Como os pré-candidatos da terceira via tentam se sobressair na disputa pelas redes sociais

Nomes como Ciro Gomes, Sérgio Moro e João Dória tentam acertar estratégia para ganhar público e se desvincular de Lula e Bolsonaro

Da esquerda para a direita: Ciro Gomes (PDT), Sérgio Moro (Podemos) e João Dória (PSDB).
Legenda: Na mais recente pesquisa de opinião divulgada pelo Instituto de Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec), antigo Ibope, o ex-juiz Sérgio Moro (Podemos) aparece com 6% das intenções de voto, seguido de Ciro Gomes (PDT), com 5%, e João Dória (PSDB), com 3%.
Foto: Divulgação/Agência Brasil/Divulgação

Sérgio Moro, trecho de uma entrevista do cientista político conservador Francis Frukuyama ao jornal O Globo, criticando a polarização Lula e Bolsonaro em 2022. Ciro Gomes, retrospectiva dos episódios de seu podcast, o #CiroGames. João Dória, prestação de contas das ações governamentais de despoluição do rio Pinheiros, um dos principais cursos d'água da capital paulista.

Essas eram, até o fim da manhã da segunda-feira (3), primeiro dia útil do ano, as postagens mais recentes no Instagram dos pré-candidatos à presidência da República pelos partidos Podemos, PDT e PSDB, respectivamente.  

Os três, Moro, Ciro e Dória, despontaram nas últimas pesquisas de opinião como os pré-candidatos que estão mais à frente na corrida para representar uma possível terceira via — diferente do ex-presidente Lula (PT) ou do atual presidente Jair Bolsonaro (PL) — nas eleições de 2022.

Posicionamento 


Parecem simples, rotineiras, mas as postagens citadas acima indicam como estão posicionados os pré-candidatos no meio digital atualmente e quais serão algumas das armas que eles pretendem usar — a preço de hoje, pelo menos — no combate pela Presidência.  

Num contexto permanente de ameaça à democracia, Ciro destaca os ataques de Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF) e mostra ao público que o segue as principais personalidades que já participaram de seu podcast, como o padre Júlio Lancelotti, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o jornalista Glenn Greenwald, o ator Pedro Cardoso e a cantora Alcione, dentre outros.

Dória, por sua vez, enquanto governador de São Paulo, ressalta ações de proteção e requalificação ambiental impulsionadas por sua gestão, como a limpeza do rio Pinheiros e a conexão de 487,3 mil domicílios à rede de tratamento de esgoto.

Já Moro recorre a uma entrevista concedida a um jornal brasileiro por um acadêmico nipo-estadunidense conservador para atacar os principais polos da disputa em 2022 — Lula e Bolsonaro — e dizer aos seus seguidores que propõe "modernizar o Brasil e fortalecer a democracia com liberalismo e inclusão, assim como repudiar o irracionalismo e patrimonialismo bolsonaristas e o modelo de corrupção lulista".

Entender demandas 


Para os especialistas consultados pelo Diário do Nordeste, se quiserem concorrer à vaga de terceira via e furar a polarização Lula e Bolsonaro no próximo ano, os pré-candidatos à presidência precisam descobrir quais são as demandas mais urgentes da população, entender o contexto pelo qual ela está passando e comunicar mensagens simples, diretas, que abordem muito mais do que somente o antipetismo e o antibolsonarismo. 

“A rede social é um complemento, uma ferramenta. Ela, sozinha, ao contrário do que foi o ‘fenômeno Bolsonaro’ em 2018, não vai alavancar a vida de nenhum (pré-candidato). E não foi que a rede social foi importante [em 2018], foi posicionamento. É a mensagem, não o meio. Rede social é um meio de comunicação. A mensagem que você passa é mais importante”, defende o consultor político Leurinbergue Lima. 

Para Ana Clara Dias, jornalista especialista em marketing político digital, Moro, Dória e Ciro já vêm mudando o tom nas redes sociais desde antes de se firmarem pré-candidatos. “Como o discurso vai caminhar (daqui para a frente) vai ser de acordo com o cenário e o contexto político. Hoje, não adianta mais só falar mal de Bolsonaro e de Lula, é preciso algo a mais”, defende a especialista.  

Ela exemplifica: “A gente passou por um contexto de compra de vacina e vacinação (contra a Covid-19). Nesse ano (de 2022) vai vir um novo contexto. Dependendo desse contexto é que as pessoas vão conseguir se posicionar. E dependendo desse posicionamento é que elas vão conseguir aglutinar [votos] ou não”, compreende.

Para a especialista, aliás, a pandemia e os temas subsequentes a ela, como inflação, desemprego e avanço da pobreza e da fome no País devem ser as pautas centrais do debate político.

O desafio da terceira via


Hoje, de acordo com os especialistas, as chances de uma terceira via no páreo pela presidência ainda são remotas. Isso porque, além de encontrar a mensagem certa e saber aproveitar o contexto socioeconômico e político para transmitir essa mensagem, e não apenas nas redes sociais, o pré-candidato que quiser ser mais forte do que Lula ou Bolsonaro deve unir forças políticas. E, por ora, o cenário está bastante pulverizado.

Além de Moro, Ciro e Dória, outros muitos nomes são ventilados como postulantes à presidência, como, por exemplo, o presidente do Senado Federal, o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a senadora Simone Tebet (MDB-MS), o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e o cientista político Felipe D'Ávila (Novo).

Até o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta (União Brasil), que havia renunciado à pré-candidatura, voltou a cogitar, conforme disse recentemente ao programa 'Ponto a Ponto', do canal BandNews TV.

"O mundo ideal para uma possível terceira via é que não tivessem tantos pré-candidatos. A gente tem possibilidade de ter oito a nove. Talvez isso vá facilitar ainda mais uma possível polarização 'Lula vs. Bolsonaro'. Cada (pré-)candidato é mais uma fragmentação, menos tempo de televisão para terceira via. A preço de hoje é difícil surgir um outro nome que já não esteja colocado no campo", acredita Bergue.

Ana Clara reforça ainda que "a era do conteúdo já passou". "Bolsonaro soube aproveitar muito bem. Produzir excelentes conteúdos, excelentes mensagens, eficazes, eficientes, para atingir aquilo que queria. Agora, a gente está numa era de contexto", reforça a especialista.

Mensagem


Para Leurinbergue, diferentemente dos outros pré-candidatos que intentam ser terceira via, Moro, Ciro e Dória têm uma presença digital bem consolidada porque têm vida pública consolidada, o que é mais importante.

Em suas contas no Twitter — Moro tem 3,3 milhões de seguidores, Ciro tem 1,3 milhão e Dória tem 1,5 milhão —, os pré-candidatos têm se posicionado diante de diferentes eventos.

Ciro, por exemplo, ao passo que bate diretamente em Bolsonaro pela insustentabilidade do modelo econômico vigente e por recusar a ajuda da Argentina às vítimas dos desastres ambientais na Bahia, se coloca como o único capaz de renovar o projeto nacional de desenvolvimento.

Dória presta contas de sua gestão, destacando isenção de impostos, aumento da rede pública de ensino integral, concessão de parques ecológicos à iniciativa privada e vacinação infantil contra a Covid-19.

Já Moro critica e elogia a imprensa, dependendo de como ela o retrata, e destaca sua agenda anticorrupção. Recentemente, ele também publicou um trecho do livro 'Dom Quixote', de Miguel de Cervantes, que diz que "em breve o tempo se acalmará; porque não é possível que o bem e o mal durem para sempre".

Mas, para Leurinbergue Lima, consultor político, nenhum dos três soube ainda transmitir a mensagem correta para o eleitorado. "E foi o que fez o Bolsonaro crescer (em 2018). Ele ocupou um espaço, passou uma mensagem importante e as pessoas compraram a ideia. É isso o que falta pra essa terceira via. Nenhum desses três, até agora, achou uma mensagem que convencesse, que tocasse o coração das pessoas", afirmou.

De acordo com pesquisas de opinião recentes divulgadas pelo Ipec, cerca de 40% do eleitorado queria uma opção diferente de Lula ou Bolsonaro nas eleições de 2022, mas ainda não encontrou nenhuma. "Tanto que Lula cada vez mais se consolida", opina o especialista.

Marketing político digital


"Investir na comunicação digital é fundamental e imprescindível. A última pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostrou que mais de 80% dos domicílios brasileiros estão conectados à Internet de alguma forma. É um percentual muito grande pra eu, como político, ignorar redes sociais. Agora, não basta só usar e estar nas redes, é preciso entender a ferramenta, entender o público, entender a mensagem que quero passar", ressalta Ana Clara.

A especialista em marketing político destaca ainda que quanto mais os pré-candidatos souberem ampliar sua presença digital e aproveitar oportunidades de conteúdo e de contexto, melhor devem se sair nas redes sociais.

Afastar de antigas alianças


Um posicionamento franco e acertado é importante, também, para afastar a terceira via de vínculos com os lados mais polarizados da disputa. Moro, Ciro e Dória, por exemplo, têm ainda suas imagens fortemente atreladas a Lula e Bolsonaro, o que pode confundir e desestimular o eleitorado.

Por mais que hoje estejam batendo no presidente, Moro já foi ministro da Justiça de Bolsonaro e Dória se elegeu governador de São Paulo com a dobradinha 'BolsoDória'. Ciro, por sua vez, já foi ministro da Integração Nacional de Lula e ministro da Fazenda de Dilma Rousseff (PT). 

"Em tese, o Dória e o Moro querem entrar no espaço do Bolsonaro. E, em tese, o Ciro quer entrar também no espaço do Bolsonaro, mas tirando voto do Lula. É uma equação muito complicada", conclui o consultor político Leurinbergue Lima. 


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