Crise não inibe e número de cearenses na Bolsa de Valores salta 43%

Mesmo com circuit brakers sucessivos em março e a instabilidade trazida pelo novo coronavírus, o investidor do Estado bateu recorde de crescimento no número de participantes na B3 entre janeiro e abril deste ano

Legenda: Mais conhecimento e quedas na rentabilidade de outros títulos de renda fixa devido à baixa histórica da Selic atraíram mais investidores para a B3

Contrariando a ideia de que, em momentos de crises, cresce o nível de aversão a ativos de risco, o investidor brasileiro, em geral, e o cearense, em particular, acabou aumentando de maneira significativa sua presença na bolsa de valores ao longo de 2020. Mesmo diante de uma das maiores crises econômicas já vistas, o número de investidores pessoa física cresceu de forma consistente desde janeiro, mês após mês.

No Ceará, a quantidade de investidores passou de 30.127, no último dia de 2019, para 43.823, no fim de abril, um incremento de 45% e um recorde histórico para o Estado. E se forem considerados os investidores de todo o País, o incremento foi de 42%.

Além dos motivos que, desde o ano passado, já vinham atraindo investidores para o mercado de capitais, como a queda da taxa básica de juros (Selic), que derrubou a rentabilidade dos títulos de renda fixa, o que se tem visto no decorrer deste ano é o pequeno investidor buscando aproveitar a queda dos preços para comprar ações, diferente do que ocorria em outros momentos de crise, quando a reação normal era buscar segurança em ativos com menor volatilidade. Em março, pior mês do ano para a bolsa, quando o Ibovespa despencou mais de 30% com a ocorrência de seis circuit breakers, a quantidade de investidores cearenses cresceu 10%, com a chegada de mais de 5 mil novas pessoas.

Informação

Para Raul dos Santos Neto, vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE), o movimento que tem sido observado agora se deve também ao maior grau de informação por parte do investidor, maior entendimento dos riscos envolvidos, e à facilidade em realizar as operações. "O nível de conhecimento sobre o mercado financeiro ampliou-se. Profissionais que não são da área, como médicos e advogados, têm participado mais do mercado. Além disso, há o auxílio das plataformas de negócios, de corretores independentes e dos grandes bancos, que ajudaram na conscientização sobre o mercado de ações".

O vice-presidente do Ibef-CE destaca ainda a atratividade dos preços dos ativos, após as recentes quedas. "Mesmo diante da queda recente da bolsa, no início da pandemia, em março, as pessoas continuam sacando fortemente recursos de renda fixa e de produtos tradicionais e ampliando suas posições em bolsa", diz Raul dos Santos. "A bolsa neste momento está extremamente descontada, com empresas subavaliadas, de modo que há muita oportunidade de ganho no mercado".

Quando registrou seu ponto mais baixo de 2020, no dia 23 de março, aos 63 mil pontos, o Ibovespa amargava uma queda de 46% no ano. Mas, desde então, a bolsa já subiu 22%, reduzindo a queda do ano para 33%. Com o aumento de participação, o investidor pessoa física representa hoje cerca de 25% das negociações da B3 em maio, a maior participação desde agosto de 2010, quando eram 27%. Naquela época, a Bolsa chegou a 610 mil CPFs, recorde batido apenas sete anos depois. Hoje, no entanto, são 2,385 milhões de CPFs cadastrados.

Mesmo diante de oportunidades pontuais no mercado, é preciso ter cautela na escolha dos ativos. "Apesar desse cenário muito complexo a gente ainda vê pessoas físicas entrando na bolsa de valores. E isso é um pouco diferente de do que a gente via em outras crises", diz o economista Gilberto Barbosa, do escritório Arêa Leão. "Mas a gente ainda está em um cenário de muita incerteza", ele diz.

Para Raul dos Santos, no caso específico do Ceará, também contribui para a popularização dos investimentos em ações é a participação de empresas cearenses na bolsa. "Aqui nós temos empresas como a M. Dias Branco, a Hapvida, a Arco (plataforma de ensino), o que acaba despertando muito a curiosidade das pessoas", ele diz. "Além disso, mais recentemente houve um fato muito importante que deve ser destacado, que é o aumento da tolerância a risco. O Brasileiro enxergava o mercado de ações como sendo de extremo risco, mas isso se dava muito mais por não conhecer esse mercado do que propriamente pelo risco em si. O que se vê hoje são pessoas mais tolerantes, buscando rentabilizar melhor os seus recursos".

Investidor estrangeiro

Por outro lado, enquanto o investidor brasileiro vem ampliando suas posições, sustentando a recuperação da Bolsa, que saiu dos 63 mil pontos após os tombos de março para 80 mil pontos em maio, os investidores estrangeiros tiveram, em 2020, a maior saída já registrada, com a retirada de R$ 71 bilhões do mercado de capitais brasileiro desde janeiro. "Com o dólar alto e a taxa de juros muito baixa cria um ambiente que faz com que o investidor estrangeiro deixe o País", diz Raul dos Santos.

No entanto, o vice-presidente do Ibef-CE espera que, tão logo essa crise passe, o mercado volte a receber novas empresas, como vinha ocorrendo até o início do ano, com abertura de capital de novas companhias. "Em breve, deverão entrar no mercado de bolsa novos players, ampliando o leque de opções para o investidor, como a própria Cagece, que já vinha preparando o IPO, e deu uma segurada por conta dessa crise. Mas assim que houver uma retomada as coisas deverão acontecer".

Para Gilberto Barbosa, com a Selic no patamar mais baixo da história e com a expectativa de mais cortes, a tendência é que o investidor continue buscando oportunidades na bolsa de valores.