Andreea Pal: movimentação no Aeroporto prevista antes da pandemia só deve retomar em 7 anos

Ao Diário do Nordeste, CEO da Fraport Brasil, concessionária do Aeroporto de Fortaleza, fala de expectativas positivas para a movimentação doméstica diante da postura do brasileiro em relação à vacina

Escrito por Carolina Mesquita | Ingrid Coelho,

Negócios
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Legenda: Andreea Pal, CEO da Fraport Brasil
Foto: Fabiane de Paula

Uma das maiores transformações provocadas pela pandemia de coronavírus em todo o mundo foi sentida pelo turismo. E no Brasil, apesar de uma boa resposta dos visitantes domésticos ao setor nos últimos meses, retomar o curso de dois anos atrás deve levar um bom tempo.

Para recuperar o patamar de movimentação de passageiros projetado antes da pandemia - em 2019 - será preciso aguardar de seis a sete anos, na avaliação da CEO da Fraport Brasil, Andreea Pal, considerando a evolução atual do cenário.

"Nossa meta deve ser voltar ao nível de movimentação de passageiros esperado antes da pandemia. E não falo só de voltar ao nível de 2019, a gente tem que voltar ao nível esperado antes da pandemia", pontua Andreea em entrevista ao Diário do Nordeste para o Diálogo Econômico desta semana.

Ela reforça que essa recuperação depende do mercado das companhias aéreas. "A gente tem a infraestrutura, mas a decisão de voar ou não voar é tomada só pelas companhias", destaca Andreea.

Veja a entrevista completa:

Qual o impacto da pandemia? Ela foi maior que o previsto? 

Quando tudo começou, em março de 2020, eu expliquei ao nosso time que minha expectativa era ter de sete a oito semanas de problemas e que depois tudo voltaria mais ou menos ao normal. 

Mas infelizmente se passaram quase dois anos e ainda nós estamos voltando ao normal. Tivemos dois momentos extremamente críticos entre março e junho de 2020 e de novo em 2021 entre abril e junho, onde nossa receita foi quase zero. 

O número de voos caiu, acho que em 2020 foi 2 a 3%. E em 2021 foi 4%. 

E com todos os restaurantes fechados, dentro desses dois anos tivemos cerca de três meses em que não recebemos praticamente nada. 

Para nós, depois do programa de investimentos em que gastamos quase R$ 800 milhões, uma parte desse dinheiro tem que retornar do mercado. Se você não tem passageiros, você não tem clientes, porque tudo está fechado. A situação foi extremamente difícil. 

Conseguimos passar por isso. Agora, neste momento, estou otimista. Acho que Brasil não vai experimentar o que ocorre hoje em dia na Europa com a quarta onda por causa da disciplina e entendimento da população aqui no Brasil sobre a vacina. 

Naturalmente, a movimentação doméstica do aeroporto é muito boa. Esperamos ter em dezembro cerca de 93% do que tivemos antes da pandemia. A verdade é que ninguém sabe o que vai acontecer depois, em fevereiro e março.

Legenda: "Do ponto de vista da movimentação doméstica, estamos otimistas para o próximo ano", diz Andreea Pal
Foto: Fabiane de Paula

Do ponto de vista da movimentação doméstica, estamos otimistas para o próximo ano. Na parte internacional, como todo o mundo, estamos sofrendo muito. Agora, com a quarta onda e a nova variante, não se sabe se os Estados Unidos vão fechar de novo. 

Essa esperança que tínhamos de ver a retomada dos voos para os Estados Unidos a partir de Fortaleza parece, portanto, que de novo volta ao estágio de espera.

Isso impacta bastante, porque Fortaleza se desenvolveu em curto tempo um hub regional. Muita gente viajou do Brasil para Fortaleza para sair daqui para os Estados Unidos e Europa. Isso vai faltar, obviamente. 

Mas comparando com a situação na Europa, onde nossa matriz fala de 40% a 50% do tráfego normal, a gente está muito bem. 

A Air France-KLM retomou recentemente os voos para Paris. Há algum risco dessa nova variante e a quarta onda na Europa interferirem nessa retomada?

Eu observo que os políticos na Europa tentam balancear a situação e não tomar muitas medidas como lockdown. Mas como a pandemia avança e vi que a França colocou novas restrições, acho que não podemos excluir que eles possam parar de novo. 

Do ponto de vista do Brasil, se o País não fechar a fronteira para pessoas que chegam da Europa, acho que os voos permanecem, porque muitos europeus querem viajar. 

Os brasileiros também querem viajar, mas ir para a Europa agora não é tão agradável, porque você precisa do teste e talvez nem todas as vacinas daqui sejam reconhecidas, o que não permitiria entrar em restaurantes, etc. 

Por isso, o fluxo daqui para lá provavelmente não seria tão grande. O fluxo da Europa para cá acho que poderia ser bom, porque a situação na Europa não é tão boa.  

A gente quer viajar e como o Brasil tem um número muito baixo de infecções e está quase tudo aberto, normal, pode ser que tenhamos mais turistas da Europa entrando no Brasil. 

Você já mencionou que Fortaleza está voltando a ter um número de voos melhor do que Frankfurt (sede da Fraport). Como estamos em relação aos demais terminais brasileiros e do Nordeste? 

Eu acho que todos os aeroportos brasileiros que ficam na entrada ou em uma região turística estão desenvolvendo bem. 

O que acontece agora é que as pessoas que planejavam passar as férias no exterior estão permanecendo no Brasil. Por isso, a gente vê uma recuperação, mas não são os mesmos clientes que tínhamos antes da pandemia. 

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Foto: Fabiane de Paula

O lugar dos clientes de negócios que já não viajam tanto foi tomado pelos turistas que estão visitando o Brasil e não indo para o exterior. 

Tem alguma obra em andamento atualmente no aeroporto? As intervenções iniciais previstas no contrato já foram todas executadas? 

No terminal, não temos nada em andamento. Estamos fazendo poucas melhorias, portanto, não. 

As obras foram concluídas em 2020. Infelizmente não conseguimos aproveitar muito, os passageiros não conseguiram, porque foi tudo fechado. 

A pista foi terminada ainda antes, mas não conseguimos homologar por causa da pandemia. 

A homologação exige o trabalho de três ou quatro departamentos. Em um momento, tínhamos pessoas com Covid em um departamento, depois em outro, depois em outro. 

Precisamos de um ano para homologar apenas uma cabeceira. Agora, ainda falta a outra cabeceira. 

Temos que esperar a instalação de um novo equipamento de navegação, que não chegou por causa da pandemia, atrasando os fornecedores. 

Quando esse equipamento for instalado, em março ou abril do próximo ano, então poderemos finalizar a última parte da homologação. Mas a obra está concluída. 

Quero mencionar que fizemos uma obra que os passageiros não podem identificar. Foi uma reforma total no subsolo e agora não só nosso time que utiliza o espaço, mas também os terceirizados e outras autoridades agora têm um espaço novo, reformado, moderno, limpo. 

Também fizemos um balcão de receber credenciais completamente novo, com uma sala de espera. Ainda não está aberto porque estamos fazendo algumas melhorias de segurança. 

E construímos uma rampa. Quando você chega ao aeroporto, para ir ao estacionamento você tem que ir até o elevador ou ir pela escada. Agora construímos uma rampa que permite ir com o carrinho e chegar ao estacionamento mais rápido. 

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Foto: Fabiane de Paula

Trocamos os elevadores e escadas. Tudo isso não era parte da nossa obrigação. Estamos melhorando tudo pouco a pouco. 

A rampa já está pronta? 

A rampa está pronta. A única coisa que falta é o bate roda, porque a rampa tem paredes de vidro e isso pode representar algum perigo se as pessoas baterem com o carrinho, apesar do vidro ser seguro. 

Devemos começar isso esta semana (semana passada) e precisamos de duas a três semanas para finalizar. 

Atualmente, qual o percentual de espaço locado no Aeroporto? 

Estamos com mais ou menos 80% de ocupação, ainda temos 20% a ser ocupado.

A Sala Vip estava prevista para ser entregue em agosto do ano passado. Como estão essas tratativas? 

A sala está finalmente em construção. Esperamos que seja entregue este ano ainda. Vou visitar a obra para ver se é verdade ou não. 

O grupo que opera se chama Ambaar. É uma empresa que está se especializando em operação de salas vip. 

Nós queríamos abrir a sala vip junto com o terminal, o contrato estava assinado, negociado, mas começou a pandemia e eles pararam, porque era óbvio que não iam ter muitos clientes. 

Então toda essa demora não é porque a gente não pensou, organizou ou planejou. É simplesmente porque uma sala vip precisa de um investimento e todas as companhias não tiveram como investir sem saber quando essa situação iria se regularizar. 

Quais companhias terão acesso? 

Essas negociações são do operador com as diversas companhias. Eu não sei agora dizer como vão negociar. 

Normalmente, é preciso ter clientes. Acho que elas vão ter algum acordo com as companhias aéreas, mas também com a American Express, Priority Pass, Bradesco, essas empresas que entregam um cartão de crédito com benefícios. 

Mas essa é exatamente a tarefa do operador: organizar bebidas e comidas, mas o negócio deles é atrair clientes e fechar acordos com bancos e outras instituições que entreguem clientes. 

Havia negociações com alguns interessados para a construção do hotel. Foi fechado acordo com algum deles? 

Infelizmente, falamos com muitos e até agora não conseguimos fechar com ninguém, porque é exatamente a mesma situação da sala vip. 

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Foto: Fabiane de Paula

Ainda há muita instabilidade no mercado e não conseguimos. Mas estamos negociando com grupos que tenham interesse em investir na parte logística aqui e também estamos muito mais positivos quanto ao mercado. 

São investidores locais, mas pode ser que o financiamento seja estrangeiro. Mas os investidores são todos locais. 

A recuperação da movimentação de carga está se dando no mesmo ritmo que a de passageiros? 

Está, mas comparado com 2019 ainda nos faltam elementos que não vão voltar tão rápido e o mais importante que falta são os voos internacionais, porque muito do crescimento da carga em 2019 foi devido aos voos internacionais que, junto com os passageiros, também poderiam levar ou trazer carga da Europa e dos Estados Unidos. 

Isso ainda falta. Agora, com a recuperação da Air France-KLM e TAP temos um pouco mais, mas os fluxos ainda não retornaram ao que era. 

O projeto para a área militar já foi concluído? 

Não concluímos ainda, vamos anunciar quando concluirmos, mas estamos negociando para o desenvolvimento do centro logístico. 

A Fraport teve algum papel direto no projeto ou financiamento dessa estação do VLT que está sendo construída? Há expectativa de que a experiência do passageiro melhore? 

Esse é um investimento do Governo do Estado. A gente não tem contribuição nisso. Naturalmente, eles estão construindo no terreno estadual. A gente tem obviamente uma interface, mas apenas isso. 

Não estamos implicados nesse projeto, só conhecemos e concordamos com a posição do Estado para não interferir em outros projetos e no caminho do passageiro. 

A experiência nós vamos ver como o passageiro aceita isso. Aqui, os passageiros turísticos  não vêm muito para permanecer em Fortaleza, muitos saem pelo litoral. E provavelmente não vão aproveitar a estação. 

Outros que moram em Fortaleza, vamos ver se aceitam essa movimentação ou se preferem pegar um carro que as leve diretamente ao destino. Não posso dizer ainda. 

O foco da Fraport hoje é recuperar os voos e a movimentação perdida durante a pandemia? 

Nossa meta deve ser voltar ao nível de movimentação de passageiros esperado antes da pandemia. E não falo só de voltar ao nível de 2019, a gente tem que voltar ao nível esperado antes da pandemia. 

Para ver essa recuperação, precisamos de seis a sete anos da maneira como as coisas estão andando agora.  

Fizemos um bussiness case e nele a pandemia com esse período tão grande de queda com certeza não era planejado. 

Esse reequlíbrio que recebemos da Anac não vai fechar o buraco que foi aberto. Então a gente tem que lutar para voltar ao nível esperado de antes.  

Se vamos conseguir ou não depende muito do mercado em geral das companhias aéreas, porque a gente tem a infraestrutura, mas a decisão de voar ou não voar é tomada só pelas companhias. 

O mais importante é o mercado. Temos muita gente querendo viajar para Fortaleza ou sair de Fortaleza.