Quero mesmo minha vida normal de volta?

Opinião da psicóloga analítica Érica Bandeira Machado

Estamos vivendo coletivamente um momento único para a humanidade. A pandemia que estamos atravessando tem provocado grandes mudanças em todas as esferas da nossa sociedade, desde mudanças na economia, na política, no trabalho, nos estudos, nas relações sociais e familiares, até mudanças de foro mais íntimo, na rotina e hábitos do dia-a-dia, nas formas de interação e contato com o mundo, que cada vez se dá de forma mais virtual.

Estamos em um cenário que não escolhemos, mas que se impôs sobre nós, trazendo, junto com as mudanças e perdas, as angústias pela falta da perspectiva de quando a pandemia acabará e de quando a vida poderá a voltar ao normal, se é que voltará. Onde estamos? Para onde estamos indo como sociedade e como pessoas? Quero, nesse texto, voltar-me mais aos desafios e dores emocionais que estamos atravessando. Sou psicóloga clínica e, no consultório, as pessoas estão trazendo o sofrimento diante de inúmeras perdas que afetam as emoções. Quando falamos de perda, estamos falando de luto. O luto não acontece só quando pessoas queridas morrem.

Na verdade, o luto está ligado a qualquer tipo de perda, seja de um ente querido, seja de um emprego, de uma relação que acabou, de uma rotina que foi modificada, de um projeto que não terá mais seguimento. Nós estamos vivendo diversos tipos de luto e exprimentando todas as emoções e fases a ele relacionadas.

Estamos enlutados pela perda da vida que conhecíamos, e cada pessoa lida com perdas de uma forma diferente, particular. Sem dúvida, a pandemia é um golpe no nosso narcisismo. Numa sociedade em que a produtividade, as conquistas materiais e sociais nos elevavam ao topo do "tudo posso", passamos ao polo do "nada posso".

Não podemos trabalhar (exceto serviços essencias), não podemos sair de casa sem justificativa, não podemos nos reunir, não podemos, não podemos. Obviamente, ações necessárias e recomendadas pelas autoridades competentes, que precisam da colaboração de todos nós. Porém, certamente nos impacta economicamente, socialmente, emocionalmente. Nada do que construímos, nem mesmo privilégios econômicos ou sociais que muitos possuem, permite o escape da frustração que chegou a todos, de diferentes formas e com diferentes consequencias, é claro, mas todos nós estamos vivenciando algum tipo de perda.

Nesse momento, as fases do luto são vivenciadas uma a uma, às vezes em ordens distintas para cada um, às vezes com oscilações, mas estamos todos vivenciando uma espécie de montanha-russa emocional.

Queremos a nossa vida de volta, do jeito que a conhecíamos: nossa rotina de sempre, tudo que nos nutria, estruturava, organizava, nos dava sentido e propósito.

Tudo isso agora se encontra bloqueado, obstruído, obrigado a se modificar e, no meio de tudo, ainda atravessamos uma crise política e econômica, colapso no sistema de saúde e milhares de mortes, num pesadelo sem data para acabar.

Mas tem algo importante a ser notado: todos que estão sofrendo em maior ou menor grau, que atravessam dias piores de desânimo, estão, na verdade, psicologicamente saudáveis, pois estão sintonizados com o momento coletivo, estão em consonância com a coletividade. Estranho ou desajustado seria alguém estar feliz, com alta produtividade, super energizado e animado a todo momento. Esse estado, na verdade, estaria mais próximo de um estado maníaco, irreal, derivado, talvez, de uma negação que pode até ser patológica.

A negação é uma fase do luto e todos nós passamos de alguma forma por ela. É quando a realidade é tão dura que a única maneira possível de lidar é negá-la, fingir que não existe, minimizá-la, distorcê-la. Porém, no avanço da elaboração do luto, tendemos a superar essa fase e ir experimentando outras. Depois da negação, sentimos raiva. "Por que isso está acontecendo? Vou perder todas as coisas que construí?" Vejo muitas pessoas expressando raiva nas redes sociais, raiva da China, dos Estados Unidos, dos governantes etc.

Depois, a ficha vai caindo e entramos na fase da negociação: "Ok, fico em casa, mas pelo menos vou à praça caminhar!"; "Se eu não pegar a Covid-19, prometo fazer doações" etc. Lutamos e fazemos concessões para ter alguma forma de controle, pois ainda não estamos preparados para lidar totalmente com a perda. Até que a ficha cai de vez e vivenciamos uma profunda tristeza: "A vida nunca mais voltará a ser como antes"; "Isso não vai passar tão cedo"; "Não quero fazer nada hoje, iria fazer o quê?".

Até que o momento da desesperança dá lugar à aceitação, em que admitimos a derrota e a impotência diante de tudo aquilo que não temos controle, e isso nos permite olhar para a realidade de forma mais racional e prática, e começamos a tomar atitudes diante daquilo que podemos controlar

"Ok, diante disso, o que posso fazer? Como posso ganhar dinheiro? Como posso me proteger e proteger as pessoas que amo? De que disponho para ver as pessoas que amo nas condições e realidade em que me encontro?". Aqui, encontramos um ponto de virada, em que começamos a nos adaptar à nova realidade e a criar uma nova forma de viver. O sofrimento é inerente ao ser humano. Uma vida que exclui o sofrimento, que foge compulsivamente dele com receitas, fórmulas e personais da felicidade e do desempenho está fadada a encontrá-lo potencializado mais à frente.

Não é possível a autorrealização se não tivermos a capacidade de entrar em contato com o nosso sofrimento, se não aprendermos a enfrentar a nossa própria solidão, incapacidades, impotências. A pandemia e o isolamento que dela advém podem estar nos dando a oportunidade de olhar para dentro de nós, dando um tempo daquela vida que nos tirava de nós mesmos e que por isso mesmo nos adoecia.

Diante das nossas atuais impotências, somos desafiados a buscar novas formas de presença, de relação, de trabalho, novas formas de se exercitar, de cuidar da higiene, dos alimentos. O velho se foi. Não tem mais lugar. E é normal sofrer por essa perda. Só não precisa acabar aí.

Qual o sentido da vida a não ser inventar para ela um sentido? O que precisamos soltar, deixar para trás para dar lugar ao novo, às novas rotas que podemos seguir?

As perdas são reais, em diversos níveis, e a dor é um fato, o isolamento é um fato. Mas estamos vivos. Temos a imaginação, temos a arte, temos o campo simbólico. Podemos nos adaptar, nos solidarizar, cuidar uns dos outros, e nem tínhamos tanto disso antes da pandemia como temos agora. Podemos desenvolver o nosso senso de alteridade, de olhar para o outro como ser humano.

Não temos culpa pelo que não podemos controlar, mas temos responsabilidade diante daquilo que podemos fazer, e essa responsabilidade existe num nível pessoal e coletivo. Se passarmos ao largo disso, o que teremos aprendido? E é aí que podemos ir para uma sexta fase do luto: a da busca do significado, dos aprendizados que podem ser colhidos a partir dos traumas e perdas que estamos enfrentando. Temos uma tarefa a cumprir. Vamos cumprí-la?

Érica Bandeira Machado
Psicóloga analítica
Sócia-diretora do coletivo de psicólogas Artesania Psicologia Analítica.


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