53% das famílias do CE, PA e SP nunca ou raramente leem livros para as crianças, diz pesquisa

Estudo analisou cenário brasileiro a partir de coleta de dados em 210 escolas públicas e privadas dos três estados.

Escrito por
Ana Beatriz Caldas beatriz.caldas@svm.com.br
(Atualizado às 16:43)
Pesquisa foi feita com crianças de 4 e 5 anos matriculadas na pré-escola.
Legenda: Pesquisa foi feita com crianças de 4 e 5 anos matriculadas na pré-escola.
Foto: Helene Santos/SVM.

Mais da metade das famílias do Ceará, do Pará e de São Paulo não lê ou raramente lê livros para as crianças. Esse dado faz parte do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância (International Early Learning and Child Well-being Study - IELS), pesquisa desenvolvida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e realizada no Brasil por uma coalizão liderada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Os resultados, divulgados nesta terça-feira (5), apresentam o nível de contato das crianças matriculadas na pré-escola com a literatura e fazem parte da análise sobre o ambiente de aprendizagem em casa (AAC) que integra a pesquisa, com foco nas interações, uso de dispositivos digitais e no envolvimento parental com a educação infantil. 

O estudo ouviu pessoas nos estados do Ceará, São Paulo e Pará. Foram analisadas 13 atividades extraescolares, como cantar, desenhar, brincar de faz-de-conta, contar histórias e ler para a criança. Um dos dados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi que, no Brasil, 53% das famílias entrevistadas afirmaram que nunca leem livros para seus filhos, ou leem menos de uma vez por semana.

A pesquisa também revelou que 33% dos entrevistados leem com os filhos de uma a duas vezes por semana e apenas 14% das famílias relataram que leem de três a sete dias por semana para as crianças

A informação preocupa porque, segundo a pesquisa, a média internacional de pessoas que leem de três a sete dias por semana para as crianças é de 54% – valor que ainda é considerado baixo pela OCDE. O Brasil, portanto, está muito longe dos outros países nesse quesito.

Ainda que o dado possa ser motivado pelo alto número de crianças em situação de vulnerabilidade econômica, o que dificulta a aquisição de livros, outra informação da pesquisa preocupa em relação ao contato dos pequenos com a literatura. 

Segundo o IELS, 51% das famílias ouvidas afirma nunca contar histórias que não estejam em livros para os pequenos, ou fazê-lo menos de uma vez por semana; 31%, que conta histórias para as crianças de uma a duas vezes por semana; apenas 17% responderam que a contação de histórias está presente de 3 a 7 dias por semana em suas casas. Assim como a leitura conjunta, a atividade é considerada pelos pesquisadores como essencial para estimular o desenvolvimento infantil.

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Quem participou do estudo?

Estudo realizou atividades lúdicas com crianças e questionários com pais e professores.
Legenda: Estudo realizou atividades lúdicas com crianças e questionários com pais e professores.
Foto: Fabiane de Paula.

O estudo entrevistou 2.598 crianças de 4 e 5 anos matriculadas em centros de educação infantil ou escolas de 89 municípios dos três estados brasileiros. Os dados foram coletados em 210 das 240 escolas previamente selecionadas para a pesquisa e os estados tiveram participação igualitária – ou seja, a pesquisa contribui com uma amostra representativa considerável de cada estado.

O Brasil foi o único país  da América Latina a participar do estudo. O Ceará foi o estado brasileiro com mais escolas participantes, com 73 instituições com coletas de dados, seguido pelo Pará, com 71 escolas, e São Paulo, com 66. 

Com o intuito de compreender as desigualdades socioeconômicas na primeira infância, a pesquisa buscou entender quantas das crianças cujas famílias foram entrevistadas são beneficiárias do programa Bolsa Família. 

Das ouvidas, 51,5% recebem o benefício de transferência de renda, 38% não recebem e 11,8% não responderam. A análise reflete que mais da metade das crianças que fizeram parte do estudo estão em situação de vulnerabilidade econômica.

18 milhões
de crianças têm entre 0 e 6 anos no Brasil, o que totaliza cerca de 9% da população

10 milhões
de crianças que estão na primeira infância são de famílias de baixa renda

Veja o perfil das crianças que participaram do estudo:

Qual a importância da leitura para crianças na primeira infância?

Leitura e contação de história estimulam desenvolvimento infantil.
Legenda: Leitura e contação de história estimulam desenvolvimento infantil.
Foto: Fabiane de Paula.

A falta de conexão das crianças das famílias entrevistadas com a literatura foi um dos pontos de destaque da pesquisa. Isso porque, além de estimular o interesse pelos livros, o ato de ler ou contar histórias para os pequenos contribui para a alfabetização e outros aspectos do desenvolvimento infantil.

“Conhecer os diferentes gêneros textuais faz parte da educação infantil, e a gente sabe que esse contato com os livros em casa é bastante importante. Quando a gente olha para outros estudos, simplesmente o fato de ter livros em casa está correlacionado com melhor desempenho”, explica a gerente de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Beatriz Abuchaim. 

A gestora destaca que, para que esse contato ocorra, é preciso fortalecer políticas intersetoriais, que levem essas informações às famílias e permitam o interesse e acesso à literatura. 

Período fundamental para a aprendizagem, a primeira infância compreende as idades entre 0 e 6 anos.

Além dos livros, a contação de histórias também pode atuar como educadora. Para Beatriz, todas as famílias têm histórias para serem contadas e é importante garantir “um momento para contar histórias, para explorar, para conversar com a criança sobre o que ela fez no dia”.

Um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, o doutor em educação Tiago Bartholo destaca que, mesmo entre famílias de alto nível socioeconômico, a leitura para as crianças não está presente. De acordo com a pesquisa, apenas cerca de 25% dessas famílias leem para os filhos três ou mais vezes na semana. 

“Acho que esse tipo de informação não está disseminada, as pessoas não têm clareza do quão importante isso é. Inclusive, tem vários estudos que mostram a formação de vínculo [derivada desse momento], então, não é só uma dimensão de aprendizado”, pontua.

Segundo Tiago, a divulgação do estudo, com dados inéditos referentes à temática, é importante para “o fortalecimento das políticas de parentalidade” não só na educação, mas em diferentes setores.

A diretora de políticas públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Marina Fragato Chicaro, destaca que o estímulo à leitura na primeira infância também é ponte para um futuro com menos desigualdades.

“A gente não está falando apenas de leitura, mas de fortalecimento de vínculo, de redução de violência e também de combate à pobreza multidimensional, inclusive o combate à pobreza monetária, como as transferências de renda”, pontua Marina. 

“Todo esse repertório de políticas – por exemplo, cidades feitas de forma mais amigáveis para as crianças, onde as famílias possam brincar em praças públicas – alcança essa criança e essa família e traz oportunidade para que as práticas sejam mais exercitadas e promovam o desenvolvimento infantil”, conclui.

Metodologia do estudo

O IELS foi desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2010 e aplicado pela primeira vez em 2018. Essa é a primeira vez que o Brasil participa da pesquisa. Neste ciclo, participaram, além do País, escolas do Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda e Malta, além da Inglaterra (Reino Unido). 

Nesta edição, os dados foram coletados entre maio e julho de 2025. Ao todo, a pesquisa analisou dez domínios, divididos em três eixos diferentes: aprendizagens fundamentais, funções executivas e habilidades socioemocionais

No Brasil, os estados escolhidos – Ceará, Pará e São Paulo – foram definidos a partir do interesse na participação e da maior amostragem possível de regiões brasileiras.

As informações foram coletadas diretamente com as crianças, a partir de atividades específicas relacionadas à literacia e numeracia e atividades lúdicas, como contação de histórias e jogos, e também por meio de questionários realizados com professores e pais ou responsáveis.

Segundo os pesquisadores, informações mais específicas relacionadas ao desempenho de cada estado analisado serão divulgadas posteriormente. O estudo mais amplo busca compreender a realidade dos três estados estudados como uma amostra do cenário brasileiro.

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