Após risco de ‘sumir’, PSB e PSDB lideram crescimento partidário no Ceará
Rearranjos partidários, migração de lideranças e novas alianças reposicionaram grupos políticos a cerca de seis meses das eleições.
Quatro anos após as eleições gerais de 2022, o cenário político do Ceará passou por um redesenho, impulsionado por mudanças partidárias, reacomodações de lideranças e disputas internas nas principais siglas. Nesse período, três partidos sintetizam esse rearranjo: PSB e PSDB ampliaram de forma significativa suas bancadas — o tucanato, por exemplo, quintuplicou de tamanho após um período de esvaziamento no Estado. Por outro lado, o PDT, que até 2022 era a maior força política local, sofreu forte retração, perdendo mais de 90% de sua bancada legislativa.
Os dados levam em conta a composição das bancadas federal e estadual logo após o pleito de 2022, e o quadro atual, às vésperas das eleições de 2026. O PSB, que não havia elegido representantes no Ceará naquele momento, passou a reunir 15 mandatários entre deputados estaduais, federais e senador — o maior salto em números absolutos. Já o PSDB saiu de um para seis parlamentares, consolidando uma retomada no Legislativo estadual. Em sentido oposto, o PDT encolheu de 20 mandatários para um.
Para o levantamento, o PontoPoder reuniu dados eleitorais de 2022, considerando os eleitos para a Câmara dos Deputados, a Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) e o Senado Federal. No caso do Senado, foram incluídos tanto o eleito naquele ano (Camilo Santana, do PT) quanto os parlamentares que estavam no meio do mandato — Cid Gomes e Eduardo Girão, então filiados ao PDT e ao Novo, respectivamente.
Para o cenário de 2026, por sua vez, foram utilizados os dados atualizados das bancadas após a janela partidária, levando em conta apenas deputados e senadores em exercício.
Reconfiguração do PSB
O crescimento do PSB está diretamente associado à articulação do senador Cid Gomes e ao reposicionamento da sigla após o racha no PDT, em 2022. Desde então, o partido deixou de ser coadjuvante — sem representação nos Legislativos estadual e federal — para assumir papel central na política cearense, passando a liderar a maior bancada na Alece, tornando-se uma das maiores na Câmara dos Deputados e garantindo uma representação no Senado.
Esse movimento acompanha uma tendência já observada nas eleições municipais de 2024. Naquele pleito, o PSB se tornou o principal destino de prefeitos no Ceará e chegou ao fim do ano com 72 gestões municipais, cerca de 40% do total do Estado.
A expansão reflete uma estratégia política de Cid Gomes baseada na atração de lideranças locais e na construção de uma rede de aliados que independe do controle direto da máquina estadual.
Composição no Senado
- Cid Gomes: Eleito em 2018 pelo PDT, atualmente está no PSB;
- Eduardo Girão: Eleito em 2018 pelo Podemos, atualmente está no Novo;
- Camilo Santana: Eleito em 2022 pelo PT, segue na sigla.
PSDB de volta ao jogo
O PSDB também atravessa um processo de recomposição. Após eleger apenas a deputada estadual Emília Pessoa em 2022, o partido ampliou sua bancada para seis parlamentares com a janela partidária deste ano — além de um sétimo nome que está licenciado e, atualmente, tem a vaga ocupada por um parlamentar do PSD.
O crescimento está diretamente ligado à chegada do ex-governador Ciro Gomes à sigla. Após deixar o PDT em meio ao racha interno, o ex-ministro passou a se posicionar como principal nome da oposição no Estado e potencial candidato ao Governo do Ceará em 2026.
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Mesmo sem formalização oficial da pré-candidatura, a movimentação impulsionou a migração de aliados — especialmente ex-pedetistas — em busca de novo espaço político. O PSDB passou a integrar o núcleo de articulação de uma frente oposicionista que envolve também partidos como o PL e a federação União Progressista.
O fortalecimento da legenda faz parte de uma estratégia mais ampla da oposição. Aliados de Ciro, como o presidente da federação União Progressista, Capitão Wagner (União), já indicaram que a ampliação da bancada tucana na Alece está vinculada ao plano de viabilizar um eventual governo Ciro.
Recuo do PDT
O avanço de PSB e PSDB ocorre em paralelo ao encolhimento de partidos que, até recentemente, ocupavam posição central na política cearense. O caso mais emblemático é o PDT, que perdeu 95% de sua bancada, passando de 20 para apenas um parlamentar em exercício, o deputado federal André Figueiredo.
A redução é consequência direta do racha entre os irmãos Cid e Ciro Gomes, ocorrido em 2022. A ruptura desencadeou dois movimentos: inicialmente, a migração de aliados de Cid para o PSB; em seguida, a saída de quadros ligados a Ciro para siglas como União Brasil, PSDB e PL.
Os pedetistas remanescentes, por sua vez, passaram a se alinhar ao grupo governista, reconfigurando o papel do partido no cenário estadual.
Outras legendas também perderam espaço. Avante e Cidadania, que haviam eleito um deputado estadual cada em 2022, deixaram de ter representação nas bancadas cearenses. Nesse período, o Podemos também ficou sem representação no Estado, após a saída do senador Eduardo Girão para o Novo.
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Redução estratégica no União Brasil
Embora os dados indiquem redução de cerca de 60% na bancada do União Brasil, o movimento não ocorreu especificamente por perda de força política. Parte da diminuição está relacionada a uma estratégia articulada com o PSDB.
Segundo o ex-presidente da sigla e atual dirigente da federação União Progressista no Ceará, Capitão Wagner, o partido “cedeu” parte de seus quadros ao tucanato como forma de fortalecer a base governista de uma eventual gestão Ciro Gomes.
Com isso, o União Brasil passou de oito para três mandatários. A principal redução ocorreu na Assembleia Legislativa, onde a sigla deixou de ter representação.
Petistas e bolsonaristas
Protagonistas da disputa mais acirrada nacionalmente, PT e PL tiveram desempenhos distintos no Ceará ao longo do período. Enquanto o partido do presidente manteve estabilidade, o principal representante do campo bolsonarista encolheu.
O PT manteve sua bancada em quantidade total de mandatários, mantendo 11 parlamentares entre as esferas estadual e federal. Contudo, a sigla perdeu uma das deputadas federais mais tradicionais da sigla, Luizianne Lins, que se filiou à Rede Sustentabilidade.
Já o PL registrou retração de 22%, passando de nove para sete mandatários. A saída dos deputados, no entanto, ocorreu entre 2023 e 2024. Yuri do Paredão (MDB) e Junior Mano (PSB) foram expulsos da sigla por conta de alianças que fizeram com integrantes do PT.
Diante desses rearranjos, a eleição de 2026 tende a funcionar como um teste para medir o peso real das mudanças construídas fora das urnas. O pleito deve indicar até que ponto a reorganização partidária, as migrações de lideranças e as novas alianças serão validadas pelo eleitorado, além de colocar à prova a capacidade de articulação das principais lideranças locais.