"Jamais tentei matar, a acusação foi um erro", disse Ronivaldo Maia de volta à Câmara

Após um tempo licenciado das atividades parlamentares, petista reassumiu seu posto nesta quinta-feira (28)

Escrito por Luana Severo, Felipe Azevedo, Luana Barros,

PontoPoder
Ronivaldo Maia na tribuna da Câmara Municipal de Fortaleza.
Legenda: Ronivaldo Maia reassumiu nesta quinta-feira (28) seu posto na Câmara Municipal, após quatro meses licenciado e um período afastado por atestado médico.
Foto: Érika Fonseca/Câmara Municipal de Fortaleza

O vereador Ronivaldo Maia (PT), investigado por tentativa de feminicídio, reassumiu seu posto na Câmara Municipal de Fortaleza na manhã desta quinta-feira (28). Na tribuna, o parlamentar pediu desculpas às mulheres e afirmou que jamais quis matar a mulher de 36 anos com quem supostamente teria um caso extraconjugal e sobre a qual teria tentado avançar um carro após uma briga.

"Infelizmente, num momento de discussão no qual os ânimos se acirraram, dei partida no veículo, acabando por atingir inevitavelmente [a mulher]. Eu não a atropelei e não a arrastei de modo como foi noticiado. Trata-se de um acidente lamentável", discursou o vereador.

Ronivaldo disse ainda que tem a "consciência tranquila" e reforçou que não tentou matar a mulher, uma vez que não a teria visto com a mão presa ao limpador do veículo. Além disso, se mostrou convicto de que o processo judicial que ainda corre contra ele deve confirmar sua versão dos fatos.

Estou certo que o desenrolar do processo judicial confirmará que não pratiquei tentativa de feminicídio. Dizer o mais ou o menos que isso é faltar com a verdade. Não me eximo das minhas responsabilidades, na exata medida delas". 
Ronivaldo Maia (PT)
Vereador de Fortaleza

Veja vídeo do discurso de Ronivaldo

Socorro à vítima


O vereador aproveitou a fala para reforçar que, assim que percebeu o que fez, voltou à casa da vítima se oferecer para levá-la ao hospital. "Jamais a deixaria sem assistência".

Ele se ancorou ainda em sua formação educacional nas Comunidades Eclesiais de Base para dizer que "perdoar tem a ver com o processo de reconstrução" e para, novamente, pedir desculpas públicas. "Continuarei na luta contra toda forma de opressão, violência e discriminação. Tenho certeza e a consciência tranquila de que não sou um agressor, não é isso que me define".

Reação


"O discurso do vereador não se distancia em nenhum grau das desculpas dos agressores de mulheres", rebateu a vereadora Adriana Gerônimo, da mandato coletivo Nossa Cara (Psol). Ela lamentou o retorno de Ronivaldo à Câmara e a decisão da Casa de não cogitar a cassação do mandato do parlamentar por transgressão ao Código de Ética e Decoro.

Para a vereadora, o tratamento dado a Ronivaldo neste caso é "mais privilegiado" do que o dado ao restante da população em situações até mesmo "menos graves". "Acredito que hoje é um dia de se envergonhar, um dia lamentável para a Câmara e, sobretudo, para as mulheres fortalezenses", concluiu a parlamentar.

"Compartilho a frustração, não consigo sentir tanto como ela [Adriana] sente, por ser mulher, por estar dedicada a essa causa há muitos anos e por ter coragem, firmeza, de subir aqui e falar o que ela falou (...) Compartilho a frustração com o pedido que foi protocolado aqui, de cassação ser arquivada de um dia para o outro, deixando esse silêncio constrangedor", apoiou Gabriel Aguiar (Psol), que compõe a bancada do Psol na Câmara com o mandato Nossa Cara.

Pedido de cassação


Em fevereiro, devido às investigações enfrentadas por Ronivaldo, a bancada do Psol na Câmara entrou com pedido de cassação contra o parlamentar por infração ao Código de Ética e Decoro da Casa. No entanto, o processo foi arquivado no início deste mês pelo Conselho de Ética e Decoro, que só teve um voto contrário — o da vereadora Cláudia Gomes (PSDB), a única mulher que compõe o colegiado. 

Após o arquivamento, a bancada do Psol tentou reagir e angariar assinaturas para interpor recurso contra a decisão do Conselho. Porém, até a última quarta-feira (27), dia em que se encerrou o prazo para a ação, só haviam quatro assinaturas coletadas. Eram necessárias nove para reativar o caso na Câmara.

O Diário do Nordeste apurou que, antes de decidir voltar ao parlamento, Ronivaldo articulou com os colegas para não assinarem ou não apoiarem de nenhuma forma a petição.

Logo após o arquivamento pelo Conselho de Ética, o vereador disse "reconhecer e aceitar" a decisão do colegiado e ressaltou que "não abusou de prerrogativas asseguradas como vereador nem se valeu do mandato para praticar qualquer conduta em nome do Poder Legislativo Municipal para buscar vantagens ilícitas ou imorais".

O crime


Detido em flagrante no dia 29 de novembro do ano passado, o vereador Ronivaldo Maia continuou preso por dois meses. A Justiça concedeu habeas corpus ao parlamentar em fevereiro deste ano. Ele continua a cumprir as medidas cautelares determinadas pela Justiça, como o monitoramento por tornozeleira eletrônica e o recolhimento domiciliar noturno.