Corte de tarifas no acordo Mercosul-UE barateia champanhe e chocolate, mas desafia indústria do Ceará
Entenda os prós e contras do tratado para o consumo e para o mercado cearense.
O acordo de livre comércio entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE) vai criar a maior zona de livre comércio do mundo. Um dos impactos do tratado é a redução dos custos de itens importados da Europa para o Brasil, já que o acordo reduz ou elimina tarifas para diversos produtos.
Entre os itens que podem ficar mais baratos estão azeite, champanhe, chocolate e vinhos, com reflexos em todo o território brasileiro. Por outro lado, no Ceará, além da possível queda de preços desses produtos, é preciso ter cautela em relação ao desenvolvimento das cadeias produtivas locais.
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Leia abaixo análises sobre os impactos positivos e negativos do Acordo Mercosul-UE no consumo e no mercado cearense.
Preços mais baratos
Segundo Wandemberg Almeida, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), produtos produzidos na UE e que estão consolidados no bloco europeu podem vir mais competitivos para o Estado.
"Pode trazer um impacto até positivo, porque vamos ter a entrada de vinhos e champanhes e ter um barateamento do produto. Isso pode favorecer para o consumidor final, mas pode ser empecilho para o mercado interno, que estava buscando essa fatia de mercado", declara o especialista.
O desafio, conforme o economista, é como lidar com a questão em meio ao crescimento do setor cearense.
Há um risco de oscilação no preço, principalmente no curto prazo. Como a gente vai ter acesso a esse novo mercado europeu, isso pode trazer mais produtos importados, principalmente aqueles que o mercado europeu tem mais expertise, podendo prejudicar inicialmente a indústria de bebidas alcoólicas no País".
Como ficam as exportações do Ceará?
O principal parceiro comercial do Ceará, quando são consideradas as exportações, são os Estados Unidos. Em 2025, dados da plataforma ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, apontam que 45,5% das comercialização entre o Estado e outro país tiveram como destino o território estadunidense.
Nas importações, a China é a maior parceira comercial do Ceará, com 32,2% do volume em 2025. Quando são considerados membros da UE, a Itália é o principal destino das exportações locais; a Alemanha, por sua vez, é o país no qual mais são importados produtos para o Estado.
Para especialistas ouvidos pela reportagem, o acordo que vai criar uma região de livre comércio entre 32 países (cinco do bloco sul-americano e 27 do europeu) tem benefícios importantes a serem trazidos para o Ceará.
Apesar disso, é fundamental que os representantes cearenses dos setores produtivos analisem as condições impostas pela reconfiguração, que podem pressionar mercadorias já produzidas pelo Estado.
"Ceará tende mais a ganhar do que a perder"
Na análise de Wandemberg Almeida, o Estado tem "produtos exportadores competitivos", como aço e minério de ferro, pescados e frutas, e deve ser mais beneficiado do que prejudicado com o acordo.
"Temos um mercado muito forte e teremos acesso facilitado à Europa. Serão mais de 700 milhões de consumidores agora. Isso vai ajudar a reduzir as tarifas do que é exportado pelo Mercosul para o bloco europeu. Isso ajuda no acesso dos produtores brasileiros a novos mercados, podendo ter aumento no PIB. O Ceará, com a ZPE, com o porto seco, veremos melhoras na logística, o que pode casar com a Transnordestina", lista.
João Mário de França, professor da pós-graduação em Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Pesquisador do FGV Ibre, destaca que a redução gradual ou até mesmo a extinção de algumas tarifas de exportação para os países da UE surge inicialmente como o principal trunfo.
"Além disso, essa redução de tarifas diminui os custos de produção para empresas cearenses que dependem de insumos importados desse mercado no seu processo de produção. Com a perspectiva de aumento das exportações e de integração em cadeias produtivas, isso pode atrair novos investimentos no Estado, alavancando emprego e renda", considera o professor.
O economista e professor Ricardo Eleutério afirma que o acordo é "extremamente positivo" por estimular, sobretudo no caso do Ceará, com clara vocação econômica exportadora, a produtividade.
"Teremos a inserção das empresas e exportações cearenses na economia europeia por meio de mais competitividade; a atração de investimentos, que o comércio internacional também produz", avalia.
Concorrência industrial com UE pode afetar o Ceará
Os três especialistas, no entanto, também salientam que outro desafio está na cadeia produtiva industrial, sobretudo em virtude do elevado desenvolvimento do setor nos países que compõem a UE.
"Pode-se abrir uma concorrência industrial com a UE, que já é competitiva em manufaturas. Esse acordo pressiona setores das indústrias locais, favorecendo a melhor implementação e há um certo ajuste dentro da economia", argumenta Wandemberg Almeida.
Como a tendência é de, gradualmente, as tarifas de importações e exportações, de modo geral, serem retiradas, Ricardo Eleutério observa que o setor industrial cearense terá de se reorganizar para manter a competitividade frente à futura entrada dos produtos europeus no Estado.
"Vamos nos deparar com produtos que vão ingressar na economia cearense com maior competitividade por causa da redução e remoção de tarifas. Precisamos estar preparados, que é um desafio diante dessa maior concorrência internacional que deve se estabelecer no nosso Estado e no Brasil como um todo", alerta o professor.
Para João Mário de França, o mercado cearense precisa mostrar atenção principalmente com as rígidas legislações europeias para produtos agropecuários. Há quase uma década, as importações de pescados brasileiros para os países da UE estão suspensas por irregularidades.
Haverá uma série de desafios. Diante do aumento da concorrência interna em certos setores, vai exigir uma maior competitividade das empresas cearenses, além de adaptação o mais rápido possível a adoção de certas práticas ambientais e sanitárias exigidas pela comunidade europeia que acabam funcionando como barreiras não tarifárias".
Agro prevê impactos positivos, mas mostra atenção com leite
Amílcar Silveira, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), enfatiza que o acordo entre os dois blocos econômicos trará resultados benéficos para a cadeia local, especialmente para setores como a criação de camarão, na qual o território cearense é líder nacional, e a fruticultura.
"Acho que o acordo é benigno, faz muito bem ao agronegócio do Brasil. É uma oportunidade de a gente crescer. Temos competitividade para brigar com o europeu, só não podemos enfrentar porque a Europa é um continente rico e, infelizmente, não temos essa força pra competir com subsídios. Fora isso, está tranquilo. Nos critérios normais de enfrentamento, estamos tranquilos, é ótimo para nós", pondera.
O desafio do setor, de acordo com ele, está na cadeia produtiva do leite. Amílcar diz que produção nos países da UE é subsidiada, algo que não acontece atualmente nem no Ceará nem no Brasil, segundo ele.
"Acho que o leite vai perder, mas todos os outros produtos vão ganhar. O produtor de leite europeu consegue vender o leite mais barato. O objetivo lá não é lucro, porque o lucro lá é o subsídio que ele tem. Não vamos conseguir competir aqui com isso, mas o resto, estamos tranquilos", decreta.
Impacto para o comércio no Ceará
O presidente da CDL de Fortaleza, Maurício Filizola, avalia que o acordo atua como um catalisador de profissionalização do varejo. Segundo ele, a abertura gradual do mercado amplia o acesso a produtos importados, eleva o padrão de qualidade percebido pelo consumidor e intensifica a comparação entre preço, valor e experiência, sem significar, necessariamente, uma invasão imediata de produtos europeus no pequeno comércio.
Para Filizola, a pressão ocorre de forma indireta, por meio de grandes redes, marketplaces e cadeias mais estruturadas, que passam a operar com mais opções de fornecimento e maior poder de negociação.
Nesse contexto, o dirigente afirma que o varejo tradicional deixa de competir apenas com a loja vizinha e passa a disputar a atenção de um consumidor cada vez mais informado, conectado e exigente. Ele destaca que o produto, isoladamente, perde protagonismo, enquanto ganham relevância a forma como é apresentado, contextualizado e entregue.
“Atendimento qualificado, conhecimento do cliente, conveniência, pós-venda e relacionamento passam a ser ativos estratégicos, e a loja assume, cada vez mais, o papel de espaço de experiência e confiança”, afirma.
Filizola aponta ainda que o acordo expõe fragilidades de modelos baseados em estoque elevado, baixa rotatividade e decisões intuitivas. Segundo ele, a maior concorrência tende a pressionar margens, exigir controle mais rigoroso de custos e tornar inviável a improvisação, afetando primeiro a rentabilidade e depois a relevância do varejo que não acompanha esse movimento.
Por outro lado, aqueles que dominam indicadores de gestão, trabalham o mix com critério e entendem o comportamento do público encontram uma oportunidade de reposicionamento.
Na avaliação do presidente da CDL, há também um efeito positivo estrutural, ainda que menos imediato, com a elevação do padrão de exigência do mercado, que induz melhorias em toda a cadeia, como fornecedores mais eficientes, logística mais organizada, processos mais claros e equipes mais capacitadas.
Para ele, o acordo tende a representar mais oportunidade do que ameaça para o varejo tradicional no Ceará, ao premiar quem entende que vender vai além da transação e envolve interpretar o cliente, agregar valor, construir vínculo e operar com mentalidade empresarial.
Calçados projetam crescimento
A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) projeta uma expansão agressiva das exportações para os países-membros da UE. Conforme análise de Haroldo Ferreira, presidente-executivo da entidade, é esperada uma alta de 60% até 2041.
"Os calçados de couro, que respondem por 45% dos valores exportados pelo Brasil à UE, devem alcançar a eliminação tarifária total em até sete anos. Além disso, o acordo comercial deve contribuir para uma maior diversificação da pauta exportadora brasileira, abrindo maior espaço nos demais segmentos, como calçados têxteis e sintéticos, cuja tarifa é de 17% nos países da UE", explica.
"Resumindo, o acordo comercial tende a elevar a inserção e competitividade dos calçados brasileiros no mercado europeu, hoje marcado, além do comércio intra-UE, por forte presença asiática - que representa mais de 50% dos valores importados - e por acordos já vigentes, como o firmado com o Vietnã em 2020", projeta Haroldo Ferreira.
Indústria cearense ressalta 'pontos de atenção' com o acordo: "não será rápido"
A presidente do Conselho de Relações Internacionais (CIN) da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Karina Frota, reforça que o acordo entre os dois blocos econômicos ainda é provisório, por mais que haja uma data firmada para a assinatura formal do tratado.
Ela ainda ressalta que as tarifas "serão eliminadas/ajustadas de forma progressiva", e que "alguns produtos estarão sujeitos a cotas". Karina também indica que deve demorar para que o setor produtivo cearense perceba os efeitos do acordo.
"O acordo é um mecanismo estrutural, de longo prazo, por esta razão a aplicação tende a ser um pouco lenta. O Brasil torna-se visível para a integração industrial e prestação de serviços com maior valor agregado, reduzindo a dependência de exportações primárias no longo prazo", reflete.
Inicialmente, Karina Frota acredita que calçados, frutas e demais produtos agrícolas podem ser os principais beneficiados, mas outras cadeias produtivas não estão descartadas.
"O acordo deve promover impactos significativos sobre os investimentos bilaterais, ao ampliar a previsibilidade regulatória, reduzir barreiras tarifárias e facilitar o comércio e investimento", conclui a presidente do CIN.
Veja os principais pontos do acordo:
1. Eliminação de tarifas alfandegárias
- Redução gradual de tarifas sobre a maioria dos bens e serviços;
- Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
- União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.
2. Ganhos imediatos para a indústria
- Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais. De imediato, alguns setores brasileiros devem sentir os benefícios, como o de máquinas e equipamento; automóveis e autopeças; produtos químicos; e aeronaves e equipamentos de transporte.
3. Acesso ampliado ao mercado europeu
- Empresas do Mercosul ganham preferência em um mercado de alto poder aquisitivo;
- UE tem PIB estimado em US$ 22 trilhões;
- Comércio tende a ser mais previsível e com menos barreiras técnicas.
4. Cotas para produtos agrícolas sensíveis
- Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação. Acima delas, será cobrada tarifa;
- Cotas crescem ao longo do tempo, com tarifas reduzidas, em vez de liberar entrada sem restrições. Mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus;
- Na UE, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil;
- No mercado brasileiro, chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.
5. Salvaguardas agrícolas. UE poderá reintroduzir tarifas se:
- Importações crescerem acima de limites definidos;
- Preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;
- Medida vale para cadeias consideradas sensíveis.
6. Compromissos ambientais obrigatórios
- Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;
- Cláusulas ambientais são vinculantes;
- Possibilidade de suspensão do acordo em caso de violação do Acordo de Paris.
7. Regras sanitárias continuam rigorosas
- UE não flexibiliza padrões sanitários e fitossanitários;
- Produtos importados seguirão regras rígidas de segurança alimentar.
8. Comércio de serviços e investimentos, com redução de discriminação regulatória a investidores estrangeiros. Avanço em setores como:
- Serviços financeiros;
- Telecomunicações;
- Transporte;
- Serviços empresariais.
9. Compras públicas
- Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE;
- Regras mais transparentes e previsíveis.
10. Proteção à propriedade intelectual
- Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;
- Regras claras sobre marcas, patentes e direitos autorais.
11. Pequenas e médias empresas (PMEs)
- Capítulo específico para PMEs;
- Medidas de facilitação aduaneira e acesso à informação;
- Redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.
12. Impacto para o Brasil
- Potencial de aumento das exportações, especialmente do agro e da indústria;
- Maior integração a cadeias globais de valor;
- Possível atração de investimentos estrangeiros no médio e longo prazo.
13. Próximos passos
- Assinatura prevista para o próximo sábado (17), no Paraguai;
- Aprovação pelo Parlamento Europeu;
- Ratificação nos Congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai;
- Entrada em vigor apenas após conclusão de todos os trâmites;
- Acordos que extrapolam política comercial precisam ser aprovados pelos parlamentos de cada País.
*Com informações da Agência Brasil.