Quanto vai subir a conta de energia? Veja simulações

O reajuste da Enel não deve ter efeito imediato no bolso do consumidor devido à retirada da bandeira escassez hídrica, mas conta deve pesar caso adicional volte

Escrito por Heloisa Vasconcelos, heloisa.vasconcelos@svm.com.br

Negócios
Legenda: Inicialmente o impacto do aumento nas contas de luz deve ser discreto
Foto: Fabiane de Paula

A energia passou a ser mais cara no Ceará desde a última sexta-feira (22). A Enel determinou reajuste de em média 24,88% na tarifa cobrada por kWh. 

A alta não deve ser sentida de forma imediata pelos cearenses, já que no início do mês a bandeira tarifária de escassez hídrica deu espaço à bandeira verde, que retira a cobrança adicional.  

O reajuste da distribuidora deve pesar no bolso a partir do segundo semestre, quando é esperada uma volta da bandeira tarifária vermelha, segundo previsões do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Estado do Ceará (Sindienergia). 

Impacto demorado 

No início do mês, o governo federal anunciou que, após seis meses com a cobrança de R$ 14,20 a cada 100 kWh pela bandeira escassez hídrica, seria colocada a bandeira verde, sem cobrança adicional. Com a mudança, a previsão era de uma redução de cerca de 20% nas contas de luz. 

Mas, no Ceará, os consumidores não terão esse alívio. Com o reajuste de quase 25% da Enel, em vez de redução, os cearenses terão uma leve alta paga no valor mensalmente.  

Conforme o diretor técnico do Sindienergia-CE, Daniel Queiroz, o impacto do reajuste não chegará agora, mas deve ser percebido à medida que bandeiras tarifárias sejam novamente adotadas.  

O consumidor tem que tomar uma medida preventiva o mais breve possível, como energia solar ou gestão de eficiência energética, porque a bandeira vermelha deve voltar no segundo semestre e foi aberta uma consulta pública para aumento de 50% na bandeira vermelha
Daniel Queiroz
diretor técnico do Sindienergia-CE

O aumento divulgado pela Enel é aplicado sobre a tarifa por kWh. Para os consumidores residenciais de baixa tensão, a tarifa que antes era de R$ 0,84 por kWh salta para R$ 1,04.  

O consumo representa 80% da conta de luz, mas esse aumento reverbera em outros custos que fazem parte da fatura, como ICMS e iluminação pública. 

Ele exemplifica que uma conta de consumo mensal de 160 kWh custava R$ 177,98 antes do reajuste, sendo R$ 134 desse valor apenas referente ao consumo. Com a alta, a parcela de consumo vai para R$ 166. 

Sem cobrança adicional por bandeira tarifária, a conta dessa família subirá menos de R$ 3, para R$ 180,13. Mas, caso a bandeira vermelha seja acionada, esse valor já sobe para R$ 212,69. 

A simulação feita pelo sindicato considera como variáveis o consumo, impostos, iluminação pública e custo de geração e distribuição de energia. Os valores reais das faturas podem ter divergências. 

Surpresa e dúvida 

O consumo médio na casa da advogada Fernanda Alice, de 24 anos, é 160 kWh e, segundo ela, a conta sempre vem por volta de R$ 190 e R$ 200. No ano passado, esse valor não passava de R$ 170. 

Morando com os dois pais, ela arca com o custo da energia e teve uma reação de surpresa e dúvida quando soube do aumento realizado pela Enel. Ela conta que esperava uma redução, após a notícia da bandeira tarifária verde. 

Pela simulação do Sindienergia, a conta de energia da família deve ir para pelo menos R$ 212 com novas bandeiras tarifárias. Para conter o consumo e aguentar o impacto no bolso, Fernanda planeja diminuir uso de ar condicionado e tentar conter desperdícios. 

Eu espero pelo menos que não tenha tanta queda de energia, já que vai aumentar. Nesses últimos dias devido às chuvas no bairro onde eu moro tem uma grande inconsistência de energia, quando chove, sempre cai. Eu espero pelo menos que, pagando por um serviço mais caro, que ele seja melhor do que é atualmente
Fernanda Alice
advogada

“Vai ser caótico, bem pesado” 

O estudante Yuri Lima, de 24 anos, vai começar agora a pagar todas as contas, após sair da casa dos pais. O medo de não dar conta de todos os compromissos financeiros já era grande, mas cresceu com a notícia do reajuste. 

Até o mês passado, ele morava com pai, mãe e irmão em Cascavel. O consumo médio da residência era de 220 kWh, o que significava uma conta em torno de R$ 260. 

Bolsista da faculdade, Yuri separou 20% de seu orçamento temeroso pela conta de luz que virá mês que vem. A ideia é conter o consumo o máximo possível, substituindo inclusive o atual fogão elétrico por um convencional. 

“Eu já estava preocupado com o quanto de energia ia vir, e agora tenho que colocar mais 24%, vai ser caótico, bem pesado”, lamenta.  

Na simulação do Sindienergia, a conta de energia da casa da família de Yuri deve ir para pelo menos R$ 287 caso seja adotada bandeira vermelha. 

Penso da conta no bolso 

Com o aumento na energia, o funcionário público David Moraes de Andrade, de 41 anos, já pensa em diminuir o uso de aparelhos elétricos para o preparo de alimentos, como microondas e air fryer, preferindo o fogão convencional. 

O consumo médio da família, que inclui ele, a esposa e um filho gira em torno de 180 kWh. Segundo David, a conta fica por volta de R$ 200, o que representa 5% do seu orçamento. Ele se preocupa com o peso que essa conta pode tomar. 

Aumentar 25% em uma conta de R$ 200 vai para R$ 250, é muito dinheiro. Vou 'abrir mão' da preparação de alimentos nos eletrodomésticos eletrônicos
David Moraes
funcionário público

David considera que, para economizar mais do que a família já economiza, seria necessário investir em aparelhos mais eficientes, um investimento que não é possível para o momento.  

“Vamos consumir menos energia em casa, assistir menos à televisão, prestar mais atenção nas luzes que ficam acesas, no computador ligado. Mudar nossos hábitos para ver se a gente diminui o consumo e guardar dinheiro para mais futuramente fazer investimento em equipamentos mais eficientes”, planeja.  

O que diz a Enel

O diretor de Regulação da Enel no Brasil, Luiz Gazulha, disse na semana passada que o aumento na conta de energia vai ser praticamente anulado com a saída da bandeira de escassez hídrica. 

"Em abril, a bandeira saiu, não será mais cobrado e entrou o reajuste tarifário. A percepção que o nosso cliente vai ter no estado do Ceará é de uma mudança quase nula". 

Ele disse acreditar que o país não passará mais neste ano pelo período de escassez hídrica como ocorreu em 2021.

"Desde dezembro, a situação hídrica já vem melhorando, então não acreditamos que não teremos aí um novo desgaste, um novo ponto de crise em virtude da ausência de chuvas".