Veja como funcionam as hortas sociais de Fortaleza e quem tem direito a alimentos grátis

Projeto distribuiu mais de 60 mil quilos de alimentos em 2025 e beneficia cerca de três mil pessoas.

Escrito por
Ana Alice Freire* ana.freire@svm.com.br
Uma horta comunitária protegida por uma estrutura de sombrite exibe diversas fileiras de vasos pretos organizados sobre bancadas de madeira. As plantas, em diferentes estágios de crescimento, incluem folhagens verdes viçosas, como alfaces e couves, irrigadas por um sistema de tubos brancos. Ao fundo, é possível ver casas e árvores de uma área urbana sob a cobertura translúcida.
Legenda: Desenvolvida em 2024 na avenida José Jatahy, Horta Social da Jacarecanga beneficia mais de 400 pessoas a cada colheita.
Foto: Fabiane de Paula

Promover o acesso gratuito a hortaliças frescas em áreas de insegurança alimentar por meio do cultivo no meio da Cidade. Esse é o objetivo das Hortas Sociais da Prefeitura de Fortaleza

Em seis estufas espalhadas pela Capital, nos bairros Conjunto Ceará, Granja Portugal, Conjunto Palmeiras, Jacarecanga e Sapiranga, são cultivados alimentos como alface, couve-manteiga, coentro, pimenta-de-cheiro, maxixe e tomate-cereja. E distribuídos gratuitamente para a população.

Visto de costas, um homem de camiseta verde com o logotipo
Legenda: A manutenção dos jardins é realizada por uma equipe técnica e voluntários da comunidade.
Foto: Fabiane de Paula

Nos galpões onde são realizadas as colheitas, uma vez a cada 30 ou 40 dias, cerca de 400 cidadãos de cada bairro se enfileiram para receber os alimentos a partir das cinco da manhã. Cada colheita rende entre 700 quilos e uma tonelada de frutas e verduras. Atualmente, cerca de três mil pessoas são beneficiadas direta ou indiretamente pela iniciativa.

Mais do que distribuir alimentos, o projeto aposta na educação e segurança alimentar. Clara Cavalcante, coordenadora de Segurança Alimentar e Nutricional da Secretaria dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS) aponta que muitos beneficiários, antes das hortas, optavam por produtos industrializados, mais baratos e acessíveis, mas com menor valor nutricional.

A partir do momento que as pessoas começam a receber gratuitamente, elas passam a perceber os benefícios e começam também a priorizar esses alimentos
Clara Cavalcante
Coordenadora de Segurança Alimentar e Nutricional da SDHDS

Em um plano detalhado e próximo, um bico gotejador vermelho, conectado a um tubo de PVC cinza, libera jatos finos de água diretamente na terra escura de um vaso preto. Uma muda de alface de folhas verdes e onduladas cresce logo acima do ponto de irrigação, enquanto outros vasos semelhantes aparecem enfileirados ao fundo. A iluminação é natural, destacando a umidade no solo e a textura das folhas.
Foto: Fabiane de Paula

Vínculos e pertencimento graças às hortas

Voltado prioritariamente para idosos e pessoas em situação de insegurança alimentar, o projeto se tornou ainda espaço de convivência. De acordo com a coordenadora, a participação tem impacto direto na autoestima do público idoso. “Nessa idade, muitos ficam mais em casa e não se sentem tão úteis. Fazer parte de algo coletivo é importante”, elenca.

A dimensão social se reflete no cotidiano de quem participa. Alexandra Brito, 54, moradora da Jacarecanga, frequenta a horta há cerca de um ano. Ela conheceu o projeto ao ver a movimentação da comunidade e decidiu se aproximar. Hoje, atua como voluntária desde o preparo do terreno até a distribuição dos alimentos.

“A alimentação melhorou muito mesmo. A gente vê a diferença no gosto, no sabor, na textura. É tudo muito natural”, relata. Segundo ela, além da qualidade, há impacto no orçamento familiar. “Faz diferença no fim do mês. E, se a pessoa planta em casa, pode ter alimento diariamente.”

Alexandra também destaca o aspecto afetivo. Diz que criou amizades, desenvolveu novos conhecimentos e resgata memórias da infância no interior todas as vezes que come um alimento preparado pelos alimentos da horta.

“É comida caseira, direto do pé. A gente desacelera, larga o celular, mete a mão na terra. Vira uma família.”

Além da colheita, são realizadas oficinas quinzenais, campanhas e palestras sobre cultivo e alimentação saudável. Os participantes recebem mudas para implantar hortas caseiras, incentivando o chamado “quintal produtivo”. “Não é só receber. Existe um sentido, um aprendizado, uma participação social”, reforça a nutricionista responsável técnica do Município, Thays Mayara.

A psicóloga Thamara Dias, mestra em Psicologia Social e de Comunidades, avalia que hortas comunitárias funcionam como estratégias coletivas de enfrentamento não apenas da fome, mas das desigualdades. Ela ressalta que esses espaços promovem conscientização social e fortalecem a compreensão política e comunitária. “A coletividade aparece como saída. Isso impacta diretamente no dia a dia dessas pessoas”, afirma.

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Como receber os alimentos das hortas sociais?

Os alimentos são distribuídos mensalmente para idosos e pessoas de baixa renda cadastradas no projeto municipal, por ordem de chegada. Para se inscrever, é necessário apresentar RG, CPF, comprovante de residência e Número de Inscrição Social (NIS) diretamente em uma das hortas.

O que excede as colheitas é destinado a cozinhas solidárias e organizações que atendem populações vulneráveis. Só no ano passado, cerca de 17 projetos foram contemplados. “Se a pessoa não conseguiu chegar até aqui, através dessas organizações ela também consegue acessar os alimentos”, explica Thays Mayara.

Confira os endereços das Hortas Sociais

Horta Social Alameda das Palmeiras

Residencial Alameda das Palmeiras (Av. Coletora Central - ao lado do Posto de Saúde Acrísio Eufrasino de Pinho)

Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 7h - 10h e 15h 

Horta Social do Conjunto Palmeiras

Av. Castelo de Castro, 2842 - Conjunto Palmeiras

Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 7h - 10h e 15h - 17h

Horta Social da Granja Portugal

Rua Humberto Lomeu, 1120 - Granja Portugal

Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 7h - 10h e 15h - 17h

Horta Social do Conjunto Ceará

Local: Av. F, 540 - Conjunto Ceará

Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 7h - 10h e 15h - 17h

Horta Social Sapiranga

Av. Dr. Corrêa Lima, s/n - Sapiranga (ao lado do Ecoponto Sapiranga II)

Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 7h - 10h e 15h - 17h

Horta Social Jacarecanga

Avenida José Jatahy - s/n - Jacarecanga (ao lado da praça Carlos Jereissati

Horário de funcionamento: Segunda a sexta-feira, das 7h - 10h e 15h - 17h

 

*Estagiária sob supervisão das jornalistas Dahiana Araújo e Mariana Lazari.

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