A três meses do São João, quadrilhas juninas de grande porte não têm local para estrear em Fortaleza
Sem acesso a ginásios tradicionais como Paulo Sarasate, Aécio de Borba e Parangaba, grupos podem estrear em locais privados e com menor capacidade de público.
Embora Fortaleza tenha reconhecido as quadrilhas juninas como seus "patrimônios culturais imateriais" no ano passado, essa valorização — publicada no Diário Oficial do Município (DOM) e no "Livro de Registro das Formas de Expressão" — teve pouco ou nenhum efeito na rotina de ensaios, estreias e apresentações dos grupos este ano. Faltando menos de três meses para o São João, seis das quadrilhas de maior porte da Capital ainda não sabem onde farão suas estreias porque enfrentam obstáculos para utilizar equipamentos públicos.
Tradicionalmente, os ensaios e as estreias dos grupos ocorrem em três ginásios: Paulo Sarasate (Aldeota), Aécio de Borba (Benfica) e Parangaba (bairro homônimo).
No entanto, este ano, nenhuma agremiação conseguiu ensaiar nos equipamentos e não foram oferecidas datas adequadas para as estreias. "A gente mandou e-mail [solicitando o uso de um dos ginásios] em setembro do ano passado, mas a gente não foi respondido. A gente encaminhou esse e-mail umas seis vezes e disseram, depois, que o equipamento estaria ocupado na data do evento. Essa resposta foi dada para todos os grupos juninos", afirmou o vice-presidente da Quadrilha Junina Babaçu, Taywan Ramires.
As solicitações são feitas à Secretaria do Esporte e Lazer (Secel), responsável pela administração dos ginásios. Segundo o titular da pasta, Anderson Pinheiro, foram oferecidas "algumas datas" para os grupos, mas em abril e julho — quando não é usual estrear uma quadrilha junina.
"Desde o primeiro momento, a gente se colocou à disposição para conversar. Chamei todos [os representantes], justamente para a gente demonstrar que estamos à disposição para ajudar. A secretaria dispôs algumas datas, mas eles não tiveram como reservar, aí desistiram, pararam. A gente precisa de liberações que partem do Corpo de Bombeiros, e eles acharam um pouco complexo", comentou o gestor.
O aumento no rigor da documentação exigida para a reserva dos espaços também é alvo de críticas das agremiações, que disseram ter pouco tempo hábil e recursos insuficientes para arcar com tudo. Conforme a portaria nº 18/2025 da Secel, que trata da regulamentação para a utilização dos equipamentos municipais, são exigidos ao menos dez documentos para a reserva, entre eles Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) das estruturas montadas e da sonorização e alvarás do Corpo de Bombeiros, por exemplo.
Sem equipamentos próprios disponíveis atualmente para ceder às quadrilhas, a Secretaria da Cultura (Secultfor) busca mediar o diálogo junto aos grupos e à Secel, mas reconhece que ainda não houve "conciliação de agendas". Entenda melhor a situação a seguir.
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Grupos se sentem 'desvalorizados'
Ricardo Costa, administrador da página "Conexão Junina" e ativista do movimento, reforçou que grupos tradicionais como Junina Babaçu, Zé Testinha, Filhos do Sertão e Ceará Junino solicitaram o uso dos equipamentos em setembro do ano passado, mas não receberam datas adequadas. "Os equipamentos são usados em dois períodos: janeiro e fevereiro para ensaios e, depois, vem a temporada de estreia", diferenciou.
As apresentações que abrem os festejos juninos devem ser feitas, no máximo, até o segundo fim de semana de junho, ou "fica tarde demais para estrear". "A gente explicou essa situação para a secretaria. Em outros anos, a gente nunca teve esse problema, estamos tendo este ano. A gente sempre fazia [estreia] no ginásio Aécio de Borba, que tem toda a estrutura de logística e de público que atende ao formato", disse.
A Secel informou que todos os três equipamentos que costumam ser usados pelas quadrilhas estariam ocupado nas datas solicitadas, fosse por eventos esportivos, de educação ou políticos. "O 'não' que a secretaria dá é somente quando não tem possibilidade", afirmou o titular da pasta, Anderson Pinheiro. Ele acrescentou que foram mostradas datas, mas, devido às atividades que já estão agendadas, "porque o fluxo [de uso] é grande", não foi possível conciliar agenda.
Para Taywan Ramires, da Junina Babaçu, o diálogo com a Prefeitura é "truncado, muito difícil", e ele sente que a gestão está "desvalorizando a cultura local". Além da falta de data e local, a documentação exigida atualmente tem, praticamente, barrado o uso dos espaços. "Exigiram uma documentação muito difícil para os grupos juninos terem. A gente entende, mas não consegue cumprir o prazo disso. [...] Começaram a dificultar muito", desabafou.
Embora considere o secretário Anderson "muito atencioso", Ricardo Costa critica a "falta de transparência" do Executivo em relação aos agendamentos que existem e lamenta que os grupos ainda estejam sem local para fazer seus eventos: "Alguns grupos de menor porte fazem estreias nas praças, em colégios, mas a gente está falando de grupos que arrastam multidões".
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Quadrilhas terão que se apresentar em espaços privados e com público menor
Sem acesso a equipamentos públicos, as quadrilhas terão que alugar espaços privados — como o Náutico, na Beira Mar, e o Ginásio do Vozão, no Jardim América — para estrear no São João deste ano. Além de exigir mais dinheiro dos grupos, a solução paliativa fará com que os públicos sejam mais enxutos, pela baixa capacidade dos locais.
São eventos que abrilhantam o início da temporada junina em Fortaleza. Quando você reduz o espaço disso, menos pessoas vão assistir. O impacto é muito menor para a grandiosidade desses eventos e o respeito que precisam ter".
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O que a Prefeitura aponta como solução para o problema?
De acordo com a Secultfor, que afirma atuar de "forma contínua no fortalecimento do Ciclo Junino de Fortaleza", a rede de equipamentos vinculados à pasta ainda não dispõe de um local em conformidade com as especificidades indicadas pelos grupos juninos.
Contudo, a secretaria estuda, para o próximo ano, a possibilidade de ceder a nova sede da Escola Pública de Música da Vila das Artes, no Grande Montese, para a realização dos ensaios e das apresentações das quadrilhas. Não é possível neste momento porque o "prédio segue em reforma, com previsão de finalização em maio".
Foi o investimento da Prefeitura no Ciclo Junino de Fortaleza em 2025, segundo a Secultfor.
"Recentemente, a Secultfor anunciou ainda mais investimentos no Ciclo Junino 2026. Entre as novidades, a ampliação dos valores de apoio a grupos [de R$ 18 mil para R$ 30 mil], e festivais [de R$ 18 mil para R$ 25 mil], a expansão do Festival Municipal de Quadrilhas, agora com três dias de programação, e a democratização do acesso às competições. [...] Como parte das ações de valorização da cultura popular, a gestão municipal destinou R$ 450 mil para a manutenção das tradições juninas, contemplando 45 iniciativas", acrescentou a pasta.
Já a Secel, que disse reconhecer a importância dos festejos juninos para a cultura, garantiu que também planejará a cessão de um espaço que assegure as apresentações e que não desfalque as demais atividades. "Todo ano [os ensaios das quadrilhas juninas] batem com o Campeonato [Cearense de Futebol]. A gente tem que ajudar todos", ponderou.