Influência de Cid amplia força do PSB Ceará nas prefeituras mesmo sem controle da máquina estadual
Chegando a 72 prefeituras sob seu comando, PSB consolida força nos municípios e amplia peso político de Cid Gomes para 2026
A filiação de sete novos prefeitos ao PSB Ceará, nesta sexta-feira (3), reforça a expansão do partido, que passa a governar 72 das 184 prefeituras do Estado, o equivalente a quase 40% das gestões. Mais do que sinalizar força partidária, o movimento confirma a força de Cid Gomes (PSB) na articulação política local. Mesmo fora do Palácio da Abolição e prestes a encerrar o mandato no Senado Federal, o ex-governador levou a sigla a somar o maior número de prefeitos cearenses, à frente de partidos com maior estrutura institucional, como o PT.
Sob aval do senador, juntam-se ao PSB os prefeitos Bruno Gonçalves (Aquiraz), Dr. Júnior (Eusébio), Marquinhos Tavares (Itaitinga), Ana Afif (Cascavel), Giordanna Mano (Nova Russas), Edim (Aracoiaba) e Dilmara Amaral (Limoeiro do Norte). Além deles, o ato, marcado para o fim da tarde desta sexta, no Eusébio, terá a filiação do ex-prefeito do município, o médico Acilon Gonçalves.
Cid Gomes retornou ao PSB em fevereiro de 2024. Sua primeira passagem pela sigla havia ocorrido em 2005, um ano antes de ser eleito governador do Ceará. Ele permaneceu no partido durante a campanha de 2010, quando foi reeleito, e deixou a legenda apenas em 2013, migrando para o Pros e, depois, para o PDT. Na sigla brizolista, foi responsável pela articulação que resultou na eleição de 67 prefeitos em 2020.
Contudo, em 2022, o PDT rachou por causa da disputa estadual. Cid e seu irmão, o ex-governador Ciro Gomes (PDT), romperam politicamente, e o senador deixou o partido rumo ao PSB. O movimento não foi isolado, 37 prefeitos também deixaram outras legendas — principalmente o PDT — e o seguiram. A debandada provocou uma desidratação dos quadros pedetistas, e a legenda elegeu apenas cinco prefeitos em 2024. Já o PSB, sob comando de Cid, saiu das urnas com 65 prefeituras.
De acordo com a professora de graduação e pós-graduação em Direito da Universidade de Fortaleza (Unifor) e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mariana Dionísio de Andrade, a ampliação de prefeitos filiados ao PSB é um sinal claro de vitalidade e projeção no cenário político estadual.
“Do ponto de vista simbólico, o partido reforça a imagem de uma sigla capaz de atrair lideranças com peso local, e essa movimentação sinaliza vitalidade, capacidade de articulação e, sobretudo, um certo consenso em torno do PSB como espaço político de estabilidade e projeção”, aponta.
Monalisa Torres, professora de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), aponta que esse fenômeno tem relação direta com a cultura política cearense.
“As lideranças (municipais) tendem a seguir pelos caminhos que lhes ofereçam maiores oportunidades e lideranças que estejam à frente, que consigam atrair e ter acesso a recursos da máquina pública. Para um estado como o Ceará, isso vale muito, conta muito, e o Cid tem demonstrado essa resiliência”
“Digo resiliência porque ele está em fim de mandato no Senado e faz um tempo que não está mais à frente do Governo, onde teria mais acesso a essa máquina e teria mais condições de atender as demandas dos aliados, mas, no contexto de reposicionamento do tabuleiro político do Ceará, alguns nomes se fragilizaram, outros se fortaleceram e alguns tentam se manter no jogo, a exemplo do Cid”, afirma Monalisa.
Estratégias partidárias
Com a máquina federal e estadual em mãos, e após o período de crise mais crítico da sigla, o PT é o partido mais próximo ao PSB em número de prefeituras do Ceará. Contudo, ainda é a segunda força em quantidade de municípios. Os petistas contam com 46 mandatários municipais.
prefeitos passam a integrar os quadros do PSB
Para Monalisa, essa diferença é justificável pela forma como cada legenda organiza suas prioridades.
“Ao longo da sua história política, o PT investe muito mais recursos, tanto de quadros quanto financeiros, em disputas nacionais. Então, nessa priorização do comando nacional, ele tende ou é forçado, em alguma medida, a negociar com outras legendas da base para as outras disputas, em outras esferas”, afirma.
A cientista política resume que, enquanto o PSB tem apostado na expansão de sua base no interior, o PT concentra esforços em manter protagonismo no plano nacional. Isso cria um contraste nítido: embora permaneça como uma das principais forças políticas do Ceará, a sigla não consegue superar a capilaridade da rede construída por Cid e seu grupo.
A avaliação de Monalisa é de que o saldo do PSB em relação ao PT e a outras siglas está diretamente ligado à capacidade de articulação de Cid Gomes, à sua influência sobre prefeitos e à experiência que lhe permite continuar exercendo poder mesmo fora do Executivo.
“É muito difícil para um partido pequeno e lideranças menos expressivas manter-se na oposição ou manter uma base eleitoral, ampliá-la ou mesmo pleitear a disputa de reeleição ou outros cargos sem esses acordos, sem essa rede de apoio mútua, de cima para baixo, de baixo para cima, de mão dupla, e Cid Gomes tem mostrado que ainda é muito hábil nesse jogo político”, conclui.
De olho em 2026
Esse fortalecimento terá reflexos diretos na disputa eleitoral de 2026. A expectativa é que Cid utilize esse capital político para impulsionar aliados em cargos estratégicos, como a vaga ao Senado. O principal nome que ele tenta viabilizar para o cargo é o do deputado federal Júnior Mano (PSB), movimento que, porém, encontra resistência dentro do próprio grupo governista e se desenha como uma das disputas mais acirradas de 2026.
“Politicamente, a chegada de mais prefeitos consolida o partido não apenas como maior em número, mas como protagonista na condução das disputas futuras. Isso amplia seu poder de barganha dentro do cenário estadual e também nas negociações nacionais, já que o PSB cearense passa a ter uma posição ainda mais estratégica”
A professora universitária e cientista política reforça que a capilaridade municipal fortalece a posição da sigla nas articulações políticas. Com a maior base de prefeitos do Estado, o PSB entra nos debates sobre 2026 com mais poder de negociação e influência nos rumos da política regional.
Esse “método” de chegar fortalecido nas mesas de negociações políticas não é novidade para Cid Gomes. A influência do político ganhou impulso nos anos 2000, quando ele, até então sob a benção do irmão, Ciro Gomes, estruturou uma base municipal robusta no Ceará.
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Para cientistas políticos, essa rede foi colocada em xeque durante o racha do PDT, contudo, Cid tem se mostrado “resiliente” e “ativo” no redesenho de forças locais, fazendo frente a partidos com controle direto da máquina pública.
“O PT tem força nacional e capilaridade, mas no Ceará nunca estruturou uma rede municipal tão enraizada no interior quanto a que os Ferreira Gomes consolidaram. Essa base explica por que partidos ligados a Cid conseguem reunir mais prefeitos. Ele combina experiência, capital político acumulado e uma rede de lideranças que confiam na sua capacidade de articulação”, conclui Mariana.