O Nordeste produz energia demais — e isto é um problema
Adão Linhares especialista em energia, explica como o maior trunfo renovável do Brasil virou um passivo financeiro bilionário, e o que pode mudar esse jogo
Elaborado exclusivamente para esta coluna, o artigo a seguir é de autoria do engenheiro Adão Linhares, sócio da Energo Soluções em Energias, ex-secretário de Energia da Secretaria de Infraestrutura do governo do Ceará e um especialista na área. Ele diz que “a corrida pelo hidrogênio verde já tem vencedores parciais — e o Nordeste ainda pode entrar competitivamente nessa disputa”.
Mas Linhares amplia sua análise e seus questionamentos, abordando outros temas da chamada transição energética, com foco no Ceará e no Nordeste. Leia com atenção a reflexão de Adão Linhares:
“Existe uma ironia cruel na fundamentação da política energética brasileira. A região que concentra mais de 50% de toda a capacidade solar centralizada do país — e que responde pela maior parcela da geração eólica nacional — desperdiça energia em escala industrial. Não por descuido. Não por falta de tecnologia. Mas por uma falha estrutural de planejamento que cobra, ano após ano, uma conta estimada de R$ 6 bilhões. Esse é o paradoxo da abundância energética do Nordeste.
“Quando gerar demais vira problema – Em 2025, os chamados cortes de geração — tecnicamente conhecidos como curtailment — chegaram a alcsnçar 20,6% da capacidade instalada de algumas usinas eólicas e solares nordestinas. Traduzindo: uma em cada cinco unidades de energia produzidas simplesmente chegou a nenhum consumidor. Foi gerada, desperdiçada e, para os investidores, virou prejuízo direto no balanço — com impacto no Ebitda das geradoras estimado entre 2% e 11%.
“As causas se dividem em dois grupos de igual peso. Metade dos cortes decorre de gargalos físicos na transmissão: as linhas de escoamento do Nordeste para o restante do país simplesmente não têm capacidade para transportar o volume gerado. A outra metade decorre de sobreoferta operativa: em determinados horários — especialmente no pico solar do meio-dia, a produção supera tanto a demanda local quanto a capacidade de exportação simultânea.
“O Plano Decenal de Energia já reconheceu a necessidade de ampliar a capacidade de exportação da região para o Sudeste em mais de 6.000 MW. É um número que fala por si.
“O descompasso que ninguém resolveu – Por trás do curtailment existe uma assimetria de tempo que o setor conhece bem, mas que o planejamento nunca corrigiu de forma estrutural.
“Um parque de geração solar ou eólica sai do papel em, no máximo, 18 a 24 meses. Uma linha de transmissão de longa distância leva entre 4 e 5 anos para percorrer o licenciamento ambiental, a licitação e a construção. Resultado inevitável: usinas entram em operação comercial sem infraestrutura para escoar o que produzem.
“Esse descompasso não é novo. O que é novo é a escala em que ele opera — e o fato de que o apagão de novembro de 2023 piorou o quadro. Depois do evento, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) passou a priorizar, por critérios de segurança operativa, o despacho de fontes despacháveis — hidrelétricas e termelétricas — mesmo quando mais caras, em detrimento das fontes renováveis intermitentes. Uma decisão compreensível do ponto de vista da estabilidade da rede. Devastadora do ponto de vista do aproveitamento de fontes renováveis.
“A raiz do problema é tríplice: há uma falha de sincronismo entre os cronogramas de geração e transmissão; uma falha de mercado, em que o modelo de despacho penaliza a fonte mais barata em nome da segurança; e uma falha regulatória, traduzida na ausência de incentivos para sistemas de armazenamento em baterias (BESS) que poderiam absorver o excedente e mitigar a intermitência.
“A lógica invertida que pode mudar tudo – A resposta convencional a esse tipo de problema seria simples: construir mais linhas de transmissão. Levar a energia até onde está a indústria.
“Mas existe uma alternativa mais elegante, e economicamente mais robusta. Chama-se powershoring.
“A lógica é a inversão completa do modelo tradicional: em vez de transportar energia a longas distâncias para abastecer indústrias instaladas em outras regiões, o powershoring propõe trazer a indústria para onde está a energia. Instalar complexos industriais eletrointensivos nos próprios territórios de geração, eliminando os custos de transmissão, as perdas elétricas e, de quebra, gerando riqueza na região em vez de exportar apenas elétrons.
“A ideia não é nova no mundo. O que é novo é que o Nordeste brasileiro reúne, hoje, uma combinação raramente vista: energia renovável abundante, barata e com certificação verde — exatamente o que o mercado global mais busca no contexto da descarbonização industrial.
“Os três vetores que transformam excedente em riqueza – Três setores se destacam como âncoras naturais do powershoring nordestino. O primeiro é o hidrogênio verde. Os eletrolisadores industriais que produzem H2V por eletrólise da água são, em essência, grandes consumidores de energia elétrica. Quando instalados próximos a parques geradores, eles podem consumir exatamente o excedente que hoje seria cortado, transformando energia desperdiçada em amônia verde exportável. Os portos do Pecém, no Ceará, e de Suape, em Pernambuco, já têm projetos avançados para escoamento dessa produção para mercados europeus e asiáticos, onde a demanda por insumos de baixo carbono cresce consistentemente.
“O segundo vetor é composto pelos data centers. A explosão da inteligência artificial tornou o setor de computação em nuvem um dos maiores consumidores de energia elétrica do planeta — e a demanda não para de crescer.
“O Brasil consome massivamente serviços digitais que rodam em infraestrutura instalada fora do país. Trazer data centers para o Nordeste significaria aproveitar energia barata e verde, reduzir a latência para usuários brasileiros e criar um polo de infraestrutura digital no país.
“O terceiro é a mobilidade elétrica e a eletrificação industrial. Frotas de veículos elétricos têm um perfil de carga gerenciável e previsível — e os veículos podem funcionar como baterias distribuídas do sistema, absorvendo excedente nos horários de pico de geração e devolvendo energia quando necessário. Junto com a cadeia de biocombustíveis, esses setores representam novos vetores de demanda firme que ajudam a equilibrar a curva de carga regional.
“O que precisa mudar — e não depende de tecnologia – Nenhuma dessas oportunidades se concretiza espontaneamente. O mercado não aloca capital sem sinais claros, e os sinais que o ambiente regulatório brasileiro envia hoje não são suficientemente claros.Três condições são inegociáveis para que a transição ocorra.
“A primeira é segurança jurídica. Contratos de fornecimento de energia de longo prazo — os chamados PPAs verdes, de 15 a 20 anos — são o pré-requisito para que qualquer indústria eletrointensiva tome a decisão de instalar-se na região. Sem estabilidade regulatória, não há decisão de investir.
“A segunda é a criação de sinais de preço eficientes para o curtailment. O mercado precisa de ser capaz de comunicar, em tempo real e por meio de preços, que há excedente disponível e que há custo quando esse excedente não for consumido. Mecanismos de energia interruptível com desconto para grandes consumidores são um caminho testado internacionalmente que ainda aguarda regulamentação adequada no Brasil.
“A terceira — e talvez a mais urgente — é o marco regulatório para armazenamento de energia. A ausência de regras claras de remuneração para sistemas BESS mantém esse mercado represado no Brasil, enquanto outros países já colhem os benefícios de uma rede mais flexível e resiliente.
“A janela não fica aberta para sempre – O mundo está em movimento acelerado rumo à descarbonização industrial. Países europeus e asiáticos estão dispostos a pagar um prêmio por produtos manufaturados com energia renovável certificada. A corrida pelo hidrogênio verde já tem vencedores parciais — e o Nordeste ainda pode entrar competitivamente nessa disputa.
“O Nordeste não enfrenta escassez. Enfrenta um problema de arquitetura — e arquitetura se muda com decisão política, sinal de preço e planejamento integrado.
“A abundância de sol e vento, que por décadas foi descrita como o “futuro” da região, já é o presente. O que falta é transformar esse presente em riqueza local — e não apenas em elétrons exportados, a custo de transmissão, para outros.
A janela de oportunidade é real. E estreita.”
(Observação: O artigo acima baseou-se no Relatório Técnico Analítico e na apresentação proferida pelo autor no painel do Sindienergia na recente Feira da Indústria 2026. Os dados referenciados têm como fontes o Plano Decenal de Energia (PDE 2034), os relatórios da ANEEL e os dados operacionais do ONS.)
Veja também