​O que pode mudar nos Correios do Ceará com a nova reestruturação?

Empresa estatal permanece estudando formas de estancar crise.

Escrito por
Luciano Rodrigues luciano.rodrigues@svm.com.br
Trabalhadores dos correios.
Legenda: Praticamente todos os municípios do Ceará têm agência dos Correios.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil.

Os Correios anunciaram um plano de reestruturação que prevê empréstimos de pelo menos R$ 12 bilhões para tentar melhorar a qualidade de um serviço cuja eficiência é historicamente discutida. A medida levanta questionamento sobre os impactos no Ceará, onde a estatal mantém 538 agências de atendimento e cerca de 2,4 mil empregados, entre efetivos e terceirizados.

Segundo fontes especializadas, o Estado pode ser afetado pelo Programa de Demissão Voluntária (PDV) previsto no plano, além do possível fechamento de unidades. Por outro lado, há expectativa de avanços na modernização do sistema de entregas.

De acordo com Thiago Holanda, membro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), o Ceará tende a acompanhar o PDV apresentado pela empresa em âmbito nacional, sobretudo em municípios menores, definidos por ele como “mais sensíveis a cortes operacionais”.

O advogado Mauro Liberato Filho, presidente da Comissão Especial de Recuperação Judicial e Falência da Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE), observa que os funcionários que optarem pela demissão voluntária devem realizar negociações junto aos sindicatos trabalhistas, “a fim de reduzir conflitos, minimizar impactos sociais e garantir maior segurança jurídica”.

“É indispensável o respeito aos direitos trabalhistas assegurados. O descumprimento dessas obrigações pode gerar condenações na Justiça do Trabalho, com incidência de juros, correção monetária, multas e reconhecimento de danos individuais e coletivos, ampliando o passivo da empresa”, frisa Mauro Liberato.

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Questionados sobre possíveis fechamentos de unidades, venda de ativos e detalhes do PDV no Ceará, os Correios não se manifestaram. A empresa informou apenas que está “concluindo os estudos para a reorganização das unidades e do efetivo, com foco em eficiência e sustentabilidade”.

“Essas análises consideram critérios técnicos e têm como premissa inegociável a garantia do atendimento aos clientes e parceiros, bem como a universalização dos serviços postais em todas as regiões do país. Mais informações serão divulgadas oportunamente”, declarou a estatal.

2 milhões
É o número de entregas realizadas mensalmente pelos Correios do Ceará.

Leia, abaixo, a análise de especialistas para saber o que esperar dos Correios no Ceará após a reestruturação. 

Impacto no interior do Ceará

Foto que contém uma caixa de correio em estabelecimento comercial.
Legenda: Serviço postal dos Correios deve passar pela mais reestruturação em anos.
Foto: Kid Júnior.

Para o advogado Mauro Liberato Filho, “os impactos tendem a ser mais fortes em áreas periféricas e municípios pequenos, onde a agência muitas vezes é o principal acesso a serviços postais e logísticos”.

“Nessas regiões, os fechamentos podem gerar maiores deslocamentos, sobrecarga das unidades restantes e dificuldades no envio e recebimento de encomendas e benefícios”, diz.

“Uma alternativa mais equilibrada seria combinar a redução da rede física com investimentos em tecnologia e novas estratégias de mercado, preservando a continuidade e a universalização do serviço e reduzindo os impactos sociais da reestruturação”, complementa o advogado.

Para o economista Thiago Holanda, os cortes operacionais podem “aumentar a distância física entre o cidadão e o serviço postal”.

“Isso pode gerar atrasos, menor frequência dos serviços e concentração das operações. Há ainda efeitos indiretos sobre o emprego local e a renda em cidades pequenas. Do ponto de vista regional, o desafio é manter o serviço universal com uma estrutura menor”, observa Holanda.

“Para quem depende dos Correios em áreas remotas, o impacto pode ser mais perceptível. Com o tempo, se a reestruturação for bem conduzida, a eficiência pode melhorar”, completa.

Ele também aponta o avanço de operadores privados de serviços de entrega, que atualmente crescem no País. Apesar disso, observa que nenhum deles tende a ser preponderante nacionalmente.

“Empresas privadas tendem a ganhar mercado onde houver falhas no serviço público. No entanto, o domínio total é improvável, devido ao papel social do serviço postal. O mercado brasileiro deve caminhar para maior competição e segmentação. Os privados devem crescer sobretudo no segmento de encomendas e do comércio eletrônico. Já a entrega universal em áreas remotas continua sendo um desafio econômico”, reflete. 

Qual será o destino dos imóveis dos Correios?

Em 2023, os Correios chegou a anunciar um novo Complexo Operacional e Administrativo em Fortaleza, em prédio que já pertencia à empresa pública, mas ele não chegou a sair do papel. Não há informações detalhadas sobre o futuro dos prédios.

Mauro Liberato não vê impeditivos legais para os Correios alienarem os imóveis de propriedade da estatal, vendendo os equipamentos e passando a alugá-los, prática adotada por grandes empresas privadas e conhecida no mercado financeiro também pelo termo sale and leaseback (venda e arrendamento de volta, em tradução livre).

Foto que contém um carteiro entregando cartas em Fortaleza.
Legenda: Reestruturação dos Correios no Brasil prevê um programa de demissão voluntária.
Foto: José Leomar/Diário do Nordeste.

“No caso dos Correios, por se tratar de empresa pública, é essencial que a venda observe as regras de avaliação e alienação de bens e que a locação seja formalizada em condições compatíveis com o mercado, de modo a assegurar a continuidade das operações e a eficiência administrativa”, pondera.

Demanda por eficiência logística e modernização

Para Thiago Holanda, o dinheiro captado junto a bancos fornece à estatal “fôlego para reorganizar o caixa e honrar compromissos imediatos”.

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“No entanto, o crédito, por si só, não resolve problemas crônicos de gestão e de modelo de negócio. A efetividade depende da redução permanente de custos fixos e da modernização dos serviços. Também é essencial alinhar preços, produtividade e a demanda real do mercado postal”, frisa.

Entenda o Plano de Reestruturação dos Correios

Conforme divulgado pela estatal, os R$ 12 bilhões captados estão voltados à estabilização emergencial da companhia, que enfrenta prejuízos bilionários e patrimônio líquido negativo de mais de R$ 10,4 bilhões.

O dinheiro a ser emprestado será dividido em duas partes: a primeira, de R$ 9 bilhões, emprestada pela Caixa Econômica Federal, pelo Bradesco e pelo Banco do Brasil, já está desde o fim do ano nos cofres da empresa.

O restante, R$ 3 bilhões, virá do Itaú Unibanco e do Santander, a ser disponibilizado até 30 de janeiro deste ano.

A alienação de imóveis sem uso operacional deve gerar cerca de R$ 1,5 bilhão em receitas extraordinárias. Todas essas ações fazem parte da fase 1 do Plano de Reestruturação.

Já na fase 2, o destaque é o PDV. A previsão é de que o programa seja aberto ainda em janeiro, com potencial de adesão de até 15 mil empregados até o próximo ano. Com isso, os Correios esperam economizar anualmente R$ 2,1 bilhões, com alívio financeiro a ser notado a partir de 2028.

Cerca de 20% dos 5 mil postos de atendimento dos Correios também devem ser fechados, conforme relatado pelo jornal Correio Braziliense, girando em torno de 1 mil unidades.

Cargos de alta e média remuneração dentro da empresa também devem ser revistos, além dos planos de saúde e de previdência dos funcionários, com economia de R$ 700 milhões aos cofres da empresa.

A última etapa do Plano de Reestruturação dos Correios é a contratação de uma consultoria externa para avaliar novas sociedades. A estatal descarta ser privatizada, mas admite um regime híbrido, com parceria com o setor privado.

Entre 2027 e 2030, os Correios vão captar financiamentos por meio do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB/Brics). Serão R$ 4,4 bilhões a serem investidos na automação de centros de tratamento, na renovação e descarbonização da frota, na modernização da infraestrutura de tecnologia da informação (TI) e no redesenho da malha logística.

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