Mais da metade das cidades do Ceará têm situação fiscal crítica ou difícil; veja ranking

Baixa autonomia e planejamento financeiro marcam cenário cearense, diz estudo

Escrito por
Letícia do Vale leticia.dovale@svm.com.br
Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição com estátua de Maria e o Menino Jesus em Capistrano, no interior do Ceará, sob céu nublado.
Legenda: Capistrano é o município cearense com o pior índice de gestão fiscal.
Foto: Prefeitura de Capistrano

Cerca de 58% dos municípios cearenses analisados no Índice Firjan de Gestão Fiscal (IFGF) tiveram as gestões fiscais classificadas como insatisfatórias em 2024

A pesquisa foi realizada pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) e busca analisar a situação das contas públicas municipais, mostrando como as prefeituras administram os recursos.

Veja também

No estudo, o valor do IFGF atribuído a cada cidade varia entre 0 e 1 e pode ser classificado da seguinte forma:

  • Crítico: resultados inferiores a 0,4 ponto;
  • Difícil: resultados entre 0,4 e 0,6 ponto;
  • Bom: resultados entre 0,6 e 0,8 ponto;
  • Excelente: resultados superiores a 0,8 ponto.

Assim, 104 das 181 cidades cearenses listadas na pesquisa apresentaram taxas de IFGF críticas ou difíceis. 

Em comparação com o cenário brasileiro, a realidade do Ceará continua desfavorável. O IFGF médio do Estado alcançou 0,5491 ponto, 15,9% abaixo da média nacional (0,6531 pontos)

Para calcular o IFGF de cada cidade, o estudo levou em consideração quatro indicadores: autonomia, gastos com pessoal, liquidez e investimentos.

Os dados foram coletados com base em resultados fiscais oficiais, declarados pelas próprias prefeituras à Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

As cidades de Graça, Meruoca e Penaforte não foram analisadas no estudo pois apresentaram informações inconsistentes ou indisponíveis. 

Mesmo com esse panorama desvantajoso, 69 (38%) prefeituras terminaram o ano com boa situação fiscal, enquanto oito (4%) municípios apresentaram uma excelente gestão fiscal. 

Apenas uma cidade atingiu nota máxima no índice: São Gonçalo do Amarante. 

As 10 cidades cearenses com as piores gestões fiscais segundo o IFGF 

Posição Cidade IFGF 
1 Capistrano 0,097
2 Tarrafas     0,1235
3 Poranga     0,1363
4 Iracema     0,1879
5 Carnaubal     0,217
6 Potengi     0,2334
7 Bela Cruz 0,2354
8 Campos Sales 0,2745
9 Barro     0,2844
10 Palhano 0,2878

Por que esse resultado?

A falta de uma gestão fiscal eficiente impossibilita a aplicação de recursos para o desenvolvimento econômico do município. Assim, além de dificultar o investimento em iniciativas como escolas e unidades de saúde, o cenário torna as cidades vulneráveis frente à eventualidades negativas, limitando os recursos para lidar com adversidades. 

Segundo o professor de Economia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), Rafael Barros Barbosa, essa realidade é comum no Nordeste

O especialista explica que as baixas taxas no IFGF são resultado da dificuldade de arrecadação e alta dependência de recursos federais ou estaduais apresentados pelos municípios. 

“Regiões que têm baixa atividade econômica, em geral tem uma atividade informal muito grande. E aí os mecanismos que fazem a economia funcionar não passam por canais legais que permitem a arrecadação dos municípios”
Rafael Barros Barbosa
Professor de Economia da UFC e pesquisador do FGV IBRE
 

Além disso, Rafael acredita que a elevada dependência de recursos transferidos externamente desestimula gestores a incrementarem a arrecadação municipal

O combate desse contexto não é simples e passa pelo enfrentamento de elementos estruturais, alerta. 

No entanto, o professor cita algumas estratégias que podem auxiliar as gestões municipais, como formalizar propriedades de imóveis para obter tributos via Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e incentivar a formalização profissional

“Mas veja, o problema é de desenvolvimento econômico estrutural da própria região. Então teria que ter um avanço de longo prazo e mais persistente para que essa realidade conseguisse se modificar”, ressalta. 

Fortaleza é somente a 17ª capital brasileira com melhor gestão fiscal

Paralelamente, Fortaleza apresentou uma boa gestão fiscal na pesquisa, registrando nota 0,7532 no IFGF. 

Apesar disso, a cidade ficou somente na 17ª colocação no ranking das capitais brasileiras com melhores índices de gestão fiscal.

Na visão de Rafael, a Capital acabou na segunda metade da lista devido aos baixos índices nos critérios de gastos com pessoal e liquidez

Nesse sentido, a melhor estratégia para o município avançar no ranking, na visão do especialista, seria diminuir os gastos da cidade.

“Fortaleza arrecada e tem uma boa autonomia. Se for possível controlar melhor os gastos, ela consegue manter um caixa melhor”, pondera. 

IFGF - Ceará

181
cidades cearenses analisadas
 

34 (19%)
cidades cearenses classificadas como crítico

70 (39%)
cidades cearenses classificadas como difícil

69 (38%)
cidades cearenses classificadas bom

8 (4%)
cidades cearenses classificadas como excelente

 

Newsletter

Escolha suas newsletters favoritas e mantenha-se informado
Este conteúdo é útil para você?