Com 42 psicólogos para 1,3 mil escolas públicas, alunos do CE reforçam carências por serviço

Os planos de educação e uma Lei Federal estabelecem o atendimento psicológico nas unidades de ensino. Mas, mesmo com a demanda, trabalho ainda é reduzido

Escrito por Thatiany Nascimento, thatiany.nascimento@svm.com.br

Ceará
escola pública
Legenda: A Lei Federal 13.935/2019 estabelece que as redes públicas de educação básica devem ter serviços de psicologia e de serviço social
Foto: José Leomar

Nas salas de aula há crianças e jovens com ansiedade, com depressão, angustiados. Carentes de apoio emocional e psicológico. Os planos de educação (o nacional, o estadual - no Ceará - e o municipal - de Fortaleza) preveem que as escolas devem ter psicólogos, embora não especifiquem quantidades. A Lei Federal 13.935/2019, reitera a determinação. Mas, na prática, em meio às muitas demandas o trabalho nas escolas carece de fortalecimento.

A rede pública estadual, que tem 406 mil alunos matriculados em 2022, conta com 30 psicólogos educacionais nas 20 Coordenadorias Regionais de Desenvolvimento da Educação (Credes) e na Superintendência das Escolas Estaduais de Fortaleza (Sefor), segundo a Secretaria Estadual de Educação (Seduc). 

Já em Fortaleza, o Serviço de Psicologia Escolar da rede pública municipal teve início no segundo semestre de 2020. A Secretaria Municipal de Educação (SME) afirma que são 12 profissionais de psicologia, além de dois estagiários recém-contratados neste trabalho. A rede tem 244 mil alunos em 608 unidades escolares. 

A estimativa da SME é que outros 10 universitários devem ser incorporados em breve para também atuarem no serviço, mas não há especificação de prazos.

No dia a dia, equacionar a situação dos alunos, a quantidade de escolas, o número de estudantes e de profissionais e o volume da demanda é missão difícil.

No ano letivo de 2022, período que, até o momento, é o mais regular dos últimos anos, a necessidade de apoio psicológico é ainda mais evidenciada nas unidades. 

Rede Pública Estadual  - Ceará

  • Escolas: 746
  • Alunos: 406 mil
  • Professores: 13,5 mil
  • Psicólogos educacionais: 30

Rede Pública Municipal - Fortaleza

  • Unidades escolares: 608
  • Alunos: 244,5 mil
  • Professores: 11,7 mil
  • Psicólogos educacionais: 12

Nervosismo e estresse

Em Fortaleza, na Barra do Ceará, a estudante Rayssa Braga Medeiros, 16 anos, conta que na Escola Estadual de Educação Profissional Marvin, é perceptível situações em que há “nervosismo coletivo” e um “estresse intensificado”.

Problemas que já existiam ganharam ainda mais notoriedade após 2 anos de ensino remoto/híbrido. 

"Notamos que os alunos precisam de atendimento psicológico e os pais muitas vezes não ajudam.  Muitas pessoas pararam de estudar na pandemia e estão voltando agora. Ficam nervosas quando escutam os professores dar bronca. Muitos estão com fobia social. É realmente necessária a presença de psicólogos para ajudar”. 
Rayssa Braga Medeiros
Estudante

De acordo com Rayssa, há 2 meses, ela também viveu uma experiência ruim, uma espécie de crise de ansiedade na escola. “Íamos ter um seminário e houve desentendimento entre alunos e a professora, ficou um clima horrível e eu e mais sete garotas nos sentimos muito mal. Ficamos tensas, enjoadas, nervosas”, relata.

escola pública
Legenda: Muitos adolescentes relatam temores ligados às avaliações escolares e às inseguranças sobre desempenho.
Foto: José Leomar

A coordenação foi acionada, relata ela, a professora e alunas tiveram um ciclo de conversa e conseguiram resolver o problema. “Nós, como estudantes, precisamos muito de apoio psicológico. Muitos estão entrando de novo na escola. Reaprendendo. É um estresse e não estamos sabendo lidar. Vários alunos não têm apoio psicológico em casa e procuram na escola”, completa.

No bairro Siqueira, uma aluna do 8º ano da rede municipal - que pediu para não ser identificada - conta que no retorno deste ano também tem sentido que “muitos estudantes não estão se entusiasmando, nem conseguindo dar conta do ‘psicológico’ e dos estudos”. 

Na unidade em que estuda, diz ela, os relatos são recorrentes do quanto a “cabeça está  confusa”. Isso, no começo do ano letivo, a fez pedir ajuda a uma professora de Psicologia, que ela já conhecia, da Universidade Federal do Ceará. 

A ideia da estudante é garantir que a escola possa ser inserida no programa de extensão “Escutas Sensíveis” do Grupo de Pesquisa e Intervenção sobre Violência, Exclusão Social e Subjetivação, e com isso, ações de apoio emocional e psicológico possam ser mais recorrentes na unidade. 

De acordo com ela, a busca pela iniciativa é fruto da percepção da necessidade no cotidiano. “O pessoal (da UFC) foi na escola e conversou com a diretoria. Mas ainda estamos aguardando. Em 2021, eu participei (do projeto de extensão) e fui encaminhada para uma psicóloga. E me ajudou muito. Se chegar até minha escola vai ser muito bom”.  

Necessidade de amparo emocional 

“A escola precisa se preocupar não só com as demandas cognitivas, mas com as demandas emocionais”, reforça a psicóloga clínica e escolar, Lorena Lopes. Ela esclarece que o trabalho nas escolas não é clínico, portanto, não é uma terapia, mas sim mas sim uma escuta para acolhimento. 

Lorena reforça que muitas crianças e adolescentes trazem demandas familiares nos atendimentos, bem como dilemas relacionados à adolescência; o conhecimento em relação ao corpo, a puberdade;  além de temores ligados às avaliações escolares, às inseguranças sobre desempenho. 

“Passaram os dois anos em casa e quando voltaram ao convívio social estão inseguros para fazer avaliação. O profissional da Psicologia vai, de algum modo, orientar essas crianças e adolescentes. Fazer intervenções em grupo, roda de conversa sobre a importância da educação socioemocional. Pode produzir podcast, dramatizações”. 
Lorena Lopes
Psicóloga clínica e escolar

Ela também destaca que a aceitação dos psicólogos nas escolas, em geral, é positiva por parte dos alunos que têm interesse em buscar uma pessoa que os compreenda sem julgamentos.

“Quando não há psicólogos, os próprios professores acabam fazendo esse trabalho mais de acolhimento, com o aluno de modo mais individual”, completa. 

O que é feito nas escolas públicas?

O número de psicólogos na rede estadual do Ceará e na municipal de Fortaleza é muito baixo frente a quantidade de escolas e alunos.

Questionada se, em 2022, foi identificado aumento na demanda por cuidados em saúde mental e como isso tem sido resolvido, a Seduc informou, em nota, que logo no início de 2022,  divulgou as diretrizes para o ano letivo e a rede “foi orientada a desenvolver um olhar cuidadoso para com os sentimentos e emoções de todos os que fazem parte da comunidade escolar”. 

Escola
Legenda: A estrutura da escola possui três pavimentos, com 12 salas de aula
Foto: Felipe Azevedo

Conforme a pasta, cada estabelecimento, conforme a realidade, foi orientado a elaborar um plano de acolhimento, especificando as linhas de atuação, as estratégias, o tempo e o público-alvo envolvido. A proposta, diz a Seduc, podia contar com a colaboração ou sugestões dos psicólogos educacionais. 

Desde 2018, informa a Seduc, está em curso a Política de Desenvolvimento de Competências Socioemocionais, composta de nove iniciativas, dentre elas, psicólogos educacionais.

A pasta foi questionada se com o recuo da pandemia e o retorno presencial, houve algum incremento no número desses profissionais. Mas, não foi respondida especificamente. 

Na rede municipal, a SME, explicou em nota que desde o segundo semestre de 2020, conta com o Serviço de Psicologia Escolar e os psicólogos escolares “realizam atividades diversas durante a semana, de acordo com as prioridades diagnosticadas por meio de um formulário eletrônico”.
 
Os gestores escolares solicitam apoio, diz a pasta, “descrevendo brevemente as necessidades da escola”. Com isso é estabelecida visita, diálogo com os gestores escolares e contato com alunos e professores.

O serviço também tem o Plantão Psicológico Escolar (PPE), que, garante a SME, oferta suporte emocional para todos da comunidade escolar, através de ligações telefônicas.

Já para os professores, uma possibilidade de acompanhamento é a parceria com o Grupo de Apoio à Saúde Mental dos Professores em Tempos de Covid-19 (GASP), do Curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor). No trabalho são realizadas rodas de conversa por meio de videoconferência. 

 

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