Legislativo Judiciário Executivo

Vereador de Morada Nova vai para prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica; entenda

Júnior do Dedé foi beneficiado por prerrogativas do Estatuto do Advogado.

Escrito por
Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
Homem adulto com barba e cabelo escuro fala ao microfone em um evento noturno, usando camisa verde clara e olhando para o lado enquanto discursa.
Legenda: Defesa do vereador Júnior do Dedé alegou "constrangimento ilegal".
Foto: Instagram/@juniordodededogildo.

Preso preventivamente na última quinta-feira (12), o vereador e ex-secretário de Administração de Morada Nova, Júnior do Dedé (PSB), deixou a Delegacia de Capturas e Polinter (DECAP) e foi para a prisão domiciliar. A conversão de regime consta em decisão publicada no Diário Oficial da Justiça Eleitoral nesta segunda-feira (16), que também determinou o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica.

Júnior do Dedé é suspeito de financiar a campanha eleitoral dele, em 2024, com recursos oriundos da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE). Ele e outros quatro vereadores foram alvos da Operação Traditori, deflagrada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO/CE). 

O desembargador eleitoral Leonardo Roberto Oliveira de Vasconcelos concedeu a liminar porque o político também é advogado regularmente inscrito na OAB, e tem o direito de ser recolhido, antes do trânsito em julgado, em Sala de Estado-Maior. Na sua ausência, como é o caso, a alternativa é a prisão domiciliar, conforme estabelece o Estatuto da Advocacia.

Na Decap, local em que estava preso desde a semana passada, não há instalações exigidas pelo Estatuto. Esta é uma carência de todo o sistema prisional do Ceará, apontou a defesa do vereador, alegando "constrangimento ilegal".

Veja também

Agora, o acusado somente poderá se ausentar de sua residência com autorização judicial ou em caso de urgência ou emergência médica. Com monitoramento eletrônico, ele também é proibido de manter contato com qualquer pessoa ligada ao processo, testemunhas ou envolvidos nos fatos apurados. 

A violação de qualquer uma dessas medidas poderá levar à revogação do benefício e à decretação de uma nova prisão preventiva. O PontoPoder buscou o vereador Júnior do Dedé, por meio da sua assessoria de imprensa, para pronunciamentos acerca do andamento do processo, e aguarda retorno.

Como Júnior do Dedé é citado na investigação?

Os cinco parlamentares presos na última quinta-feira são suspeitos de receber dinheiro da facção criminosa para o financiamento das suas campanhas nas eleições de 2024, com promessas de ajuda na estratégia de infiltração do grupo na política do município. No mesmo processo, um 6° vereador também é investigado, mas não chegou a ser preso.

Veja também

O esquema funcionava por meio do diálogo entre três núcleos da facção criminosa: o de comando, o financeiro-operacional e o político, este composto por vereadores do município. São eles:

  • Hilmar Sérgio (PT) - presidente da Câmara Municipal;
  • Gleide Rabelo (PT) - secretária na Mesa Diretora da Câmara;
  • Régis Rumão (PP) - vereador da Câmara Municipal;
  • Júnior do Dedé (PSB) - vereador licenciado e secretário de Administração do município;
  • Cláudio Maroca (PT) - vereador da Câmara Municipal.

Os parlamentares também foram afastados do mandato por 180 dias e tiveram seus ativos bloqueados e bens sequestrados pela Justiça.

Segundo relatório da 93ª Zona Eleitoral, de onde foram expedidos os mandados, o vereador do PSB é o agente político que mais movimentou dinheiro no contexto das eleições. Foram colhidos diálogos diretos entre ele e um homem apontado como operador financeiro da GDE acerca da disponibilização de aproximadamente R$ 400 mil para uso eleitoral, com pagamento de juros, em pleno período de campanha.

O investigado é sócio da empresa Fazenda Riacho Seco Ltda., que mantém movimentações financeiras com contas vinculadas a Saul. Interceptações telefônicas e diálogos extraídos do aparelho de Saul indicam, ainda, que a facção, por intermédio de Georde, passou a cobrar valores relativos ao financiamento da campanha de Júnior, fato reiterado em autos circunstanciados da investigação.
Juiz Adriano Ribeiro Furtado Barbosa
Relatório da 93ª Zona Eleitoral

Em 30 de janeiro de 2025, foi feito um pagamento de R$ 15 mil a Saul pela conta de uma terceira pessoa, evidenciando o objetivo de ocultação da origem dos recursos, ainda conforme a decisão. Essa conta intermediária, aponta a investigação, movimentou mais de R$ 3,3 milhões em curto período, "com intenso fracionamento e trânsito de valores envolvendo servidores públicos e pessoas sem vínculo econômico aparente, padrão típico de contas de passagem".

Júnior do Dedé já estava afastado da função legislativa devido ao seu cargo na Secretaria de Administração do município. Após a operação, ele foi exonerado pela Prefeitura de Morada Nova.

Este conteúdo é útil para você?
Assuntos Relacionados