A humanidade na barbárie: Yan Boechat expõe em Fortaleza fotografias de guerra na Ucrânia

Mostra no Museu da Fotografia Fortaleza reúne 12 anos de trabalho do jornalista e fotógrafo brasileiro no conflito.

Escrito por
Paloma Vargas paloma.vargas@svm.com.br
(Atualizado às 20:15)
imagens da exposição no museu da fotografia fortaleza. em destaque, imagem de um homem andando com armamento.
Legenda: Exposição reúne cerca de 60 imagens capturadas pelo jornalista e fotógrafo brasileiro Yan Boechat, sob a curadoria de Fernando Costa Netto.
Foto: Divulgação.

O Museu da Fotografia Fortaleza (MFF) apresenta a exposição “Ucrânia: De Donbas a Kiev, 12 anos de guerra”, uma imersão visceral que atravessa mais de uma década de um dos conflitos mais brutais do século XXI.

Composta por cerca de 60 imagens capturadas pelo jornalista e fotógrafo brasileiro Yan Boechat, sob a curadoria de Fernando Costa Netto, a mostra celebra os nove anos do museu e propõe uma reflexão sensível sobre as consequências humanas da devastação.

Instalada no segundo piso, a exposição permanece em cartaz até agosto, convidando o público a confrontar a realidade crua de um território em constante colapso.

Para Boechat, o registro da guerra não deve ser confundido com um exercício de julgamento moral, mas sim como um testemunho da complexidade humana que insiste em existir mesmo em meio ao horror.

"Até na barbárie somos humanos. Até em nossa mais cruel violência somos humanos", reflete o fotógrafo, que contesta a visão de que o termo "humano" deve estar associado apenas ao que é belo ou divino.

Ele entende o próprio trabalho como uma documentação do que nossa espécie é capaz de realizar. "Meu trabalho humano é registrar o que nós humanos fazemos. Isso pode ser belo, mas pode ser também cruelmente violento".

Nesse sentido, as imagens expostas são oferecidas ao espectador como documentos brutos, sem filtros ideológicos que dividam o mundo de maneira simplista. 

"Espero que as pessoas vejam as imagens de coração aberto e entendam que esses são registros factuais de uma guerra bastante brutal. Não há uma tentativa de denunciar, de criticar qualquer lado, de buscar um discurso de 'bons contra maus' sobre esses fatos", explica Boechat.

Em entrevista para o Diário do Nordeste neste sábado (28), dia da abertura da exposição, ele ainda reflete sobre o papel do jornalismo nos eventos da humanidade:

Acho que nós, jornalistas, rascunhamos de forma muito superficial a história. Não acredito que nossos registros sejam capazes de alterar o estado das coisas, mas espero que eles sirvam, em algum momento, para que o passado possa ser revisto sob o viés da independência jornalística e da tentativa, ainda que utópica, de buscar a objetividade".
Yan Boechat
Jornalista e fotógrafo

A abertura da exposição teve uma palestra de Yan Boechat e do curador Fernando Costa Netto, com mediação do diretor presidente do MFF, Silvio Frota.

Yan Boechat, Silvio Frota e Fernando Costa Netto na abertura da exposição no MFF.
Legenda: Yan Boechat, Silvio Frota e Fernando Costa Netto na abertura da exposição no MFF.
Foto: Divulgação.

A jornada sensorial em três atos

A estrutura da exposição foi planejada para dar sentido a diferentes temporalidades e estados de espírito capturados ao longo de mais de dez anos de cobertura do fotógrafo e jornalista no conflito. No primeiro ato, é o silêncio do preto e branco quem chama o visitante ao impacto.

O resultado é fruto de uma escolha técnica deliberada. Boechat escolheu o uso de uma câmera analógica Rolleiflex (lançada em 1929). Ele explica que esta é uma câmera lenta, pouco propícia para a agilidade do front, o que o obrigou a uma postura mais contemplativa.

"Eu queria um olhar mais lento, mais poético, se possível, sobre esses acontecimentos. Usar a Rollei me faz baixar a ansiedade de ter a captura de um momento e me permitiu capturar mais os meus próprios sentimentos em relação ao que estou vendo".

imagens em preto em branco expostas na mostra, no museu da fotografia fortaleza.
Legenda: Imagens em preto e branco feitas com uma câmera analógica Rolleiflex (lançada em 1929) expõem postura mais contemplativa do fotógrafo.
Foto: Divulgação.

A transição para o segundo momento rompe a introspecção e mergulha o espectador no estrondo do combate através da série: “A Guerra em Cores”.

Ali, a fotografia torna-se puramente instintiva, reagindo às explosões, ao avanço dos blindados e ao fogo direto. "As fotos são mais esse momento de ação, sem muito espaço pra pensar, pra refletir, mas só reagir ao que está acontecendo diante de mim", detalha Boechat. 

O percurso termina em um terceiro ato focado na rejeição de imagens religiosas (iconoclastia). Monumentos soviéticos sendo derrubados revelam uma disputa que extrapola o campo de batalha, a tentativa de reescrever a história, apagar símbolos e reconstruir identidades. Não são apenas estátuas que caem, são narrativas inteiras que entram em colapso.

O registro de uma guerra entre iguais

O olhar de Yan Boechat sobre a Ucrânia é moldado por uma experiência rara. Ele transitou pelos dois lados da linha de frente, esteve tanto entre nacionalistas ucranianos quanto entre aqueles que se sentem parte do que chamam de "Grande Nação Russa". Essa vivência foi fundamental para que ele pudesse enxergar além da superfície e derrubar discursos prontos.

"Minha relação com o território e com as pessoas é moldada pela minha tentativa de compreender esse conflito para lá de sua superficialidade. Isso me ajudou a derrubar os discursos que moldam as guerras desde sempre".

Boechat aponta que o conflito ucraniano marca uma mudança profunda na natureza das guerras registradas por sua geração, que até então cobria combates assimétricos, como no Afeganistão, Iraque ou Síria, onde estados enfrentavam insurgentes ou grupos terroristas.

Na Ucrânia, o cenário é de uma "guerra simétrica" entre dois estados-nação com forças equânimes, o que não impede, contudo, o processo de desumanização do inimigo. 

Diante desse colapso civilizatório, o trabalho de Yan no MFF reafirma o poder essencial da fotografia: o de não nos deixar esquecer o que acontece quando a barbárie se torna o cotidiano.

Exposição "Ucrânia: De Donbas a Kiev, 12 anos de guerra"

Local: Museu da Fotografia Fortaleza (2º piso).
Endereço: Rua Frederico Borges, 545 – Varjota, Fortaleza.
Período: até agosto de 2026.
Visitação: de terça a domingo, de 12h às 17h.

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