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Desistências, desfiliações e novos cargos: os desafios dos partidos para montar chapas para a Câmara

Mudanças durante e depois da janela partidária reorganizaram as bancadas e devem ter impacto na disputa por cadeiras na Câmara dos Deputados.

Escrito por
Luana Barros luana.barros@svm.com.br
Vista ampla do plenário de uma casa legislativa, com fileiras curvas de assentos quase vazios, poucos parlamentares e assessores dispersos, e painel eletrônico com votações ao fundo.
Legenda: Votação para a Câmara dos Deputados é base para cálculo dos recursos recebidos pelos partidos nos próximos quatro anos.
Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados.

"Uma grande reorganização das legendas". É assim que resume a socióloga e pesquisadora do Laboratório de Estudos de Política, Eleições e Mídia (LEPEM/UFC), Paula Vieira, ao falar sobre o período recém finalizado de janela partidária, quando mais de 30% dos deputados federais cearenses trocaram de sigla para as eleições de 2026 — incluindo o quase esvaziamento de bancadas, a desfiliação de nomes históricos do partido e o reaparecimento de siglas na bancada cearense. 

Os anúncios foram feitos até o instante final do dia 3 de abril, feriado de Sexta-Feira da Paixão e último dia do prazo, e envolveram não apenas as trocas de partidos de quem já ocupa uma cadeira na Câmara dos Deputados, mas também as filiações daqueles que são cotados para disputar uma vaga. Paula Vieira destaca, no entanto, que apesar de não haver mais possibilidade de troca de partidos pelos pretensos pré-candidatos à Câmara Federal, "agora é que os partidos estão começando a entender quem vai para onde". 

Afinal, os movimentos com impacto sobre essa disputa não finalizaram com a janela partidária, com a desistência do deputado federal José Guimarães (PT) de disputar a reeleição para o cargo — ou qualquer outro mandato eletivo — ao aceitar assumir a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. Segundo as regras eleitorais, os futuros candidatos teriam que ter se desincompatibilizado do Executivo até 4 de abril. 

Essa indefinição sobre quem estará na lista de cada partido para a disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados pode ser explicada por diversos fatores. 

O primeiro deles, explica Monalisa Torres, professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), são as regras eleitorais que tornaram o cálculo dos partidos para as eleições proporcionais mais difíceis, principalmente para deputado federal. Principalmente, em um cenário em que a disputa eleitoral para a Câmara dos Deputados é usada como critério para distribuição de recursos públicos para os partidos. 

"Antes tinha coligação, os partidos se coligavam e aumentavam a possibilidade de, pelo coeficiente eleitoral, ter gente na sua bancada. Agora, os partidos têm que lançar listas isolados. (...) Então, as possibilidades vão se reduzindo e o cálculo precisa ser feito cada vez mais na ponta do lápis, porque, ao fim e ao cabo, um partido não consegue eleger uma bancada só com um deputado".
Monalisa Torres
Professora de Teoria Política da Uece

Há também a influência de outros elementos, como a indefinição sobre as pré-candidaturas do Senado, em que deputados federais são cotados e podem, portanto, ficar de fora das chapas para a Câmara dos Deputados; a perda de nomes importantes e a necessidade de lançar uma chapa com 'novatos' na disputa; ou a chegada de pré-candidatos com votação consolidada, o que pode fortalecer o partido. 

"Agora, nesse momento, é que a gente vai começar a entender melhor os movimentos para o Legislativo, que vão se consolidar e que a gente vai ver quem é que de fato vai se tornar pré-candidato para então se tornar candidato", projeta Paula Vieira.

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'Novatos' na disputa pela Câmara dos Deputados

Partido com maior número de deputados federais eleitos em 2022, o enfraquecimento do PDT para as eleições de 2024 foi citado pelas entrevistadas ao PontoPoder

"O que eu pude notar foi um enfraquecimento muito grande do PDT, com a saída de alguns parlamentares que migraram para outros partidos", ressaltou a cientista política Cleris Albuquerque.

Dos cinco eleitos, apenas André Figueiredo (PDT) permaneceu no partido. "O PDT sofre um baque absurdo nos seus quadros, e tem uma preocupação de encontrar nomes que que sigam como esses puxadores de voto. Eu acho que só o André Figueiredo não vai dar conta", acrescenta Monalisa Torres. 

Ela considera que um caso semelhante ocorre no PT, que não contará com as pré-candidaturas à reeleição de dois dos três deputados federais que formam a atual bancada petista do Ceará: Luizianne Lins, que se filiou à Rede Sustentabilidade, e José Guimarães, que assumiu cargo no governo federal. O que “deixa o PT, de um certo modo, órfão”, pontua a cientista política Cleris Albuquerque.

"A principal preocupação agora é encontrar esses nomes competitivos, que tenham essa capilaridade, que consigam agregar ao somatório geral do partido para que o partido consiga manter uma base interessante (na Câmara)", adiciona Torres.  

Ao falar sobre a chapa petista que irá disputar a Câmara dos Deputados, o governador Elmano de Freitas (PT) chegou a reforçar que este é um momento de "renovação de quadros". Ele citou como exemplo de quem vai estar na chapa a vice-governadora Jade Romero (PT), o deputado estadual licenciado Fernando Santana (PT) e a ex-secretária estadual de Cultura, Luísa Cela (PT). Essa será a primeira vez que eles concorrem ao cargo. 

"É um risco, ainda que eles tenham ali tentado suprimir de alguma forma essa lacuna", pontua Torres. Ela cita, por exemplo, que a chegada de Jade Romero no PT – que antes tinha anunciado filiação à federação União Progressistas – como uma "tentativa de suprir essas lacunas, de tentar recuperar esses votos que vão migrando junto com os parlamentares para outras legendas", como é o caso de Luizianne Lins. 

Apesar disso, o PT deve contar com alguns 'veteranos' na federação que forma com PV e PCdoB, já que o deputado federal Eduardo Bismarck se filiou ao Partido Verde, após saída do PDT, e deve concorrer à reeleição, integrando a chapa com os pré-candidatos petistas. 

Fortalecimento das bancadas

Dos quatro deputados federais que deixaram o PDT, dois deles se filiaram ao PSB: Idilvan Alencar e Robério Monteiro. O partido, liderado por Cid Gomes (PSB), também filiou outros nomes de peso, além de ter sido, em 2024, a sigla com maior número de prefeitos eleitos — "e a tendência é que essas prefeituras incentivem voto em candidatos do PSB também", diz Vieira. 

Por esses fatores, a aposta de Paula Vieira é a de que o partido deve ser um dos mais fortes na disputa por vagas na Câmara dos Deputados no Ceará. 

"Eu não sei se do mesmo tamanho (do PDT em 2022), mas ele vai figurar ali entre os mais expressivos do estado", concorda Torres. Para a professora, o tamanho dos partidos na bancada federal do Ceará deve ter um "equilíbrio maior" em comparação às últimas eleições para o cargo.

Se o PSB tem destaque do lado governista, Paula Vieira projeta um "crescimento muito grande do PL", do lado da oposição, e também no União Progressistas — dividido entre opositores e governistas no Ceará. "O PL e o União Brasil estão atraindo muitas candidaturas para a sua legenda", disse. 

A divisão interna da federação, apesar de dificultar os arranjos para a disputa majoritária, não devem ter um impacto ruim nas eleições proporcionais. "No legislativo, todos eles vão se beneficiar, é um jogo de ganha-ganha", pontua Torres. 

"A federação tem as benesses, os benefícios oriundos de ser um megabloco, com a questão do Fundo Eleitoral, muito dinheiro, que corresponde também a muito tempo de rádio e TV e isso pode ser um ativo importante, tanto na questão de apresentar novos nomes, novos candidatos e também de fortalecer nomes já conhecidos do eleitorado".
Cleris Albuquerque
Cientista política

Ainda sem ter definido o apoio para o Governo do Ceará, depois da suspensão da articulação com o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), o PL não filiou deputados federais cearenses já eleitos, mantendo a mesma bancada eleita em 2022. 

No entanto, o partido recebeu reforços para a chapa de parlamentares de outras casas legislativas, como Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) e Câmara Municipal de Fortaleza. "O PL tem chance de aumentar sua bancada", concorda Monalisa Torres. 

Mas para saber exatamente quem deve formar a lista de pré-candidaturas à Câmara dos Deputados pelo partido ainda será preciso esperar outras definições, como a de quem irá disputar o Senado. Tratado como "pré-candidato único" pela maioria do PL Ceará, o deputado Alcides Fernandes (PL) disputa com a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL), que teve a pré-candidatura lançada pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.  

Impacto da disputa pelo Senado

O PL não é o único partido em que a decisão sobre as pré-candidaturas ao Senado podem fazer diferença na montagem da chapa para a Câmara Federal. Três deputados federais cearenses são pré-candidatos a senador: Luizianne Lins, Eunício Oliveira (MDB) e Júnior Mano (PSB). 

"Ocorreu uma maior definição com a saída do Guimarães do circuito de possíveis candidatos para vaga, mas esses outros nomes que podem entrar no circuito", afirma Cleris Albuquerque. 

Com apenas duas vagas na chapa de Elmano de Freitas, e outros pré-candidatos cotados, como Cid Gomes e Chiquinho Feitosa (Republicanos), nem todos irão conseguir disputar o Senado. 

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Ainda assim, o partido que 'perder' um pré-candidato à reeleição a deputado federal terá que fazer ajustes na própria chapa — o que, talvez, já esteja colocado nos cálculos das siglas. "Tudo é estratégia do que que o partido vai priorizar", diz Monalisa Torres. "De uma forma ou de outra, não custa observar, todos os nomes que estão sendo sondados, todos eles são muito competitivos". 

A única pré-candidatura que tem sido apontada como possibilidade de sair avulsa, ou seja, sem estar dentro da chapa de um dos pré-candidatos ao Governo do Ceará, é de Luizianne Lins, lançada ainda no PT como possível concorrente ao Senado. 

Agora, como filiada à Rede Sustentabilidade, ainda não se sabe qual deve ser o caminho escolhido pela deputada federal. E, vale ressaltar, a Rede está federada com o Psol, que tem o deputado estadual Renato Roseno (Psol) como pré-candidato a deputado federal. 

"Qual seria o cálculo aqui? Ou a Luizianne sai para federal e garante o mandato, mas ela vai disputar com o Renato, e não sei do potencial de duas cadeiras para a federação. Pode ser que eles queiram arriscar. (...) E temos também a expectativa da Luizianne para o Senado e assim ser uma cabeça de chapa puxando a votação para o Renato. Então a gente tem esses cenários possíveis".
Monalisa Torres
Professora de Teoria Política da Uece

Força e desafio de Ciro Gomes

O PSDB, agora liderado por Ciro Gomes, é outro partido que pode vir a conquistar espaço na bancada cearense da Câmara dos Deputados. "O PSDB agora está querendo uma recuperação, com Ciro sendo a grande liderança", pontua Paula Vieira.

O foco da sigla tem sido a disputa por cadeiras na Assembleia Legislativa, com uma migração de deputados estaduais da oposição para o ninho tucano. Contudo, isso também pode fazer com que haja uma volta do partido à bancada do Ceará na Câmara dos Deputados. 

No entanto, ele precisará ter "um grande trabalho de costura nos municípios cearenses para fazer com que sejam eleito esses possíveis deputados estaduais e federais", considera a pesquisadora. Isso porque, continua ela, a oposição costuma ter dificuldade de atrair alianças nos diferentes territórios do estado. 

E, muitas vezes, para garantir o voto na chapa majoritária, precisam "liberar os territórios para votar nos seus deputados do jeito que quiserem". "O Ciro e o PSDB vão ter essa dificuldade. (...) Como vai ser construída essa candidatura no território é que vai ser a grande questão", diz. 

"O Ciro Gomes é um capital político muito grande. (...) Quando temos lideranças tão competitivas como o nome do Ciro Gomes, que, ao mesmo tempo, está voltando e fazendo ressurgir a legenda do PSDB. Então, tem um impacto direto na legenda, porque a gente pode ver uma ampliação dessa bancada, tanto em termos nacionais como em termos estaduais", diz Vieira

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