Fortaleza teve 1º surto de chikungunya há 10 anos; veja cenário da doença hoje

Enfermidade provoca febre e dores intensas nas articulações.

Escrito por
Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
Vista de uma mulher em uma janela observando um quintal vizinho repleto de lixo, entulho e vegetação alta. O cenário ilustra um ambiente propício para o acúmulo de água e a proliferação de mosquitos transmissores de doenças.
Legenda: Assim como há 10 anos, terrenos baldios preocupam por serem possíveis focos do Aedes aegypti.
Foto: Fabiane de Paula.

A história da chikungunya em Fortaleza completa 12 anos de circulação em 2026, tendo os primeiros registros de moradores infectados datados de 2014. Mas dois anos depois, há exatos 10 anos, a capital enfrentava seu primeiro grande surto, com milhares de casos confirmados gerando uma pressão inédita sobre o sistema de saúde.

No início da transmissão, as investigações apontavam apenas para casos importados de pessoas que haviam viajado para áreas com circulação viral. A transmissão autóctone (dentro do próprio município) só foi confirmada em dezembro de 2015, antecipando o que ocorreria no ano seguinte.

Em maio de 2016, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) confirmou o primeiro surto epidemiológico da doença. Naquele ano, a transmissão sustentada se espalhou intensamente, resultando em 17.810 casos confirmados e 25 óbitos. Os dados históricos mostram que o pico da primeira onda concentrou-se entre os meses de maio e junho.

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À época, o gerente da Célula de Vigilância Ambiental e Riscos Biológicos da SMS, Nélio Morais, ressaltou ao Diário do Nordeste que a capital passava da fase de transição entre o cenário de importação para o de “transmissão autóctone sustentada”.

Com o aumento de casos em diversos bairros, notadamente nas antigas Regionais I e III, os planos de combate se voltaram para o mosquito Aedes aegypti, vetor comum de zika, chikungunya e dengue.

Página de jornal com a manchete SMS confirma surto de chikungunya na Capital (Fortaleza, 2016). Inclui um infográfico com sintomas, mapa de bairros afetados e uma foto de um homem observando um chafariz com água parada.
Legenda: Diário do Nordeste noticiou início de epidemia em 2016, que avançou ainda mais no ano seguinte.
Foto: Arquivo Diário do Nordeste.

Série histórica em Fortaleza

Após o impacto inicial em 2016, Fortaleza viveu em 2017 a maior epidemia de chikungunya da série histórica. De acordo com os boletins da Prefeitura, aquele único ano concentrou cerca de 60% de todos os casos já registrados na cidade (61.827 casos) e 75,4% dos óbitos (144 mortes).

Veja abaixo a história da doença na cidade após esse período:

  • 2018 a 2021: período de acentuada redução, com o cenário de transmissão residual representando apenas 1,3% dos casos totais da série histórica;
  • 2022: a doença apresentou reemergência, com mais de 20 mil casos confirmados e 19 óbitos, superando inclusive os números do primeiro surto de 2016;
  • 2023 a 2025: Fortaleza entrou novamente em um cenário de baixa transmissão. Em 2023, foram 298 casos; em 2024, o número caiu para 108; e, em 2025, foram registrados apenas 57 casos, sem notificações de mortes ou casos graves.

Em 2026, de janeiro ao dia 27 de abril, 14 casos foram informados como confirmações junto ao Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, reiterando a baixa transmissão dos anos recentes.

Apesar da diminuição, para o médico sanitarista e gestor em saúde Álvaro Madeira Neto, Fortaleza não deve interpretar a baixa transmissão desde 2023 como “uma autorização para relaxar”.

“Isso deve ser entendido como uma janela estratégica. A janela recente mostra que a chikungunya não desaparece; ela pode retornar quando a vigilância enfraquece e quando o território se desorganiza ou quando se perde mobilização”, entende.

O sanitarista aponta que surtos e epidemias não começam somente quando os casos explodem, mas bem antes, “nos bairros, nas condições de moradia, no acúmulo de resíduos, na água armazenada, nas falhas de saneamento básico, na baixa integração entre vigilância e atenção básica, na limpeza urbana e na educação em saúde”.

Em saúde pública, o silêncio epidemiológico nunca deve ser confundido com segurança. O que se esquece normalmente volta num formato de epidemia.
Álvaro Madeira Neto
Sanitarista e gestor em saúde

Mapa temático de Fortaleza dividido por bairros, mostrando a incidência de chikungunya em 2025. As cores variam de amarelo claro (1-2 casos) a laranja (2-3 casos), com a maioria das áreas em branco (sem registro).
Legenda: Mapa mostra incidência da chikungunya por bairro de Fortaleza em 2025.
Foto: Plano de Contingência 2026/SMS.

Plano de contingência em 2026

Para manter os índices sob controle e evitar que o cenário de baixa transmissão seja revertido, o Plano Municipal de Contingência de 2026 da SMS estabeleceu diretrizes rígidas para o enfrentamento da chikungunya, dengue e zika. 

As decisões focam na integração de tecnologias digitais e na mobilização social intensiva. Entre as principais estratégias e metas do plano para 2026, destacam-se:

  • Controle vetorial: reduzir o Índice de Infestação Predial para menos de 1% em todo o município, com inspeções em Pontos Estratégicos e a aplicação de larvicidas;
  • Ações de mobilização: estímulo à prática dos "10 minutos contra a Dengue" como uma ação semanal de prevenção e a "Operação Quintal Limpo" para remoção de criadouros em larga escala.
  • Vigilância: investigar oportunamente 100% dos óbitos suspeitos de arboviroses.

O coordenador da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covis) da SMS, Josete Malheiro, destaca ainda que a Pasta faz uma estratificação de risco na cidade inteira para tentar detectar como está o índice de proliferação do mosquito.

No último levantamento, 55 bairros tinham índice de infestação entre 1% e 4% (em situação de alerta) e um bairro (Parreão) no “vermelho”, acima de 4%. 

“Esse trabalho ocorre na perspectiva de eliminar focos existentes, orientar a população de forma mais intensa e também fazer a intervenção de bloqueio espacial do mosquito alado (o mosquito adulto)”, detalha.

O médico Álvaro Madeira Neto ressalta a importância de agir justamente no momento da baixa transmissão, elencando prioridades já descritas no plano: qualificar a vigilância, mapear áreas de risco, fortalecer agentes comunitários e de endemias, tornar a rede assistencial mais robusta e garantir orçamento “para gerar uma resposta rápida, quando houver necessidade”.

Além disso, o gestor em saúde comenta que engajar a população não é culpabilizar o cidadão, pois muitas vezes o criadouro não nasce de um simples descuido individual, mas da vulnerabilidade urbana acumulada. “A população participa mais quando vê ações concretas do poder público em respostas rápidas às demandas daquele território”, diz. 

Close-up das mãos de um agente de saúde coletando amostras de água de uma caixa acoplada de descarga quebrada. Ele utiliza um conta-gotas e um tubo de ensaio para fiscalizar focos do mosquito Aedes aegypti.
Legenda: Agentes de endemias de Fortaleza têm cronograma de visitas e inspeções a locais que podem ser foco do mosquito.
Foto: Divulgação/SMS.

Sintomas da chikungunya

De acordo com o Ministério da Saúde, um caso suspeito de chikungunya envolve o indivíduo que apresenta febre de início súbito, acompanhada de dor intensa nas articulações de início agudo. Além desses sintomas clássicos, a lista inclui:

  • Dores musculares
  • Dor de cabeça
  • Manchas vermelhas pelo corpo
  • Dor atrás dos olhos
  • Dor nas costas
  • Conjuntivite não-purulenta
  • Náuseas e vômitos
  • Coceira na pele, que pode ser generalizada, ou localizada apenas nas palmas das mãos e plantas dos pés
  • Diarreia e/ou dor abdominal (mais presentes em crianças)
  • Calafrios

De forma geral, a doença pode evoluir em três fases:

  • Febril ou aguda: tem duração de 5 a 14 dias
  • Pós-aguda: tem um curso de 15 a 90 dias
  • Crônica: se os sintomas persistirem por mais de 90 dias, especialmente a dor nas articulações, que pode durar anos.

O Ministério alerta que o vírus também pode causar doença neuroinvasiva, caracterizada por agravos neurológicos como: encefalite, mielite, meningoencefalite, síndrome de Guillain-Barré, síndrome cerebelar, paresias, paralisias e neuropatias.

Tratamento da chikungunya 

A prescrição de medicamentos (analgésicos para controle da dor) ou outras terapias é feito de acordo com os sintomas do paciente após avaliação médica, com aplicação de escalas de dor apropriadas para cada idade e fase da doença.

Até o momento, não há tratamento antiviral específico para a doença. Contudo, é necessário estimular a hidratação oral dos pacientes.

O surgimento de qualquer sintoma deve ensejar a procura por um profissional de saúde para o correto diagnóstico e prescrição dos medicamentos, evitando sempre a automedicação, que pode mascarar sintomas, dificultar o diagnóstico e agravar o quadro do paciente.

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