O que é real e o que é ficção na série 'Emergência Radioativa'? Veja entrevista
Lançada pela Netflix, a série aborda desastre nuclear registrado em Goiânia,nos anos 1980.
O acidente com o Césio-137, marca traumática na história de Goiânia e do Brasil em 1987, virou tema da série "Emergência Radioativa", lançada pela Netflix na última semana, e trouxe de volta a discussão sobre os fatos abordados na obra. As consequências do ocorrido, por exemplo, tomaram conta das discussões entre espectadores e nas redes sociais.
"Acho que séries como a nossa, que resgatam episódios tão importantes, tão trágicos e, nesse caso, realmente esquecidos, cumprem exatamente essa função de resgatar a memória, de colocá-la novamente no consciente coletivo, até na esperança de que algo não se repita, que possamos dar um passo adiante", disse Johnny Massaro, intérprete do personagem Márcio, inspirado no físico Walter Mendes Ferreira, em entrevista coletiva.
Ficcionada, a série conta os eventos, em sua maioria, de forma fidedigna e cria uma espécie de linha do tempo para retratar a catástrofe em solo goiano.
Veja o trailer da série:
O início de tudo é um sinal capaz de retratar a escolha da obra. Assim como na vida real, a série aborda o ocorrido entre os dois catadores que encontraram um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica fechada. Os dois levaram o objeto a um ferro-velho, local onde a cápsula de Césio-137 foi aberta, criando o ambiente de contaminação em Goiânia.
Para Massaro, a importância de abordar temas como esse ressalta a possibilidade de uma obra artística se tornar meio para um debate crucial, ainda mais envolvendo um trauma tão doloroso para dezenas de brasileiros.
"A minha esperança é que a gente consiga, sobretudo para as vítimas que ainda estão aqui e ainda sofrem as consequências deste evento, que elas tenham o que elas merecem, porque são dores que ainda estão pulsando", reforçou o artista ainda durante a divulgação de lançamento da série.
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Nos cinco episódios da série "Emergência Radioativa", é mostrada a disseminação da radiação em solo goiano, retratando como os sintomas iniciais ocorreram e se espalharam rapidamente entre a população, especialmente manifestando-se por meio de vômitos, tonturas frequentes e queimaduras visíveis.
Outro detalhe chocante da obra buscou demonstrar a demora na identificação da radiação, bem como a dificuldade de encontrar de onde teria partido a contaminação.
O que é real e o que é ficção em "Emergência Radioativa"?
Comoção e vítimas
Entre os detalhes reais da série, a fidelidade de como a revolta da população ocorreu é um deles. Na época, moradores de Goiânia, em Goiás, sentiram o medo na pele diante das incertezas da contaminação.
Por conta disso, a obra aborda como foi realizado o isolamento das vítimas, das áreas em que o Césio-137 foi encontrado e até como a condução das autoridades foi percebida com consternação e revolta diante de todos os envolvidos na história.
Personagens
Alguns casos reais também foram adaptados para a série, enquanto outros fictícios foram criados para dar ainda mais corpo à narrativa.
Um dos mais chocantes, além de mais citado entre os espectadores da obra, é o caso da menina Leide das Neves. A criança morreu após ingerir material radioativo e é lembrada até hoje quando se fala da tragédia.
A menina faleceu aos 6 anos e era sobrinha do dono do ferro-velho que comprou a sucata contaminada de dois catadores. Eles, inclusive, fizeram o desmonte da máquina deixada pelo Instituto Goiano de Radioterapia.
Outro personagem inspirado na realidade foi o do próprio Johnny Massaro, Márcio. Ele condensa a história de uma série de cientistas que trabalharam no caso à época, mas aborda principalmente a figura do físico Walter Mendes Ferrreira, o primeiro a perceber a gravidade do Césio-137.
"Eu vi muitos vídeos sobre o que aconteceu", contou Johnny Massaro. "Eu via todos os dias, praticamente, as vítimas falando, os médicos, os físicos", continuou durante a entrevista.
Segundo o ator, houve um cuidado, mesmo que a premissa fosse o trabalho fictício, de estudar bastante sobre o ocorrido.
"A gente teve um cuidado absurdo, tivemos a assessoria do IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), assessoria dos físicos, dos médicos, de pessoas que viveram, que trabalharam lá. É justamente disso que falamos, da informação verdadeira, do conhecimento, da ciência. Se a série não tivesse esse cuidado, estaríamos errando já na largada", contou o artista.
Pessoas envolvidas no caso
Ainda assim, nas últimas semanas, críticas sobre as gravações da história, que ocorreram fora de Goiânia, repercutiram nas redes sociais. A Associação das Vítimas do Césio-137 afirma, por exemplo, que não foi ouvida no processo de construção da obra.
Apesar disso, produtores e criadores da série reforçaram que o objetivo não foi reproduzir a história de forma documental.