Tarifaço pode derrubar preço da manga e de alguns pescados no Ceará, mas não da lagosta

Medida começa a valer nesta quarta-feira (6)

Escrito por
Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
(Atualizado às 14:53, em 07 de Agosto de 2025)
Peixe vermelho no gelo
Legenda: Os peixes vermelhos incluem o pargo e cioba
Foto: Mikeledray/Shutterstock

Com a entrada em vigor da taxação sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, nesta quarta-feira (6), a manga e peixes vermelhos podem ficar mais baratos no Ceará. Especialistas avaliam que o excesso de estoque pode levar à redução dos preços.

No entanto, essa grande oferta ainda não é percebida porque muitas empresas exportadoras estão correndo contra o tempo para enviar o máximo possível antes da elevação da taxa. Por outro lado, a carne e o café podem não apresentar a redução de preços esperada.

O economista e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Ricardo Coimbra, observa que houve um volume significativo de exportações nos últimos dias devido à ameaça do tarifaço

Ainda vale lembrar que existe um período para aplicação da taxação antiga, ou seja, os 10% praticados até agora, chamado, no documento assinado por Donald Trump, de período em trânsito, que tem validade até 5 de outubro. Após essa data, a dinâmica do mercado poderá sofrer alterações.

"É interessante observar que ainda existem diversas situações. No caso do café e da carne, há uma tendência de inclusão na lista de produtos que estão na exceção (ou seja, que não serão tarifados em 50%)", lembra.
 

Preço dos peixes vermelhos pode cair no Ceará

A avaliação do setor de pescados indica que os preços dos peixes vermelhos, como pargo e cioba, podem cair no Ceará, enquanto os valores da lagosta e do atum devem permanecer estáveis.

Para o assessor técnico do Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindfrio), Cadu Villaça, será difícil para o segmento escapar da "lei da oferta e da procura".

ERRAMOS (Atualização feita no dia 7 de agosto às 14h53):  Na primeira versão desta matéria, o Diário do Nordeste informou que Cadu Villaça era presidente do Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindfrio). No entanto, Cadu Villaça é assessor técnico do Sindfrio. Villaça também é oceanólogo e presidente do Coletivo Nacional da Pesca e da Aquicultura (Conepe). 

"No mercado local, o tarifaço deve impactar menos a lagosta, e algo vai refletir nos atuns, mas nos vermelhos é diretamente na veia", projeta. Segundo Villaça, esse tipo de pescado é bastante consumido na alta gastronomia da região Sudeste do Brasil.

Assim, haverá maior oferta do produto para essa região e possibilidade de negociação de preços. 

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Já o primeiro-secretário e responsável pelos assuntos de comércio exterior do Sindfrio, Paulo Gonçalves, afirma que, neste momento, o setor está realizando levantamento das cargas que estão no Porto do Pecém e iniciando a verificação do que já está em processamento nas indústrias.

"Estamos negociando com os clientes para definir o preço que será possível trabalhar e aguardando o retorno dos governos Federal e Estadual quanto a medidas para mitigar o impacto ao setor produtivo", afirmou.

Questionado sobre a possibilidade de esses produtos ficarem mais baratos para o consumidor brasileiro, ele reforça que essa "não é uma questão de ficar mais barato para o brasileiro."

"Agora, trata-se de saber se será possível para o pescador continuar pescando por um preço mais baixo. Se o trabalho continua viável. Afinal, todas as cadeias de produção têm custos para produzir; nesse caso, é o quanto o produtor artesanal consegue suportar um preço mais baixo", disse.  

Preço da manga também pode cair 

A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) declarou que a manga seria a fruta mais impactada pelo tarifaço neste momento, por conta da safra, que ocorre entre agosto e dezembro. Questionada sobre o preço do item no mercado interno, a entidade não respondeu. 

Para o economista Alex Araújo, a manga pode aparecer com uma oferta maior no mercado interno, "pois a exportação para o mercado americano se tornou muito arriscada, por conta das incertezas sobre as tarifas". 

Assim, ampliar a oferta no mercado interno e reduzir os preços pode ser uma estratégia adotada a curto prazo.

Por outro lado, pondera, apostas inusitadas podem auxiliar no consumo e na venda de frutas, como ocorreu com o morango, e usa o exemplo de um empresário local que está explorando a venda da manga cortada em tiras, com limão, pimenta e sal.

"Se virar um meme, pode vir a salvar o excesso de oferta com a safra que começa agora", destaca. Ainda sobre as frutas, ele aponta que existe uma safra em curso, então o produtor terá poucas opções de negociação. 

"As alternativas são buscar outros mercados (alternativos ao norte-americano), mas isso só deve gerar resultados no médio prazo, ou buscar beneficiamento, fazendo polpa, doces, sorvetes, entre outros", comenta.

Só no ano passado, o Brasil exportou 37 mil toneladas de manga, o que gerou US$ 46 milhões. Em carga, a segunda fruta mais exportada para os EUA foi a uva, com 14 mil toneladas (US$ 41,5 milhões), seguida da melancia, com 2,3 mil toneladas e US$ 1,2 milhão, e do melão (1,5 mil toneladas), representando US$ 800 mil.

Carnes dificilmente sofrerão alteração de valor 

Os EUA são o segundo maior mercado da carne bovina brasileira no exterior. Mesmo com o produto entre os alimentos que serão tarifados em 50% na exportação, ele não deve sofrer redução nos preços.

Isso porque, segundo analistas de mercado, já estava previsto abater menos bois neste segundo semestre, com o objetivo de priorizar a reprodução de fêmeas.

Assim, já havia uma tendência de alta nos preços no mercado interno para este período, devido à menor oferta.

A dinâmica comercial diferente da carne foi confirmada pelo economista Alex Araújo. Ele, inclusive, aposta que os cortes nobres não sofram variação relevante nos preços, já que são destinados a outros mercados por meio dos grandes frigoríficos.

"O fornecimento local não é dependente do mercado internacional, e os preços estão mais relacionados com insumos locais e a demanda doméstica; ou seja, não devem ser afetados pelas tarifas", frisa. 

Café pode ter mercado compensatório e manter preços estáveis

O economista Coimbra ressalta que o mercado norte-americano pode estar sendo suprido pela China, uma vez que o país habilitou 183 novas empresas brasileiras de café para exportar o produto.

"Isso pode significar que talvez o café não tenha um crescimento tão significativo de oferta no mercado interno", pondera. Além disso, ele lembra que os norte-americanos também não devem reduzir significativamente o consumo de café.

"Eles não têm de onde buscar esse café. Outros produtores, como a Colômbia e a Tailândia, não têm capacidade de suprir essa demanda. Então, com tudo isso acontecendo, acredito que o preço do café não tenha queda para o consumidor brasileiro", avalia. 

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