Teatroterapia tem sido alternativa para combater timidez, ansiedade e até medo de falar em público
Em Fortaleza, iniciativas ampliam as possibilidades da arte cênica enquanto recurso terapêutico voltado a crianças, jovens e adultos
Em Fortaleza, a arte teatral vem se conectando com outras áreas de atuação. A partir da teatroterapia, inúmeros adeptos procuram amenizar a timidez, o medo de falar em público ou interagir socialmente. Para algumas pessoas, estas sensações dificultam inúmeras atividades do cotidiano, sejam na escola, trabalho e até nos relacionamentos amorosos.
Assim, as técnicas teatrais colaboram enquanto recurso terapêutico. Com uma terceira turma iniciada em março, a Cia. Teatral Acontece vem desenvolvendo a formação em teatroterapia. Um detalhe, não precisa ser ator ou atriz para participar das aulas.
Segundo Almeida Júnior, diretor da Acontece, os encontros trabalham habilidades como a empatia, comunicação e oratória. Os estudantes trabalham a busca por autoconhecimento, autoconfiança e autoestima a partir da arte. Nos depoimentos de ex-alunas, a experiência ajudou a conectar novas perspectivas de lidar com demandas comuns da vida.
Ainda no território do teatro enquanto ferramenta de equilíbrio e saúde, acontece na capital a atividade chamada Oficina Terapêutica. Ela alia psicologia e técnicas da arte teatral para atender o público infantil, bem como mulheres e jovens. Em comum, as duas iniciativas realizadas na cidade nasceram como respostas aos efeitos da pandemia da Covid-19.
Como funciona o Teatroterapia?
Desde 2002, a Cia. Teatral Acontece realiza atividades voltadas à classe teatral e comunidade em geral. Contribui na criação de cursos de iniciação teatral, festival de esquetes, espetáculos e outras ações de democratização do teatro no Ceará.
Almeida Júnior descreve que idealizou o curso de Teatroterapia ainda em 2019. O objetivo inicial era unir técnicas teatrais a terapias integrativas. Contudo, devido ao contexto da pandemia, a efetivação do curso precisou esperar um pouco mais. "Vi que voltaríamos muito debilitados, principalmente a juventude, desse processo pandêmico", projetou.
Assim, a primeira turma foi formada em outubro de 2021. "Percebi nos alunos aquele medo, de olhar no outro, aquela fobia social, estavam ali, mas com muito medo. Com as aulas, isso foi se afastando, as pessoas começaram a se integrar, mas potencializadas", completa.
A atividade possui duração média de seis meses e se une às chamadas Práticas Integrativas e Complementares (Pics) como a biodança, constelação familiar e reiki. As Pics inclusas no curso fazem parte da lista de procedimentos disponibilizados pelo Ministério da Saúde.
As Pics não substituem um tratamento tradicional, mas atuam como um complemento. "São para pessoas que estão precisando de ajuda, não só psicológica, mas humana. De se sentir mais seguro consigo e que mesmo coma timidez pode viver e galgar caminhos", detalha acerca do curso.
Timidez e teatroterapia
"Sempre fui tímida, tive poucas oportunidades de frequentar teatro na infância e adolescência. Mas sempre soube que o teatro era muito bom para desenvolver competências de sociabilidade", conta a vendedora Thainá Barbosa, que participou da segunda turma.
Chamou atenção, revela a entrevistada, que além dos recursos do teatro, ela teria a oportunidade de promover o autoconhecimento. Por isso, optou pelo Teatroterapia e não um curso tradicional da área. "E foi ótima a experiência, pois me identifiquei muito com os jogos teatrais, acho importantíssimo para pessoa tímidas usarem esses jogos para ficarem mais à vontade em público".
Aprendi que precisamos sempre buscar novas situações que nos encorajem a ir além, assim como também não deixar de se amar e cuidar de si mesmo"
Toda a incertezas sentidas durante a pandemia pesaram posteriormente no dia a dia, aponta a aposentada Socorro Oliveira. Sempre recebia indicações do filho (estudante de teatro), sobre como a arte cênica podia ajudar a diminuir o estresse. Porém, não tinha interesse algum em ser atriz ou contracenar em um palco. A criação do Teatroterapia a fez mudar de ideia.
"Foi logo depois da pandemia, estava muito tempo em casa, muito estressada. Me apresentei, fui para aula inaugural, foi uma experiência inédita. Com as aulas tornei-me uma pessoa melhor. Tem o autoconhecimento interior e você passa a lidar e conversar mais consigo mesma".
Socorro trabalhou como secretária de hospital por 33 anos. Uma rotina exigente de contato com o público, explica. Mesmo sem prosseguir nos estudos de teatro, garante continuar frequentando o universo teatral, assistindo espetáculos e montagens. "Se eu tivesse conhecido o teatro antes, teria me desenvolvido muito mais no meu trabalho. Hoje sei ouvir melhor. Aconselho, vá em frente".
Foi a partir da indicação da psicóloga, que a ilustradora Karen Crysttina decidiu participar do Teatroterapia. "Sabendo que seria algo voltado para pessoas que enfrentam os mesmos problemas que eu, me senti preparada pra dar mais esse passo e fazer algo novo e desafiador".
Crysttina aponta que perdeu várias oportunidades na vida por conta da timidez e da ansiedade social. A participação, avalia, lhe permitiu ampliar os horizontes. "Foi excelente a sensação de autocuidado que senti durante essa experiência e fazer conexões com pessoas que enfrentam problemas diferentes ou parecidos. O que mudou em mim foi descobrir que eu sou uma pessoa corajosa e capaz", divide.
Oficina Terapêutica com as crianças
A psicóloga Lenilza Marques Coelho especializou-se no atendimento ao público infantil, quando decidiu estudar artes cênicas. O objetivo, elenca, era elevar o nível de criatividade, espontaneidade e produção no espaço de sala de aula.
A profissional aliou os estudos da Academia com o curso de Iniciação Teatral oferecido pela Cia. Teatral Acontece. Com o esposo e ator Niepson Melo, ambos formatam, em 2022, a Oficina Terapêutica voltada para crianças, mulheres e adolescentes.
"A Oficina Terapêutica foi pensada justamente por conta da minha percepção ao trabalhar em escolas. Notei o nível das crianças sofrendo com ansiedade, o receio de contato com o outro, de pedir ajuda. Dentro das minhas percepções na clínica e na escola, projetei: 'porque não trabalhar com oficinas?', resgata.
É muito nítido o que a pandemia deixou para nossas crianças. A dificuldade do aprendizado, dificuldades na habilidade emocional e social. Precisamos começar a olhar e dar atenção a essas crianças que estão chegando até nós"
A ação atende crianças a partir dos cinco anos e obedece à divisão por faixa etária. Um grupo é formado de cinco a sete e outro até os 10 anos. Normalmente são turmas pouco numerosos, pois é necessária a observação atenta.
"Trabalhamos o desenvolvimento da criança, verificamos o comportamento, as emoções, a interação social. Temos a nossa percepção, passamos um retorno para os pais e responsáveis como está o processo dela", conta.
Sobre a integração do teatro à prática da psicologia, a profissional reitera que, mesmo durante a faculdade, era perceptível como o teatro sempre esteve como recurso para terapia e encontros terapêuticos. "Ele fortalece o grupo, pois é dentro dessa habilidade do teatro que trabalhamos a criatividade, a ser espontâneos e entendermos questões sobre timidez e exposição ao público", finaliza a psicóloga.
Serviço:
Curso de Teatroterapia com a Cia. Teatral Acontece. Informações aqui.
Oficina Terapêutica com o ator Niepson Melo e a psicóloga Lenilza Marques Coelho (CRP 11/16938).
Informações: (85) 99966.2966