O sol que ilumina a cidade intensamente durante o ano inteiro é o responsável por ditar a hora da brincadeira. Em Fortaleza, por conta do calor e dos compromissos escolares, é costumeiramente no fim de tarde que os pequenos saem de casa em busca de parquinhos, do encontro com outras crianças e do contato com a natureza. 

Ao longo dos anos, o modo e os espaços de brincar se transformaram junto à capital cearense. Se antes ruas, campos de várzea e pequenas praças eram os mais ocupados, hoje a Cidade conta com espaços públicos mais adequados às necessidades das crianças, que dividem a atenção com espaços privados, como shoppings e condomínios.

Na semana em que Fortaleza celebra seus 300 anos, o Diário do Nordeste publica uma série de reportagens multimídia que ajudam a entender como a capital cearense chegou aos três séculos de existência, das disputas políticas aos marcos econômicos, das mudanças urbanas às memórias afetivas que atravessam gerações. Nesta matéria, o DN Ceará discute os impactos das transformações da Cidade nas brincadeiras de criança.

“Esses espaços são espaços que possibilitam que nós saiamos da nossa casa, que é aquele ambiente particular, para entender que a cidade é um espaço mais amplo”, ressalta Alexandre Queiroz Pereira, professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Observatório das Metrópoles.

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De acordo com o professor, o ato de se apropriar do espaço público na infância está relacionado ao aprendizado de dinâmicas sociais importantes.

“Significa também interagir com o mundo externo, aprender que a cidade é o espaço das convivências, do contato, de aprender a lidar com os fluxos, com as normas. É aprender também a estar no mundo e compreender as diferenças do mundo”, reflete Alexandre. 

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O que mudou ao longo da história de Fortaleza?

Cidade ganhou novos espaços, mas pracinhas seguem como ponto de encontro importante.
Legenda: Cidade ganhou novos espaços, mas pracinhas seguem como ponto de encontro importante.
Foto: Ismael Soares.

Se hoje há playgrounds, campos de futebol e outros espaços destinados a crianças na Capital – ainda insuficientes, conforme o professor Alexandre Queiroz –, há poucas décadas as atividades lúdicas se espalhavam sem lugar certo, com base principalmente na lógica da vizinhança, nas ruas e pracinhas dos bairros.

Apesar da falta de infraestrutura, outras questões permitiam a ocupação da Cidade pelos pequenos cidadãos, lembra Queiroz. “Tinha outros níveis de sociabilidade, de vida em bairro, que permitiam inclusive que a rua não se tornasse um lugar de perigo”, aponta.

Antes dos anos 2000, outro fator que contribuía para as brincadeiras nas ruas era a lógica de uma cidade “ainda muito baseada na horizontalidade das residências, que permitia um contato direto e o compartilhamento”, pontua Alexandre.

Hoje, com a expansão de Fortaleza como uma cidade “de muitos centros, muitas periferias e muitas realidades”, o professor aponta que há uma segmentação entre os espaços destinados a crianças que moram em bairros considerados de classe média – que dependem menos de espaços públicos de lazer – e crianças que moram em bairros mais pobres, mais dependentes dos equipamentos públicos.

“Nas classes médias, hoje o padrão é o condomínio-clube. As crianças são criadas ali naquele ambiente fechado, naquela espécie de comunidade fechada, baseada na renda, e nas proximidades. Esses condomínios são dotados de uma espécie de bolha de relação, que de certa maneira, dá possibilidade para a brincadeira, para o lazer, mas tira a diversidade que é própria da cidade, da diferença”, destaca Alexandre.

Vista aérea de espaço de brincadeiras na Praça do Polar, na Barra do Ceará.
Legenda: Vista aérea de espaço de brincadeiras na Praça do Polar, na Barra do Ceará.
Foto: Ismael Soares.

Para o pesquisador, ainda que a desigualdade demonstre as diferentes realidades das crianças da Capital, Fortaleza teve avanços relacionados aos espaços públicos destinados a um brincar acessível. “Até porque hoje se entende que é preciso ocupar o espaço público, que é preciso dotar as praças de melhor qualidade, para que as pessoas ocupem de diferentes maneiras”, pontua. 

“Nos bairros onde há mais precariedade, mas há um efeito de comunidade, você observa que as crianças podem estar sem opções, mas ocupam a rua, até como uma tentativa de subversão do que está posto. É assim: se não tem, vamos transformar a rua em uma quadra de futebol.”
Alexandre Queiroz Pereira

Os principais desafios são a manutenção desses espaços, a distribuição igualitária nas regiões da Cidade e o investimento em mobilidade urbana e acessibilidade, além de problemas contemporâneos, como o excesso de telas e os efeitos da violência, que muitas vezes fazem com que pais prefiram que seus filhos brinquem apenas em casa.

“Esse efeito do jogo, de você interagir pelo celular, pelo videogame, on-line, em rede, não permite [os mesmos] contatos. Com eles, você acaba reduzindo aquilo que historicamente é característica da cidade, do espaço público: o contato, o viver, o reconhecer, o aprender a se deslocar pela cidade sem medo, ter essa capacidade de entender o espaço de vida”, completa.

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Onde os fortalezenses brincam hoje em dia?

Apesar das desigualdades que ainda imperam em certas regiões da Cidade, o pesquisador da UFC afirma que hoje há uma tentativa de ampliar o número de equipamentos públicos de lazer para crianças na Capital. Um dos aspectos que chamam a atenção é a incorporação de novos parques urbanos, os chamados microparques, além das Areninhas.

Outro destaque são os Polos de Lazer, que começaram a ser constituídos na década de 1980, segundo Alexandre Queiroz, além das praças de bairro, que se mantêm como elo importante de comunidade e lazer e têm sido, muitas vezes, repaginadas com mobiliário urbano e playgrounds.

Gliciana e o filho, Saulo, em passeio no Polo de Lazer da Sargento Hermínio.
Saulo brinca no playground do Polo de Lazer.
Saulo brinca no playground do Polo de Lazer.
Legenda: Gliciana e o filho, Saulo, em passeio no Polo de Lazer da Sargento Hermínio.
Foto: Ismael Soares.

Frequentadora do Polo de Lazer da Sargento Hermínio, a estudante e dona de casa Gliciana Viana, 32, leva o filho Saulo, de 3 anos, para brincar no espaço e nos arredores. “Ele gosta de vir para ficar livre, porque a gente mora em apartamento, que é apertado, ele é filho único”, conta.

No espaço seguro destinado aos pequenos, Saulo gosta de correr, brincar no balanço e no escorregador e andar de bicicleta, além de fazer amigos, conta a mãe. “É bom para ele se desenvolver, conhecer outras crianças e outros ambientes, porque ele fica muito em casa”, destaca Gliciana, que também costuma levar o filho ao Parque Rachel de Queiroz, no Presidente Kennedy.

“O efeito vizinhança é muito importante. Quanto mais distante é aquele lugar da sua casa, mesmo que ele seja importante e dentro da própria cidade, ele tende a ser menos visitado ou às vezes nunca visitado, mesmo que você more naquela cidade”, destaca Alexandre.

Espaço de lazer na Praça do Polar.
Espaço de lazer na Praça do Polar.
Espaço de lazer na Praça do Polar.
Legenda: Espaços de lazer na Praça do Polar.
Foto: Ismael Soares.

Exemplo recente da importância das praças de bairro para a manutenção do brincar na Capital é a Praça do Conjunto Polar, na Barra do Ceará, que conta com diversos espaços para crianças, como quadra esportiva e playground gratuitos, além de brinquedos infláveis, atividades de pintura e outras iniciativas pagas.

Frequentador do espaço, o professor Geraldo Teixeira, 52, costuma levar o filho Mateus, de 4 anos, para brincar na pracinha quase diariamente. Morador da Barra do Ceará desde a infância, Geraldo viu o bairro se transformar ao longo das décadas. Ele conta que os espaços de lazer para crianças são algo recente e os principais equipamentos datam da última década, após o início do projeto das Areninhas.

Espaço de lazer na Praça do Polar.
Legenda: Espaço de lazer na Praça do Polar.
Foto: Ana Beatriz Caldas.

“Não tinha um espaço desse aqui não... Eu brincava no meio da rua. Só que naquela época as coisas eram bem diferentes, né? Você podia brincar no meio da rua que não tinha problema. E hoje você tem que ter um espaço para as crianças”, pontua.

O filho, que gosta de ir ao local para brincar no playground, correr e jogar bola, também tem a oportunidade de conhecer outras crianças no local – e tudo em segurança, ressalta o pai. “Hoje você tem que estar de olho o tempo todo. Os perigos são maiores: mais carros, mais bicicletas, mais motos, mais gente que não é de confiança. Num espaço desse aqui [o parquinho], reservado, fica mais fácil”, celebra.

Também frequentadora da Praça do Polar, a recepcionista Gardênia Rocha, de 36 anos, costuma levar a filha Maria Júlia, 10, para fazer amizades no parquinho. As duas frequentam o local desde que Maria tinha dois anos e costumam passear por lá pelo menos três vezes por semana.

“Ela não tem irmão, primo nem ninguém próximo [da mesma idade], e aqui tem outras crianças da idade dela. Então ela consegue socializar, brincar. Ela chega e já faz amizade com outras crianças”, conta. “Ela prefere estar na rua, e eu também prefiro trazê-la para esses espaços, para ela brincar com outras crianças, do que ficar no celular. É uma luta, mas a gente tem que tentar”, brinca.

Elis e Maria Júlia se tornaram amigas na Praça do Polar.
Legenda: Elis e Maria Júlia se tornaram amigas na Praça do Polar.
Foto: Ismael Soares.

Entre uma brincadeira e outra com a amiga Elis, 7, que conheceu na pracinha, Maria Júlia conta que gosta de ir ao local para brincar de pega-pega e encontrar as amigas que fez no local. O espaço é seu local de passeio favorito, além do shopping e da casa de amigos.

O publicitário Tiago Araújo, 37, pai de Elis, comenta que também vai à praça vários dias na semana, sempre no fim da tarde, para evitar que a filha fique muito tempo exposta a telas. “Eu vejo que isso deixa ela mais ansiosa, ficar direto nos ‘shorts’ do YouTube”, diz. Ele também vê no espaço uma opção barata de divertimento, já “que não gasta nada”.

Tiago e Elis são frequentadores assíduos da Praça do Polar.
Legenda: Tiago e Elis são frequentadores assíduos da Praça do Polar.
Foto: Ismael Soares.

Além das praças, a pequena tem ido com frequência à Estação das Artes, no Centro, para atividades infantis aos domingos. “Eu me cobro muito de trazê-la sempre para socializar nas praças, porque eu não brincava, era muito da escola pra casa. É uma forma de eu retribuir para ela”, conta Tiago.

Italo, Ryan, Davi e Pedro Davi se reúnem na praça para jogar futebol.
Legenda: Italo, Ryan, Davi e Pedro Davi se reúnem na praça para jogar futebol.
Foto: Ismael Soares.

Durante a semana, o espaço também é ocupado por adolescentes e jovens, muitos deles dedicados ao futebol e ao basquete na quadra poliesportiva. O estudante Pedro Davi Lima, de 15 anos, conta que vai à pracinha de cinco a seis vezes por semana, sempre no fim de tarde, para jogar bola com os amigos. “É um lugar acolhedor e dá para se divertir”, ressalta.

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Construção histórica, Cidade da Criança foi reformulada para os pequenos

Cidade da Criança antigamente.
Legenda: Espaço onde funciona a Cidade da Criança foi inaugurado em 1890.
Foto: Reprodução/Fortaleza em Bairros/Ipplan.

O espaço onde hoje está localizada a Cidade da Criança, no Centro de Fortaleza, já teve muitos nomes. Inicialmente conhecido como Lagoa do Garrote, o local foi inaugurado como parque em 1890 e passou a se chamar Parque da Liberdade. Em 1922, teve o nome alterado para Parque da Independência, em alusão ao centenário da Independência do Brasil, e passou a ser conhecido popularmente como Cidade da Criança em 1937.

Cidade da Criança, no Centro de Fortaleza.
Legenda: Cidade da Criança, no Centro de Fortaleza.
Foto: Ismael Soares.

Há décadas, o espaço – um dos mais antigos equipamentos destinados ao brincar na Cidade – tornou-se ponto de convivência e atividades ao ar livre. Em agosto do ano passado, reabriu de cara nova após obras de revitalização, com circuitos interativos, espaços temáticos e vários brinquedos novos para as crianças, e voltou a ser um dos espaços mais frequentados por famílias do entorno.

Irmãos se divertem no parquinho após a escola.
Legenda: Irmãos se divertem no parquinho após a escola.
Foto: Ismael Soares.

A dona de casa Raiane Carmo, 30, é uma das mães que costumam levar os pequenos para aproveitar o espaço nos fins de tarde. Juntos, os quatro irmãos – Jonas, 8, João, 7, Ayla, 5, e Maria, 3 – aproveitam os brinquedos educativos, correm e se divertem por lá quase diariamente, sempre após a escolinha.

“É muito legal, porque brincar também é um desenvolvimento pra cabeça da criança, né? Se ficar direto em casa, eles ficam muito agitados”, comenta.

Quem também frequenta a Cidade da Criança é a diarista Jaqueline do Nascimento, 32. Natural de Crateús e moradora da capital cearense há pouco mais de um ano, sempre que pode ela leva o filho Luís Otávio, de 6 anos, para brincar ao ar livre. “É um lugar que a gente vê que é bom e adequado para trazer o seu filho. Ele gosta demais”, conta.

Balanço é um dos brinquedos favoritos de Luís Otávio, 6.
Legenda: Balanço é um dos brinquedos favoritos de Luís Otávio, 6.
Foto: Ismael Soares.

Além de possibilitar brincadeiras e interação para Luís, levá-lo para aproveitar o parque também serve como um alívio a lembranças tristes de própria infância, diz Jaqueline. “Eu não tive oportunidade de brincar. Naquela época era difícil, a minha brincadeira era mais no tempinho que eu estava na escola”, conta. Ainda menina, ela trabalhava na roça para ajudar os pais e tinha poucos momentos de lazer.

“O passado, para mim, não foi legal. Mas hoje, o presente, essa nova geração dos meus filhos, eu já entendo, deixo brincar, e acho muito importante. Faço os gostos dele, sempre que eu tenho um dinheiro eu compro um brinquedo ou uma coisa diferente pra ele”, explica. “Brincar é importante para o crescimento dele, para que ele possa estudar, participar de todas as coisas”, completa.

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“O ato de brincar é uma manifestação da vida”

Brincadeiras ensinam valores fundamentais às crianças.
Legenda: Brincadeiras ensinam valores fundamentais às crianças.
Foto: Ismael Soares.

Para o professor Marcos Teodorico, da Universidade Federal do Ceará (UFC), levar a brincadeira a sério pode transformar uma sociedade. Coordenador e curador do Museu do Brinquedo de Fortaleza e idealizador do projeto itinerante Brincarmóvel, ele destaca que atividades lúdicas são essenciais para a socialização, a integração humana e a aprendizagem.

“Penso também que o lúdico estimula as diferentes manifestações de linguagem e potencializa o desenvolvimento humano, em especial na vida da criança. O brincar estimula a imaginação e, através dele, a gente inova conceitos da nossa realidade, e de como estamos inseridos socialmente”, explica.

Por isso, apesar dos avanços nesse sentido na Capital, o pesquisador destaca que é preciso investir “em uma política pública consolidada, planejada, estruturada e pensada para a cultura do brincar” para que o direito ao lazer seja garantido. Pensando na estrutura de uma metrópole, essa política perpassa diversos setores, como infraestrutura, segurança, transporte, educação e mais.

“Um ambiente só pode ser apropriado se houver garantias mínimas para o cidadão, principalmente para o pequeno cidadão, se a gente garantir uma boa infraestrutura de um espaço público, a segurança pública desse espaço e equipamentos como os playgrounds ou espaços arquitetônicos pensados e desenhados para garantir a apropriação e o pertencimento do brincante”, destaca.

“Um lugar que não tem acolhimento ou proteção faz com que as pessoas não se apropriem dos espaços urbanos e acabem se direcionando aos espaços privados, como os shopping centers”, completa.

“O ato de brincar é uma manifestação da vida. Negar o direito de brincar seria negar o direito à vida, significaria negar o direito de viver. Todos nós — criança, adolescente, adulto ou a terceira idade — temos o direito de brincar.”
Marcos Teodorico

Além dos espaços dedicados ao lazer, a política deve focar também na cidade de maneira mais ampla, considerando a rua como um lugar de pertencimento das crianças e que, portanto, deve ser adequada às necessidades delas. 

O professor aponta três documentos como norteadores do brincar como direito fundamental: a Declaração Universal dos Direitos da Criança, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a Constituição de 1988. “Ao pensar na gestão de uma cidade, é preciso ter sensibilidade para proteger essas declarações e garantir o direito de brincar”, completa.

Políticas 'do brincar' devem ser garantidas às crianças.
Legenda: Políticas 'do brincar' devem ser garantidas às crianças.
Foto: Ismael Soares.

O arquiteto e urbanista Lucas Rozzoline, membro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Ceará (CAU/CE), reforça a importância de investir em ruas adequadas para brincadeiras e convivência, com mais espaços de sombra e para descanso.

“A rua é a primeira ‘escola de democracia’ da criança. É o território onde ela descobre a alteridade e a autonomia. Quando a rua é amigável e segura, ela molda uma identidade de confiança. Quando é hostil e dominada por carros, gera medo e isolamento”, pontua o arquiteto.

“O urbanismo deve resgatar a ‘rua completa’, onde o brincar é o principal indicador de saúde social. A identidade do fortalezense aos 300 anos precisa ser construída no chão da rua, transformando asfalto em afeto e vizinhança. Uma rua que é segura para crianças é segura para todas as pessoas”, conclui.