Cinco pontos para entender a crise do PDT na Câmara Municipal de Fortaleza
PontoPoder enumera as questões-chave da instabilidade vivida pelos pedetistas no Ceará e os reflexos no Legislativo alencarino.
Envolto numa crise interna que se arrasta desde 2022, o Partido Democrático Trabalhista (PDT) agora enfrenta dificuldades para estruturar chapas e concorrer ao pleito deste ano. A situação tem contornos que afetam o rol de representantes da sigla na Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor).
A lista de reveses nos últimos quatro anos inclui uma divisão de alas entre os que defendiam o apoio ao projeto governista que passou a ser encabeçado pelo então candidato Palácio da Abolição, Elmano de Freitas (PT), e os que sustentavam uma incursão própria liderada pelo ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (atualmente no União Brasil).
Em sequência, ocorreram disputas judiciais por mandatos de parlamentares eleitos pelo PDT e que depois manifestaram o desejo de sair da legenda, o êxodo de dezenas de prefeitos do interior e de lideranças como o ex-ministro Ciro Gomes (hoje no PSDB), a ex-governadora Izolda Cela e o senador Cid Gomes (que migraram para o PSB).
Os acontecimentos mais recentes incluem a desfiliação, sem comunicação ao diretório, do vereador de Fortaleza Gardel Rolim (que foi para o PRD), a sinalização de membros da bancada federal de que não continuarão nas fileiras trabalhistas e o esvaziamento da representação do PDT na Assembleia Legislativa.
Nesta matéria, o PontoPoder enumera os principais pontos da instabilidade vivida pelo agrupamento pedetista no Ceará e os reflexos dela na conjuntura do Legislativo alencarino.
Impasse nas eleições de 2024
Em 2024, o PDT lançou um nome próprio à Prefeitura de Fortaleza. O escolhido para a missão foi o então prefeito José Sarto, que apesar de considerado como "candidato natural" ao pleito, só teve a participação confirmada em julho daquele ano. Antes, a candidatura era considerada como uma incógnita.
No período pré-eleitoral, Sarto enfrentou o descrédito de lideranças como Cid Gomes (à época no PDT), que insinuou por repetidas vezes que o chefe do Executivo municipal poderia ser substituído pelo ex-prefeito Roberto Cláudio, e uma nova correlação de forças políticas pós rompimento com o PT.
Fato é que, no primeiro turno da eleição de 2024, Sarto foi derrotado e se tornou o primeiro gestor da capital cearense a não ser reeleito desde a disputa eleitoral de 2000, quando a Justiça Eleitoral passou a permitir a recondução de mandatários no Executivo municipal.
O então deputado estadual Evandro Leitão (PT) e o deputado federal André Fernandes (PL) avançaram para o 2º turno, atraindo cada um para si uma parte dos vereadores do PDT, que estava "neutro" naquele momento.
O então presidente nacional interino do PDT, o deputado André Figueiredo, havia declarado neutralidade no segundo turno da disputa, mas dias depois declarou apoio pessoal ao candidato do PT. Sarto também se declarou neutro na segunda etapa da eleição municipal e, no dia da votação, reforçou a posição.
No dia do resultado da eleição, no comitê central do petista, André Figueiredo — ainda na condição de dirigente nacional — declarou que iria trabalhar para a sua legenda estar na base do governo do prefeito eleito naquela data. A partir dali, o PDT passou a ensaiar uma reaproximação do PT.
Expulsão do PP Cell
A virada do ano trouxe uma discussão iminente para os parlamentares pedetistas na Câmara de Fortaleza: o ingresso na base de Evandro Leitão. A conversão de nomes para o grupo governista se deu durante os primeiros meses de 2025. E, em março, houve uma investida para que Jânio Henrique também fizesse parte da base.
Com a adesão de Jânio ao governo — apoiada por André Figueiredo, que voltou a ser o presidente estadual —, sete dos oito vereadores do PDT passaram a apoiar Evandro Leitão. A exceção se deu apenas com PP Cell, que se aliou ao grupo de oposição na Câmara Municipal de Fortaleza.
Em agosto daquele ano, a bancada do PDT se reuniu com Iraguassú para debater o futuro da legenda. A montagem da chapa eleitoral foi um dos temas, segundo partidários envolvidos na discussão. A saída de integrantes que não estavam alinhados com os caminhos tomados pelo PDT seria um dos pontos, especialmente a do vereador PP Cell.
No início de novembro, o PDT elegeu novos dirigentes e passou a integrar oficialmente a base de apoio ao governo Elmano de Freitas (PT) na Assembleia Legislativa do Ceará, além de confirmar a aliança com a gestão municipal da capital cearense. A ida para o governo, entretanto, não sanou a crise.
A divergência se tornou um problema público no fim de 2025, quando integrantes da bancada do PDT na CMFor reclamaram, durante a sessão plenária do dia 13 de março, da falta de resolução do impasse entre pedetistas alinhados com o Governo Municipal e o Governo do Estado e a ala de oposição.
Segundo os parlamentares, a cisão comprometia a formação de chapas para a disputa eleitoral no próximo ano. PP Cell foi mencionado nominalmente pelos colegas Adail Júnior, Paulo Martins e Luciano Girão.
Adail, aliás, sinalizou que iria ingressar com uma ação contra a permanência do político nos quadros do PDT, pois ele estaria seguindo uma posição diferente da defendida pela sigla, que já era de apoio à gestão petista na capital cearense.
Em janeiro deste ano, o Conselho de Ética do PDT Fortaleza decidiu pela pela expulsão do vereador PP Cell, a apreciar uma representação apresentada pelo vereador Adail Júnior.
Na ocasião, o presidente do diretório municipal, Iraguassú Filho, disse que os membros do órgão partidário entenderam que, diante do que foi apresentado, “cabia a punição máxima, tendo em vista as questões de desvio das ações do partido”.
A votação da expulsão do vereador aconteceria em fevereiro, mas foi postergada para o início de março e, novamente, não ocorreu. Uma nova data ainda não foi marcada.
No dia 11 de março, PP Cell declarou à reportagem que sua situação está "enganchada ainda" no PDT. "Eu nunca expressei, de fato, essa vontade de sair do PDT. Todo mundo sabe que eu estou muito mais alinhado com o PL, porque, ideologicamente falando, sempre fui mais pela direita", afirmou.
O vereador disse ainda que tem mantido conversas com seu advogado para acompanhar o processo de expulsão e "tomar algumas medidas cabíveis", já que ele é pré-candidato a deputado federal e tem receio de que a indefinição sobre sua saída do PDT atrapalhe sua participação na eleição deste ano.
Saída de Gardel Rolim
Na esteira da composição de chapas para 2026, o PDT Fortaleza passou por uma nova baixa em seus quadros, a do vereador e ex-presidente da Câmara Municipal da capital, Gardel Rolim, que migrou para o Partido Renovação Democrática (PRD).
A saída, sem cumprir requisitos de justa causa, conforme alegou o PDT, virou caso de justiça. Mais um para a conta de embates jurídicos vividos pela sigla brizolista no Ceará no decorrer dos últimos anos.
Gardel foi para o PRD em janeiro, sem tornar a desfiliação pública e, segundo o diretório estadual pedetista, "na calada da noite". A ida para outra legenda foi descoberta pelos ex-partidários do parlamentar na última semana e tornada pública ao ser noticiada pelo PontoPoder, em 11 de março.
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Uma representação foi ingressada pelo PDT junto à Procuradoria Regional Eleitoral relatando infidelidade partidária e pedindo a perda do mandato, o que provocou uma abertura de procedimento preparatório eleitoral contra Gardel Rolim.
Na terça-feira (17), o alvo da investigação preliminar se pronunciou publicamente pela primeira vez sobre o caso, durante uma sessão da CMFor. Ele frisou a crise interna que a sigla vive desde 2022 e disse que o grupo vive “problemas insolucionáveis”.
Gardel refutou os argumentos apresentados pelo PDT e disse estar "muito convicto" de que a Procuradoria Eleitoral "se convencerá" dos seus argumentos.
Insatisfação de outros vereadores
Ao menos quatro parlamentares do PDT na CMFor pretendem participar das eleições deste ano: Adail Júnior, Kátia Rodrigues, Paulo Martins e PP Cell. O cenário, no entanto, é de indefinição, uma vez que a direção partidária ainda arregimenta as nominatas para o lançamento de candidaturas competitivas.
No início de março, o PontoPoder mostrou que a estruturação da chapa à Assembleia Legislativa colocava em xeque a permanência de Gardel Rolim — que teve a saída publicizada posteriormente — e ainda de Paulo Martins.
A indefinição foi admitida, inclusive, pelo presidente do PDT Fortaleza, Iraguassú Filho, naquela oportunidade. “Tem havido diálogo com vários nomes que serão candidatos neste ano, mas nada concreto, por enquanto”, discorreu o dirigente.
“O deputado federal (presidente estadual do PDT no Ceará) André Figueiredo tem liderado este processo e tenho certeza de que teremos uma chapa interessante para estadual”, falou em seguida.
Adail, em conversa com o PontoPoder após a saída de Gardel, na última semana, confirmou o cenário e defendeu que o partido deverá ficar "do tamanho que ele é". E ponderou que a conjuntura pode até beneficiar sua candidatura à deputado federal. "Quero é que diminua os quadros federais do PDT, estou achando até demais", declarou.
No dia 12 de março, Paulo Martins disse à reportagem que a saída de Gardel, de fato, teria relação com "a dificuldade que o partido está enfrentando para formar uma nominata". "Tenho trabalhado para ser candidato a deputado estadual e a gente não vê uma chapa", falou.
"Se for o caso, pedir uma carta, uma anuência do partido, para me filiar à outra agremiação", completou Martins, revelando que recebeu convites do PSD, PRD e Republicanos. "Hoje é outra realidade, não vejo motivo para permanecer no partido, a não ser a fidelidade partidária", ponderou.
PP Cell, por sua vez, enfatizou no dia anterior à entrevista com Paulo Martins, que não pretende ser candidato pelo PDT "depois de tudo que aconteceu, diante do que o partido vem apoiando e das alianças que ele vem fazendo".
Nas palavras dele, através dos relatos de amigos que participam das tratativas visando as arrumações eleitorais, "o clima está bem pesado" no partido. "Alguns vereadores que querem ser candidatos não veem viabilidade, não veem chapas, estão preocupados com a situação", salientou, sugerindo à presidência a liberação dos interessados.
O PontoPoder acionou a assessoria de comunicação da vereadora Kátia Rodrigues, para que pudesse comentar sobre o assunto. Não houve resposta até a última atualização deste texto.
Riscos eleitorais em 2026
Pelo relato de membros da legenda, as negociações para a composição de chapas ocorrem de uma maneira que compromete a participação competitiva na disputa eleitoral, tanto pela incerteza de quem vai estar na chapa quanto ela impacta na atração de novos quadros.
No último dia 12, presidente do PDT Fortaleza, Iraguassú Filho, voltou a afirmar que o presidente estadual André Figueiredo "há algumas semanas com várias pessoas e tem buscado construir a chapa pra 2026".
"Não está sendo fácil este processo de formação de chapa para ninguém, mas temos convicção que ao final da janela partidária teremos uma chapa interessante", finalizou o responsável pela direção municipal.