de apoio financeiro irregular em contexto eleitoral, circunstâncias que justificam a continuidade e o aprofundamento das investigações. Contudo, não se evidenciam, neste momento, atos concretos que revelem sua atuação em prol da organização criminosa, tampouco elementos que indiquem risco atual à ordem pública, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal”
Decisão da 93ª Zona Eleitoral de Fortaleza que negou prisão preventiva de Marco Bica

O PontoPoder acionou Marco Bica, via assessoria de imprensa, para um novo posicionamento da defesa diante dos apontamentos da investigação. No entanto, não houve retorno até a publicação da matéria. O espaço segue aberto para manifestação. 

REPERCUSSÃO NO MUNICÍPIO

Responsável pela derrota de Marco Bica, a atual prefeita de Morada Nova, Naiara Castro (PSB) se pronunciou sobre a “Operação Traditori” no município, via redes sociais, ao pedir “união” da população para “atravessar essa tempestade juntos”.

Segundo a gestora, o episódio trouxe “muitas preocupações, tristeza, muitas perguntas”, mas que não seria um “momento de desunião, de divisão, de apontar dedos, muito menos de transformar dor em disputa política”.

“Peço muito, de coração, a cada um: não vamos atacar ninguém. Não vamos, não precisamos, não podemos transformar esse momento em palanque político, em disputa política”
Naiara Castro
Prefeita de Morada Nova

A manifestação da prefeita ocorre após a prisão preventiva de cinco vereadores, incluindo um membro do secretariado de Naiara:

  1. Hilmar Sérgio (PT) - presidente da Câmara Municipal;
  2. Gleide Rabelo (PT) - secretária na Mesa Diretora da Câmara;
  3. Régis Rumão (PP) - vereador da Câmara Municipal;
  4. Júnior do Dedé (PSB) - vereador licenciado e secretário de Administração do município;
  5. Cláudio Maroca (PT) - vereador da Câmara Municipal.

Então secretário da Prefeitura, Júnior do Dedé deixou o cargo após a operação. Na última sexta-feira (13), o Executivo confirmou ao PontoPoder a exoneração do político.

Além disso, a 93ª Zona Eleitoral do Ceará também determinou o afastamento dos parlamentares investigados por 180 dias. Durante esse período, eles continuarão recebendo salários pela Câmara Municipal, conforme a decisão que autorizou o cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão.

Montagem com seis retratos de vereadores em ambientes institucionais. Três imagens na parte superior e três na inferior, mostrando políticos sorrindo ou falando em microfones em plenário, com trajes sociais e fundo de sala legislativa.
Legenda: Políticos da cidade alvo de mandados, da esquerda para a direita e de cima para baixo: Hilmar Sérgio, Gleide Rabelo, Régis Rumão, Júnior do Dedé, Cláudio Maroca e Marco Bica.
Foto: Reprodução/Redes sociais.

O QUE DIZEM OS INVESTIGADOS

Em nota, a defesa do vereador Hilmar Sérgio diz aguardar acesso aos autos para ter conhecimento da acusação e espera provar sua inocência. “Hilmar Sérgio é servidor público concursado, vereador de oito mandatos consecutivos, e afirma não ter qualquer relação com o crime organizado. A ação judicial tomou-o de surpresa e ele se encontra pronto para colaborar com a justiça”, manifestou. 

Já a vereadora Gleide Rabelo afirmou “total inocência” e compromisso em colaborar para a elucidação dos fatos, por meio de nota da defesa. “Gleide Rabelo é servidora pública concursada, vereadora de dois mandatos, com atuação destacada na comunidade. Nunca foi presa ou processada por qualquer fato”, pontuou. 

O PontoPoder não conseguiu localizar a defesa dos demais suspeitos de envolvimento no esquema criminoso, mas o espaço segue aberto para manifestação. Em paralelo, os partidos dos investigados também foram procurados.

O PT Ceará informou, por meio de sua secretaria de comunicação, que ainda não teve acesso ao processo e não foi notificado oficialmente até o momento.

Por meio de nota, nessa sexta-feira (13), a direção do PSB Ceará disse que "tomou conhecimento desses fatos, envolvendo filiados do partido em possíveis práticas delituosas", na quinta-feira, por meio da imprensa.

Apesar disso, segundo o órgão partidário, no que compete a ele, "cabe comunicar ao Diretório municipal tais fatos e solicitar as providências para que adote os procedimentos visando a apuração de possível infração ética do filiado, já que a competência para instauração de eventual processo, é da comissão de ética municipal, na forma prevista no Estatuto e Código de Ética do PSB". 

"Nos casos de vereador e prefeito e/ou outros cargos no âmbito municipal é o diretório municipal que requer junto ao Conselho de Ética a devida instauração de processo. O diretório estadual acompanha e pode ser acionado pelas partes após correr o processo na esfera municipal do partido", apontou outro trecho. 

"O Ministério Público, as Forças de Segurança e Criminal e o Poder Judiciário têm as suas devidas responsabilidades constitucionais. Ao partido, cabe apurar a conduta dos seus filiados levando em conta os fatos apurados, as decisões judiciais, a infidelidade e os atos que atingem a imagem da instituição partidária. Mas no caso do partido não se trata de condenar ninguém, quem condena a absorve é a Justiça", continuou.

De acordo com o comunicado, são cabíveis ao partido a aplicação de procedimentos disciplinares, como a expulsão, suspensão ou advertência dos filiados. "O partido respeita todas as decisões judiciais e se coloca sempre à disposição", completou o PSB Ceará.

Por sua vez, o PP não se pronunciou. A reportagem será atualizada em caso de retorno.

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